sábado, 18 de abril de 2015

A SOMBRA DO VAMPIRO

A SOMBRA DO VAMPIRO (Shadow of the vampire, 2000, Saturn Films/BBC Films, Long Shot Films, 92min) Direção: E. Elias Merhige. Roteiro: Steven Katz. Fotografia: Lou Bogue. Montagem: Chris Wyatt. Música: Dan Jones. Figurino: Caroline De Vivaise. Direção de arte/cenários: Assheton Gordon. Produção executiva: Paul Brooks, Alan Howden. Produção: Nicolas Cage, Jeff Levine. Elenco: John Malkovich, Willem Dafoe, Catherine McCormack, Udo Kier, Cary Elwes. Estreia: 13/5/00 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Willem Dafoe), Maquiagem

A imagem aterradora do ator Max Schreck como Nosferatu no clássico expressionista de F.W. Murnau lançado em 1922 é conhecida até mesmo por aqueles que nunca tiveram a oportunidade de assistir ao filme, um marco na história do cinema mundial e referência obrigatória até os dias de hoje. O personagem, inspirado no Drácula criado por Bram Stoker - mas que teve que ter seu nome alterado devido à proibição do autor em liberar os direitos de filmagem de seu livro - acabou tornando-se marca registrada de Shreck, um veterano ator dos palcos alemães que nunca mais conseguiu livrar-se do estigma de interpretar alguém tão marcante. Uma das lendas instauradas ao redor de seu nome - a de que ele seria um vampiro de verdade contratado para dar veracidade ao papel - é a base para o roteiro de uma curiosa reimaginação do mito, visualmente atraente e que quase deu a Willem Dafoe um Oscar de coadjuvante: "A sombra do vampiro". Mescla de comédia de humor negro, suspense e drama sobre os bastidores do cinema, o filme arrancou elogios desde sua estreia no Festival de Cannes de 2000, mas sofre de uma irregularidade que compromete seu resultado final.

A trama se passa na Berlim de 1921, quando o cineasta F.W. Murnau (John Malkovich, exagerando na composição mais uma vez) dá início às filmagens de seu "Nosferatu", adaptação não-oficial do romance escrito por Bram Stoker. Excêntrico por natureza, o cineasta surpreende ainda mais sua equipe quando diz a eles que o ator escolhido para o papel principal, Max Schreck (Willem Dafoe) - desconhecido de todos - tem um método muito especial para desenvolver o personagem, mantendo-se à distância do restante do elenco e dos demais funcionários (além de ficar permanentemente na pele do temível monstro). Não demora muito para que as atitudes de Shreck passem a incomodar, especialmente quando fatos estranhos começam a acontecer à sua volta, como a súbita doença do diretor de fotografia Wolfgang Muller (Ronan Vibert). O que ninguém sabe - com exceção de Murnau - é que o misterioso e calado ator é, na verdade, um vampiro verdadeiro, que aceitou o trabalho tendo como recompensa o sangue da atriz principal, Greta Schroder (Catherine McCormack). Resta ao diretor, então, manter em segredo sua negociação com o astro do filme e finalizar as filmagens.


O visual de "A sombra do vampiro" é interessantíssimo: a fotografia recria com perfeição o clima claustrofóbico do filme original de Murnau, enquanto elabora um atmosfera nova para retratar seus bastidores, oferecendo à plateia uma visão única do processo de criação de um dos maiores clássicos da sétima arte. A direção de arte caprichada mergulha o espectador na história, conduzindo-o por um labirinto feérico que remete aos belos enquadramentos do cineasta alemão e a maquiagem que transforma Willem Dafoe em Max Schreck beira a perfeição: não à toa, tanto ela quanto Dafoe foram indicados ao Oscar. Em uma caracterização inesquecível que caminha no fio da navalha do excesso, o ator - que foi escolhido para viver o Duende Verde no "Homem-aranha", de Sam Raimi graças à excelência de sua atuação - não hesita em abusar de todas as possibilidades que o papel oferece, esbarrando apenas na superficialidade do roteiro, que jamais tenta ultrapassar os limites da brincadeira e se satisfaz em apenas criar uma situação fascinante, sem explorá-la dramaticamente.

Essa falha de "A sombra do vampiro" em desenvolver a contento seus personagens acaba sendo seu calcanhar de Aquiles. Fosse um curta-metragem ou um videoclipe, o resultado seria uma pequena obra-prima, já que todos os elementos estão nos seus devidos lugares. Como filme, é difícil relevar o desinteresse que demonstra, por exemplo, pelo diretor vivido por John Malkovich, tornado um coadjuvante quase sem função na segunda metade da trama, quando as atividades de Shreck se tornam um problema tão grande que passam a ameaçar o término das filmagens - e acabam por encontrar um heroi na figura do fotógrafo substituto (vivido por Cary Elwes, que, coincidentemente ou não, também caçou um vampiro na versão de Francis Ford Coppola, "Drácula de Bram Stoker", de 1992). Interessante mas menos brilhante do que poderia ser, "A sombra do vampiro" é apenas um filme curioso, que ilustra uma das lendas mais fascinantes da história do cinema.

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