segunda-feira, 6 de abril de 2015

DO FUNDO DO MAR

DO FUNDO DO MAR (Deep blue sea, 1999, Warner Bros, 105min) Direção: Renny Harlin. Roteiro: Duncan Kennedy, Donna Powers, Wayne Powers. Fotografia: Stephen Windon. Montagem: Derek G. Brechin, Dallas S. Puett, Frank J. Urioste. Música: Trevor Rabin. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Joseph Bennett, William Sandell/Debra Echard. Produção executiva: Bruce Berman, Duncan Henderson, Jonathan Schwartz. Produção: Akiva Goldsman, Tony Ludwig, Don MacBain, Alan Riche. Elenco: Thomas Jane, Samuel L. Jackson, Saffron Burrows, Michael Rapaport, Jacqueline McKenzie, Stellan Skarsgaard, LL Cool Jr., Aida Turturro. Estreia: 26/7/99

A sequência inicial não deixa dúvidas da influência do clássico de Steven Spielberg: sob o ponto de vista de um gigantesco tubarão, um grupo de jovens ruidosos e irresponsáveis se diverte em um barco de recreio, sem imaginar que estão em vias de virar uma saborosa e farta refeição - ao menos até que a providência divina, na figura do bravo Carter Blake (Thomas Jane), interfira a favor dos humanos e impeça a carnificina. As semelhanças com o primeiro grande sucesso de Spielberg e o divertido "Do fundo do mar", porém, ficam apenas nessas primeiras cenas e na temática: exagerado, violento e por vezes involuntariamente engraçado, o filme de Renny Harlin - autor de "Duro de matar 2" e alguns dos maiores fracassos de bilheteria da década de 90, incluindo "A Ilha da Garganta Cortada", estrelado por sua então esposa Geena Davis - substitui a sutileza e o suspense de "Tubarão" pelos excessos típicos da megalomania de sua época. Feito com todos os recursos que um orçamento generoso pode oferecer, "Do fundo do mar" é um entretenimento escapista da melhor estirpe, desde que se deixe de lado o senso crítico e se embarque sem restrições na montanha-russa proposta pela trama absurda e inverossímil.

O herói da cena de abertura, Carter Blake - vivido pelo péssimo Thomas Jane, que depois assumiria o papel do Justiceiro em um filme que decepcionou crítica, fãs do personagem e público em geral - trabalha em um centro de pesquisas que busca a cura para o mal de Alzheimer, localizado em uma estação perdida em alto-mar. Conhecedor dos hábitos dos tubarões, ele ajuda a líder dos cientistas, Susan McCallister (a terrível Saffron Burrows) a manter as pesquisas - já em estado avançado e animadoras - a despeito da falta constante de verba. O problema financeiro, porém, parece estar em vias de acabar quando o magnata Russell Franklin (Samuel L. Jackson) visita as instalações e fica encantado com a seriedade do projeto, que também conta com o trabalho do dr. Jim Withlock (Stellan Skarsgaard) e dos jovens Tom Scoggins (Michael Rapaport) e Janice Higgins (Jacqueline McKenzie). O que deixa o milionário mais impressionado é saber que os tubarões estudados no local tiveram sua genética alterada pelos médicos, o que os deixaram muito mais inteligentes que os outros de sua espécie. Capazes de pensar muito mais rápido, se moverem com mais presteza e até de nadarem para trás, os enormes animais se tornam uma ameaça quase impossível de superar, porém, quando se revoltam contra os humanos à sua volta: depois de um inesperado e violento ataque de um deles, as coisas saem do controle e sobreviver à sanha assassina dos tubarões passa a ser o único objetivo de todos - inclusive de Preacher (LL Cool J), o cozinheiro das instalações.


Sem preocupar-se com o desenho dos personagens - que basicamente estão em cena para virarem comida de tubarão - a trama de "Do fundo do mar" é, na verdade, pretexto para levar o espectador a duas horas de uma diversão pura e simples. Mesmo prejudicado pela dupla central de atores - sem carisma e com talento dramático nulo - o filme de Harlin cumpre o que promete: tem ritmo, prega alguns bons sustos e diverte o bastante a ponto de esconder as inconstâncias do roteiro. A presença no elenco de nomes consagrados como Samuel L. Jackson e Stellan Skarsgaard dá uma certa credibilidade ao projeto, e o orçamento de 60 milhões de dólares não deixa que a alma de filme trash assuma o comando do resultado final, mas o fato é que, com sua mistura de cientistas malucos, violência extrema e diálogos muitas vezes canhestros, o filme dificilmente pode ser levado a sério. Esse choque entre o que ele realmente é e o que o estúdio quis promover acabou comprometendo seu desempenho nas bilheterias - em uma época onde superproduções de verão normalmente ultrapassavam a barreira dos 100 milhões de arrecadação, "Do fundo do mar" passou timidamente dos 70 no mercado doméstico. Erro de quem vendeu e erro de quem não quis comprar um dos filmes mais insanamente divertidos da temporada.

Para quem gosta de assistir a um filme sem compromissos com a realidade "Do fundo do mar" é um passatempo perfeito: recheado de personagens que servem unicamente para serem devorados sem pena nem dó pelos gigantescos tubarões (nem sempre convincentes mesmo com efeitos visuais de última geração), com altas doses de adrenalina e até um pouco do humor infame comum aos filmes do gênero - cortesia do rapper LL Cool J - o filme de Renny Harlin não decepciona. Basta se deixar levar, devorar uma bacia de pipocas e curtir sem pretensão.

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