sexta-feira, 17 de abril de 2015

O CLUBE DOS CORAÇÕES PARTIDOS

O CLUBE DOS CORAÇÕES PARTIDOS (The broken hearts club: a romantic comedy, 2000, Banner Entertainment, 94min) Direção e roteiro: Greg Berlanti. Fotografia: Paul Elliott. Montagem: Todd Busch. Música: Christophe Beck. Figurino: Mas Kondo. Direção de arte/cenários: Charles Daboub Jr./Mark Macauley. Produção: Mickey Liddell, Joseph Middleton. Elenco: Timothy Olyphant, Dean Cain, Zach Braff, John Mahoney, Justin Theroux, Ben Weber, Nia Long, Matt McGrath, Andrew Keegan, Jennifer Coolidge, Kerr Smith, Michael Bergin. Estreia: 29/01/00 (Festival de Sundance)

Ao contrário dos anos 70 - que começava a vislumbrar no mundo gay uma temática a ser explorada no cinema - e dos anos 80 - onde a ameaça da AIDS surgia como mais um motivo para varrer para debaixo do tapete um assunto tão pouco comercial - os anos 90 encararam a homossexualidade como algo menos sombrio, aproveitando a onda liberal do final do século. Foi assim que produções que enfatizavam a paranoia, como "Parceiros da noite" - policial em que Al Pacino investigava um serial killer que matava gays - e o fantasma do HIV - como "Filadélfia", que deu o Oscar de melhor ator a Tom Hanks - começaram a ser, aos poucos, substituídas por outras menos pesadas, que lançavam um olhar mais ameno e até bem-humorado sobre a situação de homens e mulheres que convivem saudavelmente com sua sexualidade. Mesmo tendo sido quase ignorado em termos comerciais, um dos exemplos mais felizes dessa tendência foi "O clube dos corações partidos", cujo título original ostentava com orgulho a definição "uma comédia romântica" como forma de sublinhar seu tom suave. Equilibrando com presteza um humor ácido e uma branda melancolia, o diretor e roteirista Greg Berlandi - revelado na telessérie "Dawson's Creek" - fez de seu filme uma espécie de "O primeiro ano do resto de nossas vidas" (citado nominalmente em uma cena) gay.

Assim como no filme de Joel Schumacher - cujo elenco revelou nomes como Demi Moore, Emilio Estevez e Rob Lowe - os personagens de "O clube dos corações partidos" tem um ponto de encontro fixo: o restaurante do veterano Jack (John Mahoney), que vez ou outra entretém seus frequentadores fazendo um show como drag queen. É ele também quem insiste em manter viva a tradição de um time de baseball, apesar do pouco caso de seus jogadores - e melhores amigos. O principal deles é Dennis (Timothy Olyphant), um fotógrafo amador que, com a chegada dos 28 anos, sente-se solitário e incapaz de manter um relacionamento estável. Decidido a mudar de vida e procurar um grande amor, ele transita entre os problemas de seu complicado grupo de amigos: Patrick (Ben Weber) é o patinho feio da turma, e enfrenta o dilema de ajudar ou não sua irmã lésbica a ter um filho com a parceira; o racional Howie (Matt McGrath), que acabou um namoro recentemente, mas não consegue desvencilhar-se do ex, Marshall (Justin Theroux), a quem acusa de imaturidade; Benji (Zach Braff), que tem uma queda incurável por meninos bonitos e sem caráter; Taylor (Billy Porter), recentemente abandonado pelo namorado e tentando recuperar-se; e Cole (Dean Cain, famoso como o Clark Kent da série "As aventuras de Lois e Clark"), aspirante a ator que vive de sua aparência invejável.


Usando tais personagens como mola-mestra de seu roteiro, Berlandi muitas vezes não consegue escapar dos estereótipos comuns ao gênero, mas ao menos lhes banha com uma alta dose de generosidade. Mesmo quando as atitudes de suas criaturas não são as mais dignas, ele dá um jeito de perdoá-las, utilizando-se para isso de um bom-humor inteligente e um senso de humanismo que faz muita falta na maioria das produções semelhantes. Sem cair na tentação de beatificar ninguém, o cineasta (que só assumiu a cadeira de diretor depois de muita insistência dos produtores) mostra ao público personagens propensos a erros e acertos, capazes de ajudar uns aos outros enquanto caem nas armadilhas de seus próprios caminhos. Mesmo que soando superficial a maior parte do tempo - tantos personagens assim cairiam melhor em uma série de TV, como mais tarde provaria "Queer as folk" - o filme surpreende por sua honestidade, ainda que ela esteja diluída pelo filtro das produções comerciais: o sexo é quase casto, o amor vence tudo, a amizade é a cura para todos os problemas. É otimista, mas soa um tanto ingênuo.

Sobra o elenco, formado em sua maioria por atores jovens que experimentariam posteriormente o gostinho da fama. Timothy Olyphant e Zach Braff fariam sucesso na TV (o primeiro em "Everwood" e o segundo em "Scrubs"), Andrew Keegan (que vive um jovem em processo de autodescobrimento) entraria no elenco de "American pie" e Dean Cain ainda arrancaria suspiros como o bem-sucedido Superman da televisão, ao lado de Teri Hatcher. Com uma ótima química em cena, o grupo conquista a plateia sem fazer muito esforço, arrancando risadas e lágrimas na medida certa. Às vezes, "O clube dos corações partidos" parece muito um telefilme - talvez culpa das experiências anteriores do diretor - mas é simpático, divertido e foge dos dramalhões que normalmente acompanham filmes de temática homossexual. Isso já é mais do que suficiente para merecer uma espiada.

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