NÁUFRAGO
(Cast away, 2000, 20th Century Fox/DreamWorks SKG, 143min) Direção:
Robert Zemeckis. Roteiro: William Broyles Jr.. Fotografia: Don Burgess.
Montagem: Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna
Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Rosemary Brandenburg,
Karen O'Hara. Produção executiva: Joan Bradshaw. Produção: Tom Hanks,
Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Tom Hanks, Helen
Hunt, Chris Noth. Elenco: 07/12/00
2 indicações ao Oscar: Ator (Tom Hanks), Som
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Tom Hanks)
A
história da gênese de "Náufrago" - um projeto arriscado do cineasta
Robert Zemeckis e do ator Tom Hanks que acabou se tornando um enorme
sucesso de bilheteria e crítica - todo mundo conhece: para dar
veracidade à história de um homem preso em uma ilha deserta, sem comida e
sendo obrigado a aprender as regras de sobrevivência de um lugar até
então inóspito e desconhecido, os dois interromperam as filmagens
por um ano. Nesse meio-tempo, Hanks perdeu o peso que havia adquirido
para criar seu personagem antes do acidente que o joga na ilha e
Zemeckis concluiu outro filme - o suspense "Revelações", estrelado por
Harrison Ford e Michelle Pfeiffer. O fato é que, a despeito dessa
curiosa e até hoje única particularidade, o filme que saiu dela é, ao
contrário da maioria das produções cujas anedotas de bastidores são mais
interessantes que o resultado final, digno dos mais entusiasmados
aplausos. Com exceção de um posfácio um tanto redundante, "Náufrago" é
um belíssimo trabalho de roteiro, ritmo, emoção e principalmente
atuação. Não foi à toa que Hanks esteve bastante perto de abocanhar um
terceiro Oscar de melhor ator - perdeu para Russell Crowe em
"Gladiador", mas não deixou de ficar com um Golden Globe por seu
desempenho antológico.
Depois das estatuetas douradas
por "Filadélfia" e "Forrest Gump, o contador de histórias", Hanks
arrancou elogios rasgados e unânimes na pele de Chuck Noland, um
executivo da FedEx (a agência de Correios dos EUA) extremamente dedicado
ao trabalho que deixa até menos sua relação com a namorada, Kelly
(Helen Hunt) em segundo plano, priorizando sempre os prazos exatos
prometidos aos clientes e a imagem da empresa. Às vésperas do Natal de
1995, porém, sua vida regrada e constantemente corrida sofre um abalo
profundo: durante uma viagem a negócios, seu avião cai em algum ponto do
Oceano Pacífico, matando toda a tripulação (seus colegas) e deixando-o à
deriva, sob uma violenta tempestade. Sozinho em uma ilha - e sem nenhum
tipo de apoio da tecnologia ou conforto moderno - Noland se vê
obrigado, então, a tratar da própria sobrevivência. Para não morrer de
fome ou sede, ele aprende a pescar, caçar, procurar água e construir uma
cabana para se proteger das intempéries da natureza. Sua solidão é
quebrada apenas pelas lembranças de sua relação com Kelly e por suas
longas conversas com uma bola de vôlei - encomenda de um cliente que
chega intocada à ilha, junto com ele. Batizando-a de Wilson, o poderoso e
controlador executivo passa a perceber de forma diferente sua vida e
suas prioridades.
Um
Robinson Crusoé pós-moderno, Chuck Nolan recebe, das mãos hábeis e
experientes de Tom Hanks, uma interpretação precisa, que dosa com
exatidão momentos de economia dramática com outros onde o ator - que
começou a carreira em comédias despretensiosas mas via de regra
deliciosas - esbanja o carisma que fez dele um dos astros mais poderosos
de Hollywood nos anos 90. Só mesmo alguém com todo o alcance
histriônico de Hanks seria capaz de segurar, praticamente sozinho, duas
horas e meia de um filme que - à exceção da primeira meia-hora e dos
vinte minutos finais - trata-se basicamente de uma odisseia solitária e
exasperante de um homem em confronto (e diálogo) constante com o mundo
natural que o cerca. Se a transformação física do ator é impressionante
(mas não inédita em sua trajetória, haja visto as alterações sofridas
para "Uma equipe muito especial" e "Filadélfia"), ela não é mais
fascinante do que aquela que se passa interiormente, quando o personagem
- quase arrogante em sua pretensa superioridade ao mundo - se curva
diante de forças maiores e reconhece sua insignificância em relação ao
mundo. São em momentos assim - principalmente durante os diálogos de
Nolan e um obviamente calado Wilson - que fazem de "Náufrago" mais do
que simplesmente uma aventura dramática: é, principalmente, um show
particular de um ator no auge de seu vigor técnico.
Porém,
mesmo que Hanks domine o espetáculo do princípio ao fim, seria injusto
não reconhecer o trabalho impecável de Robert Zemeckis, que teve a
coragem de apostar em um filme com ritmo perceptivelmente mais lento do
que a maioria das produções comerciais. Mesmo que mostre seu domínio
técnico em sequências absolutamente perfeitas - como o acidente de avião
- são nos momentos mais humanos que o diretor (acostumado a êxitos
incontestes de bilheteria, como "Uma cilada para Roger Rabbit", "De
volta para o futuro" e o próprio "Forrest Gump", que deu a ele e Hanks
os prêmios da Academia) mostra que, mais do que pirotecnias visuais, ele
também entende de contar histórias. Sem deixar que o ritmo de seu filme
caia mesmo com apenas um personagem em cena, Zemeckis fez de uma aposta
arriscada um sucesso extraordinário, com uma renda superior a 200
milhões de dólares somente no mercado doméstico (EUA e Canadá). Mereceu.
"Náufrago" é um dos filmes memoráveis do final do século XX.
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Um comentário:
Todos os filmes em que Tom Hanks deixa são meus favoritos, o último que eu vi e amei foi Sully !! Os filmes de drama são os meus preferidos, mas Sully O Heroi Do Rio Hudson se tornou no meu filme preferido. Sua historia é muito fácil de entender e os atores podem transmitir todas as suas emoções, Eu recomendo muito e estou segura de que se converterá numa das minhas preferidas.
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