quinta-feira, 30 de abril de 2015

O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ

O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ (The man who wasn't there, 2001, Gramercy Pictures/Good Machine, 116min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes, Tricia Cooke. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Chris Spellman. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner. Produção: Ethan Coen. Elenco: Billy Bob Thornton, Frances McDormand, James Gandolfini, Michael Badalucco, Jon Polito, Katherine Borowitz, Scarlett Johansson, Richard Jenkins, Tony Shalhoub. Estreia: 13/5/01 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Fotografia

A estreia dos irmãos Coen em 1984 - o inteligente "Gosto de sangue", que os revelou à crítica como a grande promessa da década - era uma releitura moderna do filme noir, gênero caríssimo do cinema norte-americano. A partir de então, os cineastas entraram em uma jornada artística que virou do avesso a comédia, os filmes de gângsteres e os filmes musicais e policiais com doses generosas de humor negro e um qualidade narrativa que encantou os espectadores, sempre confiantes de que, sob sua assinatura, histórias sempre criativas e elegantes fazem a diferença na mesmice do cinemão comercial hollywoodiano. Outro exemplo dessa afirmação é o contemplativo "O homem que não estava lá", belíssimo drama policial que revisita o noir com ainda mais propriedade de seu primeiro filme. Em um hipnotizante preto-e-branco de Roger Deakins (filmado em cores e depois alterado para maior efeito dramático) e com uma atuação inspiradíssima de Billy Bob Thornton no papel central, a história de traição, morte e desenganos criada pelos cineastas é um dos mais bem-acabados trabalhos de sua carreira até então - o que não é pouco para quem criou pérolas como "Fargo" (96) e "E aí, meu irmão, cadê você?" (00).

Passado em uma cidade do interior da Califórnia em 1949, "O homem que não estava lá" conta a história de Ed Crane (Billy Bob Thornton), que leva um dia-a-dia tedioso trabalhando na barbearia do cunhado Frank (Michael Badalucco) enquanto examina silenciosamente a vida se desenrolando à sua volta. Um dia, por acaso, ele se vê tentado a investir em um negócio de lavagem a seco e, para conseguir os dez mil dólares necessários para a sociedade, passa a chantagear o empresário Big Dave Brewster (James Gandolfini), chefe e amante de sua mulher, Doris (Frances McDormand). Sua chantagem acaba tragicamente com a morte de Big Dave e sua vida se transforma em um pesadelo surreal quando Doris é presa pelo crime. Sabendo da verdade sobre o assassinato mas sem poder provar, Crane se vê envolvido em uma trama que mistura advogados melodramáticos, uma viúva que acredita que uma invasão extra-terrestre matou seu marido e Birdy (Scarlett Johansson), uma adolescente que, através de sua música, seduz o durão e silencioso barbeiro.


Usando com maestria uma das maiores características do cinema noir - a narração em off - "O homem que não estava lá" é construído brilhantemente em todos os seus detalhes visuais e dramáticos, oferecendo ao público um filme elegante e sério, repleto de camadas dramáticas e desdobramentos inesperados que são tirados de letra por um elenco espetacular. Billy Bob Thornton, que no mesmo ano viveu um assaltante de bancos falastrão em "Vida bandida", de Barry Levinson, dá um show na pele de Ed Crane, um homem tão lacônico quanto psicologicamente violento que resolve o turbilhão de sua existência com a mesma expressão de paisagem que utiliza quando corta o cabelo de seus clientes. Frances McDormand mais uma vez comprova a extensão de seu talento na pele da infiel esposa de Crane, com uma interpretação também minimalista e delicada e James Gandolfini não se deixa eclipsar por seus colegas e cria uma espécie de vilão com a gama de nuances que fez sua fama na série de TV "A família Soprano". Seguindo um roteiro preciso e econômico, eles são os responsáveis por dar credibilidade a uma trama recheada de reviravoltas rocambolescas e inusitadas.

Com sequências milimetricamente elaboradas para encantar os olhos do espectador - não à toa sua fotografia concorreu ao Oscar da categoria - "O homem que não estava lá" é mais um grande filme dos irmãos Coen: inteligente, forte, plasticamente deslumbrante e dirigido com firmeza. Talvez seja mais lento do que o público esteja acostumado, mas tem qualidades mais do que suficientes para neutralizar seu ritmo pouco ágil - que, diga-se de passagem, é extremamente apropriado à narrativa ambicionada pelos cineastas. Um filme que Humphrey Bogart protagonizaria sem hesitação.

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