quarta-feira, 8 de abril de 2015

UMA HISTÓRIA REAL

UMA HISTÓRIA REAL (The Straight story, 1999, Asymmetrical Productions/Canal +/Channel Four Films, 112min ) Direção: David Lynch. Roteiro: John Roach, Mary Sweeney. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Mary Sweeney. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Barbara Haberecht. Produção executiva: Pierre Edelman, Michael Polaire. Produção: Neal Edelstein, Mary Sweeney. Elenco: Richard Farnsworth, Sissy Spacek, Jane Galloway Heitz, Joseph A. Carpenter, Donald Wiegert, Everet McGill, Harry Dean Stanton. Estreia: 21/5/99 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Richard Farnsworth)

Antes de começar uma sessão de "Uma história real" é preciso esquecer que seu diretor, David Lynch, é o cérebro por trás de obras perturbadoras como "Veludo azul" e "Coração selvagem" - além da telessérie "Twin Peaks", que mudou de forma definitiva a maneira como a televisão era feita nos EUA em 1991. Pela primeira dirigindo um roteiro alheio (e baseado em uma história verídica), Lynch demonstrou um lado sensível, carinhoso e delicado que pegou de surpresa até mesmo a seus fãs mais fiéis, que viram nele uma faceta menos macabra e bizarra de seu realizador. Até mesmo a Academia de Hollywood se viu obrigada a reconhecer a excelência do resultado final, dando ao protagonista do filme, Richard Farnsworth, a indicação ao Oscar de melhor ator. Aos 79 anos na ocasião, Farnsworth tornou-se o mais velho indicado da categoria em todos os tempos, e infelizmente, meses depois da cerimônia que premiou Kevin Spacey - por "Beleza americana" - suicidou-se ao saber de um diagnóstico de câncer.

Em uma atuação que equilibra fragilidade física com extrema força emocional, Farnsworth transforma a odisseia de um homem em busca de reatar laços familiares perdidos em um um comovente tratado sobre a velhice, a solidão e a força da solidariedade entre desconhecidos. Comandando o espetáculo a bordo de uma máquina de cortar grama adaptada a um trator, o veterano ator conquista o público e os personagens que cruzam seu caminho sem muito esforço, graças também ao script fluente e à edição que, fugindo da pressa habitual do cinema americano da década de 90, contempla e retrata com suavidade a placidez a trajetória do seu protagonista rumo a seu objetivo principal. Traçado como uma linha reta e simples - mas jamais simploria ou rasa - o roteiro de Sweeney e John Roach cativa a audiência justamente pela ausência de artifícios ou reviravoltas: a história de Alvin Straight é formada apenas por sua férrea determinação e por sua inusitada viagem rumo à paz de espírito.


Alvin Straight, o protagonista do filme, é um senhor de 73 anos de idade, aposentado, que vive em uma zona rural do estado de Iowa ao lado de uma de suas filhas, Rose (Sissy Spacek) - uma mulher com problemas mentais que não se conforma com a perda da guarda dos filhos. Ao ficar sabendo que seu irmão mais velho, Lyle (com quem está sem falar há dez anos, desde que tiveram uma briga) sofreu um enfarte, ele resolve procurá-lo, com o objetivo de reatar a relação. Fisicamente prejudicado pela idade, ele é desencorajado por todos ao seu redor, mas, inabalável em sua decisão, ele transforma seu cortador de grama em um pequeno trator e inicia uma viagem até o Wisconsin, enfrentando chuva, sol e problemas mecânicos no caminho. Suas dificuldades, porém, são amenizadas graças às amizades que vai fazendo no trajeto - que o fazem refletir sobre sua vida, sua família e a transitoriedade dos problemas frente à grandeza do universo.

É surprendente como David Lynch consegue se reinventar como diretor em "Uma história real": abandonando totalmente as características que lhe deram fama e prestígio, ele apresenta ao espectador um drama desprovido de qualquer tipo de truque sentimental ou de narrativa. Limpa e sem excessos, sua direção apenas deixa nas mãos (e nos olhos) extremamente competentes de Richard Farnsworth o maior trabalho, e é impossível não se deixar envolver por ele. Recitando diálogos aparentemente simples mas repletos de significados poéticos e de uma profundidade dramática rara no cinema norte-americano, ele encarna um Alvin Straight dolorosamente real e comovente, que cruza com outros personagens igualmente impactantes, como uma jovem grávida incapaz de lidar com a própria família, um homem de idade atormentado pelos fantasmas da guerra e uma mulher desesperada com o fato de atropelar veados com uma frequência muito maior do que poderia suportar - uma cena, aliás, que poderia resvalar no mau-gosto mas que, sob a visão de Lynch, acaba se tornando uma metáfora perfeita sobre a brevidade da vida.

Uma pequena obra-prima de delicadeza e sensibilidade perdida em uma filmografia frequentemente assustadora e chocante, "Uma história real" é um dos melhores trabalhos de David Lynch, e um deslumbrante canto do cisne de Richard Farnsworth. Imperdível!

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