domingo, 4 de setembro de 2016

A DAMA OCULTA

A DAMA OCULTA (The lady vanishes, 1938, Gaumont-British Studios, 96min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Sidney Gilliat, Frank Launder, romance "The wheel spins", de Ethel Lina White. Fotografia: Jack E. Cox. Montagem: R.E. Dearing. Música: Louis Levy, Charles Williams. Direção de arte: Vetchinsky. Produção: Edward Black. Elenco: Margaret Lockwood, Michael Redgrave, Paul Lukas, Dame May Whitty. Estreia: 07/10/38

Paris, 1880. Uma senhora e sua filha chegam à cidade, hospedam-se em um hotel e a mãe adoece no quarto. O médico chamado conversa com o dono do estabelecimento e, logo após avisar à jovem que a doente precisa de medicamentos, a manda para o outro extremo da Cidade-luz. Algumas horas mais tarde, ao retornar ao hotel para visitar a mãe, a viajante é surpreendida com o fato de que ninguém no hotel lembra delas - e o pior: até mesmo o quarto onde estavam hospedadas já não é mais o mesmo, com móveis e papel de parede diferentes. Essa história, intrigante e surpreendente, foi o mote de um filme chamado "Angústia de uma alma", estrelado por Jean Simmons, e uma produção de meia hora de duração, feita para a televisão pelo cineasta Alfred Hitchcock. O próprio Hitchcock gostou tanto das possibilidades da trama que voltou a ela em 1938, dessa vez inspirado em um romance de Ethel Lina White chamado "The wheel spins". Penúltimo filme de sua fase inglesa - encerrada com "A estalagem maldita", feito por encomenda - "A dama oculta" é um programa dos melhores, com a assinatura do mestre do suspense em sequências de grande inspiração (ainda que por vezes pudesse beneficiar-se de uma edição um tantinho mais enxuta).

Tratando de alguns dos temas mais caros ao cineasta, como paranoia e tramas de espionagem envolvendo pessoas aparentemente comuns, "A dama oculta" tinha fãs do mais alto gabarito. O francês François Truffaut, por exemplo, afirmava sem medo de que o filme era o seu preferido entre as obras de Hitchcock. Orson Welles alegava tê-lo assistido onze vezes. E dois de seus personagens, Charles (Basil Radford) e Caldicott (Naunton Wayne), tornaram-se populares junto ao público a ponto de voltarem à cena em outros dois filmes, "Gestapo" (40) e "Milhões como nós" (43) - nenhum deles sob o comando do diretor. Com um elenco que por pouco não contou com a bela Vivien Leigh em vias de tornar-se estrela internacional com "... E o vento levou" (39), o filme de Hitchcock começa como uma comédia ligeira e inconsequente, apresentando seus personagens em uma hospedaria lotada além de sua capacidade graças a uma nevasca que obriga aos passageiros de um trem em direção a Londres a passarem uma noite em situação desconfortável e inusitada. É nessa hospedaria que o roteiro apresenta sua protagonista, Iris Henderson (Margaret Lockwood), uma jovem que, depois de passar alguns dias de férias no pequeno país de Mandrika, está voltando à Inglaterra para casar-se com seu noivo. É no meio de toda essa confusão que ela conhece a dócil Miss Froy (Dame May Whitty), com quem simpatiza de imediato - ao contrário do que acontece com o músico Gilbert (Michael Redgrave).


A coisa realmente começa a pegar fogo no trem em que finalmente todos embarcam. Depois de mais alguns momentos de conversa com Miss Froy - uma professora de música e babá - Iris tira um cochilo e quando acorda, descobre, sobressaltada, que não apenas sua nova amiga desapareceu: simplesmente ninguém se recorda de tê-la visto. Considerada unicamente como parte da imaginação de Iris (que bateu levemente a cabeça antes do início da viagem), a idosa torna-se lembrança exclusiva da jovem - até que justamente Gilbert, o rapaz que lhe havia despertado sentimentos pouco agradáveis, passa a acreditar nela e, a seu lado, inicia uma investigação que envolve médicos suspeitos, freiras pouco tradicionais e um grupo de passageiros que pode ou não ter relação com o desaparecimento.

Não convém revelar aqui os desdobramentos que o filme (inspirado no romance de Lina White) dá ao caso. De forma sutil e surpreendente - e até um tanto forçada, por que não? - Hitchcock mostra porque tornou-se um dos cineastas mais importantes e influentes da história. Utilizando-se de pequenos truques visuais para enfatizar ideias ou transformar cenas aparentemente banais em momentos de puro cinema, ele conduz o espectador por um caminho que vai do entretenimento ligeiro ao mais puro suspense, entregando, de quebra, um comentário sobre a política europeia ainda durante a II Guerra. "A dama oculta" são dois filmes em um e, apesar de nem sempre funcionar às mil maravilhas em todas as suas linhas narrativas, ainda é uma grande obra de Hitchcock. E em tempo: para concluir a história que deu origem à trama, descobriu-se, em seguida, que a desaparecida mãe da jovem que visitava Paris estava contaminada com uma peste contraída na Índia e, para impedir o pânico dos turistas que circulavam pela capital francesa à época, decidiu-se esconder o caso da população... e da filha da doente.

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