segunda-feira, 12 de setembro de 2016

OBSESSÃO

OBSESSÃO (Ossessione, 1943, ICI, 140min) Direção: Luchino Visconti. Roteiro: Luchino Visconti, Mario Alicata, Giuseppe De Santis, Gianni Puccini, romance de James M. Cain. Fotografia: Domenico Scala, Aldo Tonti. Montagem: Mario Serandrei. Figurino: Maria de Matteis. Direção de arte/cenários: Gino Franzi. Produção executiva: Libero Solaroli. Elenco: Clara Calamai, Massimo Girotti, Dhia Cristiani. Estreia: 16/5/43

O autor do romance que lhe deu origem vetou sua estreia nos EUA até mais de trinta anos depois de seu lançamento na Europa - o que só ocorreu depois de sua morte. Na Itália, sua terra natal, as salas de cinema eram objeto de exorcismo (!!) depois de sua exibição. Seus negativos foram destruídos pelo governo ditatorial de Mussolini durante a II Guerra Mundial. Parece até que estamos falando de uma versão para o cinema de algum Evangelho apócrifo ou da biografia do próprio Satã, mas "Obsessão" é apenas a segunda adaptação para o cinema do romance "The postman always ring twice", do norte-americao James M. Cain - que também deu origem ao francês "Paixão criminosa" (39), de Pierre Chenal, e a duas produções hollywoodianas chamadas "O destino bate à sua porta", uma em 1946, dirigida por Tay Garrett, e outra, mais famosa, comandada por Bob Rafelson e estrelada por Jack Nicholson e Jessica Lange em 1981. Lançado em 1934, o romance apresentava todas as características do cinema noir americano e serviu como uma luva para a estreia de Luchino Visconti - que viria a tornar-se um dos maiores cineastas italianos de todos os tempos. Porém, se sua mistura sem afetações de sexo e culpa arrepiou a Igreja e o governo, serviu para abrir as portas de um novo e importantíssimo movimento cultural que, dali a dois anos, floresceria a ponto de influenciar para sempre a sétima arte: o neorrealismo italiano.

Pode até soar estranho que uma história de adultério e violência psicológica possa ser considerada uma espécie de precursora de um movimento centrado no cotidiano e no dia-a-dia de pessoas comuns (muitas delas tornadas atores diante das câmeras de gente como Rossellini e Vittorio de Sica), mas bastam poucos minutos para que se entenda o porquê de tal ideia: com a ajuda inestimável da fotografia de Domenico Scala e Aldo Tonti, Visconti transformou em imagens a sordidez das palavras de Cain em um ambiente sujo, desagradável, dolorosamente realista. Nada do glamour das grandes estrelas hollywoodianas ou da censura auto-imposta dos estúdios americanos: quando os protagonistas de "Obsessão" se encontram e faíscas saltam entre eles, o desejo que surge é cru, selvagem e sem espaço para que se pense em consequências. Giovanna, a protagonista feminina, não é uma dondoca milionária perfumada e bem-vestida. Gino, o catalisador da tragédia, tampouco é um galã tradicional de barba escanhoada e cabelo bem-tratado, e sim um andarilho de caráter duvidoso que vive, como diria Blanche DuBois, da bondade de estranhos. E seu primeiro encontro não se dá em um ambiente romântico - e sim na cozinha do restaurante de beira de estrada do marido da insatisfeita esposa.


Enquanto Bob Rafelson explorou a química do casal Nicholson/Lange com uma ousada cena de sexo que envolvia farinha e outros objetos de cozinha, transformando o ato em um momento de sensualidade à flor da pele, Visconti segue o caminho oposto. Gino (Massimo Girotti) e Giovanna (Clara Calamai) não são, da forma como ele mostra, meros objetos de uma curiosidade voyeur da plateia: são seres humanos com histórias de tristeza e privações, com históricos quase cruéis e que encontram um no outro não apenas sexo e/ou amor, mas também um meio de escapar de um destino que reflita tais currículos. O fato de que para isso aconteça eles tenham que apelar para planos de fuga e posteriormente até assassinato reafirma sua amoralidade - não mais vilões frios e egoístas, eles são pessoas normais buscando a redenção (um tanto dúbia, mas ainda assim redenção). E é então que a sombra da culpa e do remorso também passa a frequentar sua cama e minar seu relacionamento ainda jovem.

Luchino Visconti não brinca em serviço quando precisa ir fundo no desespero e na angústia de seus protagonistas - e justamente por isso talvez tenha arrumado encrenca com a censura. Afinal, o público de 1943 talvez não estivesse pronto para ver com tamanha naturalidade uma relação francamente homossexual (ainda que não explícita) e o retrato tão nítido e cru de um adultério sem o verniz e a sofisticação visual do cinema comercial norte-americano. Por ter chegado às telas dos EUA somente em 1976, "Obsessão" acabou por não ter desfrutado, em seu devido momento, toda a glória e importância que merecia. Um encontro perfeito entre a crueza do cinema italiano do período fascista da II Guerra com os elementos mais fascinantes do cinema noir, é uma obra-prima que infelizmente esteve por muito tempo soterrada sob outros filmes absurdamente geniais de Visconti, como "Rocco e seus irmãos" e "Morte em Veneza".

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