quinta-feira, 1 de setembro de 2016

ACONTECEU NAQUELA NOITE

ACONTECEU NAQUELA NOITE (It happened one night, 1934, Columbia Pictures,105min) Direção: Frank Capra. Roteiro: Robert Riskin, conto de Samuel Hopkins Adams. Fotografia: Joseph Walker. Montagem: Gene Havlick. Música: Howard Jackson. Figurino: Robert Kalloch. Direção de arte: Stephen Goosson. Produção: Frank Capra. Elenco: Clark Gable, Claudette Colbert, Walter Connolly, Roscoe Karns, Jameson Thomas. Estreia: 22/02/34

Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Frank Capra), Ator (Clark Gable) Atriz (Claudette Colbert), Roteiro

Na primeira metade da década de 30, a Columbia Pictures não era exatamente uma grande potência dentre os estúdios de cinema de Hollywood – sua situação era tão humilhante que os presidentes da MGM e da Warner à época costumavam emprestar alguns de seus maiores astros para seus filmes como forma de castigá-los por alguma travessura. Foi assim, por exemplo, que Clark Gable (ainda antes de forjar sua eternidade no mundo do cinema com o épico “... E o vento levou”, lançado em 1939) acabou no elenco de “Aconteceu naquela noite”, uma produção barata e sem maiores ambições que, dirigida por Frank Capra, acabou por tornar-se um estrondoso sucesso de público e crítica – e, de quebra, foi a primeira produção da história a ganhar os cinco principais Oscar (filme, diretor, ator, atriz e roteiro). Pagando pena devido a seu escandaloso romance com Joan Crawford - que não agradou nem um pouco à MGM – Gable entrou no filme já com o pé esquerdo (à sua primeira reunião com Capra ele chegou bêbado e nem se deu ao trabalho de ser simpático) mas hoje é difícil ver outro ator no papel do cínico jornalista Peter Warne – e nessas horas é bom agradecer ao acaso o fato de ele ter sido recusado por Claude Rains e Robert Montgomery.

Aliás, o acaso jogou muito bem na montagem da equipe de “Aconteceu naquela noite”. Se a recusa de Carole Lombard em viver a mimada Ellie Andrews adiou em alguns anos seu casamento com Gable – se é que eles se apaixonariam de verdade durante as filmagens – ela serviu para que o papel caísse no colo de Claudette Colbert, que, aliás, não estava nem um pouco interessada em voltar a trabalhar com Frank Capra depois do fracasso comercial de seu primeiro encontro, “Filhos da fortuna” (27). Seu desinteresse pelo projeto acabou minado pela insistência do cineasta, que lhe prometeu o dobro de seu salário na Paramount por apenas quatro semanas de filmagens – a atriz não apenas acabou aceitando o papel em um filme que não lhe agradava (“acabei de fazer o pior filme da minha vida!”, ela confidenciou a uma amiga no último dia de trabalho) como passou a perna em ninguém menos que Bette Davis, interessadíssima em participar do projeto mas impedida pela Warner, com quem tinha contrato.


O interesse de Davis, diga-se de passagem, era uma surpresa, já que praticamente ninguém em Hollywood parecia muito entusiasmado em fazer parte da comédia romântica de Capra. Colbert, por exemplo, foi a sexta atriz sondada para o papel central – nomes como Loretta Young, a já citada Carole Lombard e Myrna Loy já haviam declinado do convite – e Robert Montgomery chegou a anunciar a quem quisesse ouvir que o roteiro era o pior que ele já havia lido. Foi aí que Capra entrou na jogada e chamou Robert Raskin para reescrever tudo do começo. Baseado em um conto chamado “Bus stop”, escrito por Samuel Hopkins Adams e publicado na revista “Cosmopolitan” (a “Nova” dos EUA), Raskin acabou criando uma deliciosa e divertida história de amor que acabou por se tornar a maior das referências do gênero “comédia romântica” – uma influência sentida até os dias de hoje.
Dono de um frescor e de uma inteligência que se mantém intactas mesmo depois de mais de sete décadas, “Aconteceu naquela noite” deve muito de seu ritmo ágil e de sua capacidade de empatia à direção elegante e esperta de Frank Capra, que mais tarde se tornaria um dos cineastas mais importantes dos EUA ao equilibrar um otimismo à toda prova e doses discretas de cinismo em filmes como “A felicidade não se compra” e “O galante Mr. Deeds”. Imprimindo à sua narrativa um tom moderno e algumas ousadias nada ameaçadoras, Capra conta a história de um amor nascido das diferenças, mas o faz com um olhar impiedoso e paradoxalmente carinhoso. Ellie Andrews (Claudette Colbert) é a herdeira de um empresário milionário que briga com o pai porque ele não aceita seu casamento com o playboy King Westley (Jameson Thomas). Para fugir do domínio paterno, ela pega um ônibus em direção à Nova York e se torna alvo de uma caçada nacional – há até uma recompensa para quem conseguir encontrá-la. Quem a encontra, por acaso, é Peter Warne (Clark Gable), um jornalista recém demitido que vê na jovem a chance de uma volta por cima. Uma série de imprevistos na viagem acaba por juntar os dois – sem que ela sequer desconfie que ele tem interesses financeiros por trás de sua gentileza um tanto rude. Logicamente, porém, as cartas acabam se embaralhando quando ele se apaixona por ela – e passa a ser correspondido mesmo sem saber.
A trama simples de Riskin é levada com humor e leveza da primeira à última cena, e o Oscar de roteiro é plenamente justificado graças às inúmeras sequências antológicas preparadas pela trama. É nesse filme, por exemplo, que Colbert mostra as pernas para conseguir uma carona e que os dois atores são obrigados a comer cenouras cruas para matar a fome. É de “Aconteceu naquela noite”, também, a famosa cena em que Gable mostra o peito nu debaixo de sua camisa: à época era comum que se usasse uma outra camisa por baixo da primeira e tal cena fez com que a venda das camisas de baixo caísse a níveis alarmantes, a ponto de uma empresa ter pensado em processar a Columbia (mal sabia ela que tudo aconteceu apenas porque o ator não conseguia dizer o texto tirando mais de uma peça de roupa).
No final das contas, “Aconteceu naquela noite” passou de azarão a campeão. Lançado em cinemas secundários nos EUA, aos poucos o filme começou a demonstrar uma popularidade surpreendente, e a Columbia aumentou o número de salas para ver-se alçada, ao final da temporada, a um nível superior dentro da hierarquia dos estúdios. Vencendo os cinco Oscar a que concorria – Colbert nem esperava ganhar e foi pega de surpresa com a vitória no mesmo ano em que tinha outros dois filmes na disputa, “Cleópatra” e “Imitação da vida” – a pequena obra-prima de Frank Capra é hoje um exemplo mais do que acabado de tudo que uma comédia romântica pode (e deve) ser.

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