sábado, 10 de setembro de 2016

O LOBISOMEM

O LOBISOMEM (The wolf man, 1941, Universal Pictures, 70min) Direção: George Waggner. Roteiro: Curt Siomak. Fotografia: Joseph A. Valentine. Montagem: Ted Kent. Figurino: Vera West. Direção de arte/cenários: Jack Otterson/R.A. Gausman. Produção: George Waggner. Elenco: Lon Chaney Jr., Claude Rains, Bela Lugosi, Warren William, Ralph Bellamy, Patric Knowles, Evelyn Ankers, Maria Ouspenskaya. Estreia: 09/12/41


Em 2010, o cineasta americano Joe Johnston – cujos títulos mais impressionantes do currículo eram as comédias infanto-juvenis “Querida, encolhi as crianças”, “Jumanji” e “Jurassic Park 3” – aceitou o desafio proposto pela Universal e resgatou do limbo cinematográfico um dos personagens mais conhecidos tanto do estúdio quanto do imaginário popular. Baseado com bastante fidelidade no roteiro original escrito por Curt Siodmak na década de 40, “O lobisomem” do século XXI fartou-se de efeitos especiais da mais alta categoria e um trabalho de maquiagem excepcional, premiado merecidamente com um Oscar. Com um elenco de primeira – Benicio Del Toro, Anthony Hopkins e Emily Blunt – o filme não chegou a ser o sucesso estrondoso, mas serviu ao menos para relembrar ao público o prestígio do personagem-título, um dos monstros mais bem-sucedidos do estúdio na década de 40. Realizado com um orçamento modesto, “O lobisomem” nem tomou conhecimento do ataque japonês a Pearl Harbor – um temor do estúdio, que no fim comprovou-se infundado – e tornou-se uma das maiores bilheterias de 1941.

Primeiramente pensado como mais um veículo para Boris Karloff, um dos astros do estúdio graças ao êxito de “Frankenstein”, “O lobisomem” acabou vendo seu papel central indo parar nas mãos de Lon Chaney Jr., cujo pai havia sido um ídolo dos filmes de terror graças a títulos como “O fantasma da Ópera” (31). Assumindo sem medo um lugar ao lado de nomes icônicos do gênero, como Karloff e Bela Lugosi – que aparece no filme em papel coadjuvante mesmo tendo assumido publicamente seu desejo em interpretar o protagonista – Chaney Jr. mostrou-se um talento à altura, suportando sem reclamar as seis horas necessárias para aplicar a maquiagem de seu alter-ego lupino e outras três para retirá-la. Além do mais, entrou de cabeça no método da Universal, capaz de realizar filmagens em pouco tempo e lançar seus filmes em um prazo insano – só para exemplificar, “O lobisomem” foi filmado entre 27 de outubro e 25 de novembro de 1941...  e lançado menos de um mês depois!! Em uma época como a atual, em que o período de pós-produção de um filme é muitas vezes superior a seis meses, não deixa de ser admirável tamanha pressa – especialmente se for levado em consideração que trata-se de uma produção que dá muita importância a efeitos visuais.


Quem assistiu ao filme de Johnston sabe o que esperar também dessa versão, dirigida por George Waggner e que, exceto por algumas pequenas (mas cruciais) modificações nas interrelações entre alguns personagens, segue o mesmo argumento e roteiro. A história começa quando Lawrence Talbott (Lon Chaney Jr.) retorna à cidade natal, logo após a morte do irmão. Amante da astronomia e inteligente, ele encontra um local dominado por lendas e superstições, inflamadas por um grupo de ciganos liderados pela idosa Maleva (Maria Ouspenskaya). Logo depois de uma visita a tais curiosos moradores ao lado da bela Gwen Cunliffe (Evelyn Ankers), por quem está interessado, uma amiga da moça, Kelly, é violentamente atacada por um lobo. Para protegê-la, o rapaz enfrenta o animal com sua bengala e, após matá-lo, descobre que foi mordido por ele. A partir de então, passa a conviver com a certeza de que faz parte de uma maldição que o transformará em lobo em noites de lua cheia.

Criativo, o roteiro de Siodmark – que viu sua vida normal ser abalada com a chegada do nazismo e pessoas aparentemente pacíficas transformando-se em cruéis máquinas de matar – estabeleceu algumas das regras primordias em filmes de lobisomem, que atravessaram décadas e se transmutaram em mitos absolutos do personagem na sua trajetória cinematográfica. Foi nessa versão de “O lobisomem”, por exemplo, que surgiram leis como a contaminação através da mordida de lobos, a bala de prata como única forma de matar o monstro, a lua cheia e a utilização de pentagramas para identificar os contaminados (outra referência ao nazismo, ou seja, campos de concentração). Com a trama enxuta e bem condensada em pouco mais de uma hora de duração, Waggner se aproveita ao máximo do clima de suspense enfatizado pela neblina e pela ambientação barata mas eficientíssima, dos atores dedicados e principalmente da maquiagem de Jack P. Pierce, um dos maiores responsáveis pelo sucesso de que os filmes de monstro da Universal desfrutavam à época. Hoje talvez seja um filme um tanto ingênu e simples demais, mas é, sem dúvida, um entretenimento competente e parte de um movimento importantíssimo no cinema comercial americano.

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