sábado, 24 de setembro de 2016

TARDE DEMAIS

TARDE DEMAIS (The heiress, 1949, Paramount Pictures, 115min) Direção: William Wyler. Roteiro: Ruth Goetz, Augustus Goetz, peça teatral de sua autoria, inspirada no romance "Washington Square", de Henry James. Fotografia: Leo Tover. Montagem: William Hornbeck. Música: Aaron Copland. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Harry Horner/Emile Kuri. Produçã: William Wyler. Elenco: Olivia de Havilland, Montgomery Clift, Ralph Richardson, Miriam Hopkins, Vanessa Brown. Estreia: 06/10/49

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Wyler), Atriz (Olivia de Havilland), Ator Coadjuvante (Ralph Richardson), Fotografia em P&B, Trilha Sonora Original, Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B
Vencedor de 4 Oscar: Atriz (Olivia de Havilland), Trilha Sonora Original, Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz (Olivia de Havilland) 


Dez anos antes de promover um arrastão na Academia com seu épico religioso “Ben-hur” – que arrebatou onze Oscar, inclusive de melhor filme e direção – o cineasta William Wyler já dava mostras de que era capaz de seduzir público e crítica, ainda que no comando de uma obra com escopo bem menos ambicioso. Baseado no romance “Washington Square”, de Henry James – ou melhor dizendo, na peça teatral escrita pelo casal Augustus e Ruth Goetz e inspirada no livro – o filme “Tarde demais” foi indicado a oito estatuetas e saiu da cerimônia de premiação com quatro láureas: figurino, direção de arte (na subcategoria preto-e-branco), trilha sonora original e atriz, entregue à Olivia de Havilland, a eterna Melanie Wilkes de “.... E o vento levou” (39). Nessa dramática história de amor e interesse contada por Wyler, a atriz – que já tinha um troféu em casa pelo melodrama “Só resta uma lágrima”, feito três anos antes – entrega uma de suas mais fortes composições, buscando na plateia a empatia para uma personagem nada heroica, cujo drama romântico é acentuado pela decepção e pela dor.

Na Nova York da metade do século XIX – época em que também se situa, não por acaso, o belo “A época da inocência”, de Edith Wharton, levado às telas por Martin Scorsese em 1993 – a sociedade é dividida em classes bem definidas e rígidas. Respeitado e dono de uma pequena fortuna, o dr. Austin Slope (Ralph Richardson) tenta encontrar um marido digno e apropriado para a única filha, Catherine (Olivia de Havilland), uma moça tímida e quase insossa, avessa aos encontros sociais e incapaz de acostumar-se às regras de seu círculo. Viúvo, o dr. Slope sabe que a jovem não tem atrativos o bastante para ser disputada pelos melhores partidos da cidade e, por esse motivo, não fica muito satisfeito quando ela passa a ser cortejada por Morris Towsend (Montgomery Clift), um rapaz bonito, de boa família e educado – mas que desperdiçou toda sua herança em viagens e gastos supérfluos. Considerando Townsend um aproveitador barato que está de olho no dinheiro a ser herdado por Catherine – que também tem direito aos bens da falecida mãe – o médico se opõe ferozmente ao relacionamento, o que acaba por coloca-lo contra a própria filha.



Depois de uma viagem de seis meses pela Europa – que ele acredita ser a solução para o afastamento dos dois enamorados – o dr. Slope retorna à Nova York apenas para perceber que a decisão de ambos em casar-se não foi alterada. Seu rompimento com a filha, sua doença e a afirmação em alto e bom som de sua opinião sobre sua personalidade – que ele acha medíocre e ingênua demais – obrigam Catherine a tomar uma decisão cruel: manter-se ao lado do pai ou assumir definitivamente o amor que sente por Townsend, que mantém-se fiel a seu romance e tem a torcida de uma tia de Catherine, também viúva (Miriam Hopkins). Será que o rapaz realmente a ama ou está interessado apenas em seu dinheiro? E realmente ela é tão desinteressante quando seu pai diz ou apenas esconde uma força interna prestes a mostrar seu tamanho? Essas questões, levantadas com inteligência pelo roteiro e sublinhadas pela direção elegante e discreta de Wyler – um cineasta sempre interessado em arrancar o melhor de seus atores – fazem de “Tarde demais” um drama romântico que se assiste como ao melhor suspense de Alfred Hitchcock.

Montgomery Clift – assumindo um papel oferecido a Cary Grant – não gostava do seu desempenho como Morris Towsend, chegando inclusive a faltar à estreia do filme em Hollywood como forma de demonstrar seu desagrado. O inglês Ralph Richardson, no entanto, fez de seu primeiro filme em Hollywood um trabalho de mestre, ganhando o prêmio de melhor ator pelo National Board of Review e uma indicação ao Oscar de coadjuvante por sua performance como o aflito doutor Austin Sloper, dividido entre o amor e a preocupação que sente pela filha e o temor de vê-la sofrer nas mãos de quem ele julga não merecê-la. A bela trilha sonora de Aaron Copeland, também premiada pela Academia, enfatiza tanto o lado dramático quanto o tom soturno de alguns momentos da trama, transitando entre o idílio da protagonista e seu inferno pessoal – uma tênue mudança de tom magistralmente dominada pela atuação de Olivia de Havilland, que se utiliza de sua falta de glamour para criar uma Catherine Slope inesquecível, capaz de convencer em todas as etapas de sua personagem – de mulher simples e romântica até alguém capaz de enfrentar o mundo que a rodeia e os sentimentos contraditórios que inundam seu coração e sua alma. Na melhor atuação de sua carreira, de Havilland brinda a plateia com um trabalho irretocável, valorizado pelo talento de Wyler e pela história forte e contundente. Um filme digno de ser chamado de clássico.

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