terça-feira, 13 de setembro de 2016

DESENCANTO

DESENCANTO (Brief encounter, 1945, Cineguild, 86min) Direção: David Lean. Roteiro: Noel Coward, peça teatral "Still life", de sua autoria. Fotografia: Robert Krasker. Montagem: Jack Harris. Direção de arte: L.P. Williams. Produção: Noel Coward. Elenco: Celia Johnson, Trevor Howard, Stanley Holloway, Joyce Carey, Cyril Raymond. Estreia: 26/11/45

3 indicações ao Oscar: Diretor (David Lean), Atriz (Celia Johnson), Roteiro
Vencedor do Grande Prêmio do Festival de Cannes 

Não é à toa que o nome do britânico David Lean está atrelado, na mente dos fãs de cinema, a grandes produções épicas: com sua assinatura, filmes como "Lawrence da Arábia" (62), "Doutor Jivago" (65) e "A filha de Ryan" (70) ganharam o carinho da crítica e das multidões - além de estarem sempre na briga pelo Oscar. Mas nem só de grandes orçamentos foi feita a carreira de Lean - um cineasta cujos pais quakers o proibiam, até a adolescência, de assistir a filmes. Um dos exemplos mais fascinantes de sua capacidade de transitar com maestria também entre o intimismo de pessoas comuns surgiu um pouco antes de sua aplaudida versão de "Grandes esperanças", de Charles Dickens. Traindo sua admiração pelo dramaturgo Noel Coward - de quem adaptou três peças teatrais - e seu senso romântico, Lean construiu, em 1945, logo ao gim da II Guerra Mundial, uma sinfonia de olhares e emoções reprimidas chamada "Desencanto".

Baseado em um espetáculo curto de Coward chamado "Still life", "Desencanto" é um drama romântico arrebatador, idealizado e filmado na Inglaterra - ou seja, longe dos domínios do cinema de estúdio de Hollywood. Mais do que uma simples constatação geográfica, tal localização serve também como guia para que se perceba que, apesar de tratar-se de uma história de amor, o filme de Lean está longe de ter como protagonistas um casal glamouroso e acima dos padrões de beleza e charme. Nem a dona-de-casa Laura Jesson (a ótima Celia Johnson, indicada ao Oscar de melhor atriz) nem o médico Alec Harvey (Trevor Howard) são especialmente lindos e muito menos levam vidas excitantes. É impossível à plateia não identificar-se com sua rotina e seus anseios justamente por causa dessa simplicidade cotidiana. E Lean, com extrema competência, sublinha tais mediocridades diárias aos poucos, enfatizando com pequenos gestos o turbilhão emocional de seus personagens principais a partir de seu primeiro e fortuito encontro.


Tal encontro - surgido de um inocente cisco no olho - não é a primeira cena de "Desencanto". De forma brilhante, o roteiro apresenta seus personagens já em meio a seu drama. O bar de uma estação de trens londrina é o cenário do que parece ser apenas uma conversa inofensiva entre um casal de amigos, ambos casados com outras pessoas, enquanto aguardam a chegada da condução do rapaz, que está em vias de embarcar para uma viagem profissional internacional. Antes que possam despedir-se, uma amiga da moça, falante e inconveniente, senta com eles e impede um adeus menos frio. Não seria nada demais se, pouco menos de uma hora e meia depois, o cineasta não mostrasse ao público o que levou os personagens àquela mesa - e o que aquele leve toque no ombro realmente significa. É diante do marido, horas depois, que Laura Jesson irá relembrar, em um doloroso monólogo, tudo que mudou em sua vida nas últimas semanas, desde que seu destino esbarrou, sem querer, no do doutor Alec Harvey.

Assim como Neil Jordan faria mais de cinco décadas mais tarde em "Fim de caso" - baseado no livro de Graham Greene - David Lean usa e abusa da delicadeza ao narrar a história de amor entre Laura e Alec. Casados e até então ciosos de seus deveres conjugais e familiares, ambos relutam em aceitar a paixão que sentem e, posteriormente, tentam esconder inclusive de si mesmos tais sentimentos até então inéditos. São closes nos olhos de Johnson (uma atriz que resistiu por muito tempo antes de abraçar o cinema) e Howard (em seu primeiro papel importante nas telas) que contam, com detalhes, o desenrolar da trama, levando com eles o coração e a atenção da plateia até a peça final do quebra-cabeças, que finalmente dá a real dimensão da cena inicial - que surge após uma série de acontecimentos aparentemente banais capazes de transformar duas vidas.

Belo, devastador e dolorosamente realista, "Desencanto" foi banido por anos na Irlanda, por, segundo os censores locais, mostrar uma adúltera sob um olhar simpático. Mas isso não impediu que o filme fosse lançado em outros países, fizesse grande sucesso, fosse indicado a três Oscar, ganhasse um importante prêmio no Festival de Cannes (ainda engatinhando) e tivesse um forte impacto no futuro cineasta Robert Altman, que o assistiu aos 21 anos de idade e ficou profundamente tocado com a realidade mostrada na tela. Depois do final de uma sessão de "Desencanto" tal reação é plenamente justificável. É uma pequena obra-prima, mais arrasadora do que as brancas areias de "Lawrence da Arábia" e a neve de "Doutor Jivago". Nem só de super produções vive o cinema, afinal.

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