quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O TERCEIRO HOMEM

O TERCEIRO HOMEM (The third man, 1949, London Films Productions, 104min) Direção: Carol Reed. Roteiro: Graham Greene. Fotografia: Robert Krasker. Montagem: Oswald Hafenrichter. Música: Anton Karas. Direção de arte/cenários: Dario Simoni. Produção: Carol Reed. Elenco: Joseph Cotten, Alida Valli, Orson Welles, Trevor Howard, Bernard Lee. Estreia: 31/8/49

3 indicações ao Oscar: Diretor (Carol Reed), Fotografia em P&B, Montagem
Vencedor do Oscar de Fotografia em P&B 

Não é qualquer um que consegue a façanha de ser considerado o melhor filme britânico de todos os tempos, especialmente quando se leva em consideração que a Terra da Rainha deu ao mundo nomes como David Lean e Alfred Hithcock - apenas para citar dois grandes nomes em alta na década de 40. Mas, definitivamente, "O terceiro homem", a obra que recebeu tal distinção dos próprios ingleses., não é um filme qualquer. Quase setenta anos depois do seu lançamento, o filme de Carol Reed se mantém tão brilhante e fascinante quanto no momento de seu lançamento, graças especialmente a um conjunto excepcional de fatores, que conta com a direção inspirada, o roteiro inteligente do escritor Graham Greene, a esplendorosa fotografia premiada com o Oscar e um elenco nunca aquém de espetacular. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, "O terceiro homem" não apenas resistiu ao tempo: ele também pode ter-se tornado ainda melhor.

Com uma narração em off que explica à plateia como funciona Viena nos anos imediatamente após a II Guerra Mundial - um lugar repleto de criminosos que vivem de explorar o mercado negro de quaisquer coisas necessárias à população - o filme começa com a chega de Holly Martins (Joseph Cotten em papel pensado para James Stewart ou Robert Mitchum) à capital austríaca. Escritor de romances baratos de faroeste, Martins põe os pés na cidade a chamado de um amigo de infância, Harry Lime, que lhe promete trabalho e dinheiro fácil. As coisas, porém, começam a dar errado logo na chegada, quando Martins descobre que Lime acaba de morrer atropelado em frente ao prédio onde morava. Para sua surpresa, ele fica sabendo também que Lime estava sendo caçado pela polícia - na figura do policial Calloway (Trevor Howard) - por causa de seu envolvimento com a venda de penicilina adulterada. A trama complica quando, ao lado da amante de Lime, a atriz Anna (Alida Valli), Martins tenta descobrir quem é o terceiro homem que carregou o corpo do amigo depois de seu atropelamento e chega à conclusão de que talvez ele não esteja realmente morto.


O ideal seria assistir-se a "O terceiro homem" sem maiores informações de suas reviravoltas e sua trama repleta de surpresas, para melhor aproveitar suas viradas - cortesia do texto ágil de Graham Greene, cujo "Fim de caso" deu origem ao fabuloso filme de Neil Jordan em 1999. Como talvez isso seja impossível, um vez que o filme já é um patrimônio cultural da humanidade e foi alvo de tantas análises e teses, o caso é deixar-se envolver por aqueles fatores que, independentes de qualquer discussão, continuam intensamente brilhantes. É o caso da fotografia deslumbrante de Robert Krasker, que dá charme e beleza até mesmo aos esgotos de Viena e sublinha com seus ângulos distorcidos a visão de pesadelo proposta por Oliver Reed. E também da marcante trilha sonora de Anton Karas, que enfatiza a tensão de cada sequência com elegância extrema. Ou ainda o elenco liderado por Joseph Cotten - escolhido para o papel por ter contrato com o produtor David O. Selznick, a quem toda a equipe odiava - e a italiana Alida Valli - que tentou carreira em Hollywood mas nunca chegou a fazer o sucesso que merecia. É bom lembrar também que o elenco conta com a

presença de Orson Welles, que, com apenas uma semana de trabalho - e depois de um atraso de quinze dias - rouba as poucas cenas em que aparece (dá até para perdoar o fato de a produção ter sido obrigada a reconstruir em estúdio, em Londres, parte dos esgotos da capital austríaca, porque ele se recusou a filmar nos verdadeiros locais). Sua entrada em cena é, no mínimo, inesquecível.

No final das contas, "O terceiro homem" é um filme feito de grandes cenas. Sejam elas de ação - as perseguições nos subterrâneos da cidade - ou de longos diálogos - a inesquecível conversa na roda-gigante coescrita por Welles é um clássico absoluto - todas as sequências do filme de Reed são ao mesmo tempo plasticamente deslumbrantes e narrativamente eficientes. Contando sua história com palavras e imagens em um equilíbrio genial, Reed dá uma aula de cinema de tal forma que fica difícil acreditar que nunca mais realizou algo sequer semelhante em termos de qualidade apesar de ter ganho o Oscar pelo musical "Oliver" (68), de gosto duvidoso. Uma união extremamente feliz de fatores, "O terceiro homem" é um filme para ver, rever e sempre ficar abismado com a perfeição de seus ângulos, interpretações e narrativa segura e ágil. Brilhante!

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