sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O MONSTRO DA LAGOA NEGRA

O MONSTRO DA LAGOA NEGRA (Creature from the Black Lagoon, 1954, Universal Pictures, 79min) Direção: Jack Arnold. Roteiro: Harry Essex, Arthur Ross, estória de Maurice Zimm. Fotografia: William E. Snyder. Montagem: Ted J. Kent. Direção de arte/cenários: Hiylard Brown, Bernard Herzbrun/ Russell A. Gausman, Ray Jeffers. Produção: William Alland. Elenco: Richard Carlson, Julie Adams, Richard Denning, Antonio Moreno, Nestor Paiva, Whit Bissell. Estreia: 12/02/54


Se não fosse uma história real, até pareceria uma daquelas lendas tão caras à Hollywood: mexendo nas lixeiras da Universal, um faxineiro encontrou uma fantasia estranha que serviria como uma luva para que seu filho pequeno brincasse no feriado de Halloween. Anos mais tarde, o tal menino, já crescido para se entregar à clássica tradição norte-americana, vendeu tal fantasia para um escritor de ficção científica, que reconheceu naquela bizarra figura mais um dos famosos “monstros da Universal” – pacote que incluía, desde os anos 40, nomes como Drácula, Frankenstein, O Homem Invisível e Dr. Jekyll & Mr. Hyde. Sem gozar do mesmo prestígio de seus colegas, nascidos nas páginas de romances consagrados, “O Monstro da Lagoa Negra” acabou sendo relegado a segundo plano com o passar dos anos, mesmo que tenha feito sucesso suficiente para render duas continuações. Rodado em 3D – cinquenta anos antes que tal artifício virasse moda – o filme surpreende, ainda hoje, pelo cuidado com as imagens subaquáticas, que suplanta, por muitos momentos, uma história sem maiores surpresas.

Surgido de uma lenda a respeito de uma criatura humanoide que supostamente vivia na América do Sul – e que chegou até o produtor William Alland através do fotógrafo mexicano Gabriel Figueroa – o roteiro de “O Monstro da Lagoa Negra” parte de uma premissa muito explorada pelos filmes de ficção científica e não tem medo de apelar para os clichês mais deslavados, ainda que, à época, muita coisa ainda fosse relativamente novidade. As cenas iniciais lembram “Jurassic Park, parque dos dinossauros”, mostrando o experiente cientista Carl Maia (Antonio Moreno) descobrindo, em uma expedição ao Amazonas, a pata fossilizada de uma criatura desconhecida. Com o objetivo de descobrir do que se trata e se há mais resquícios de antiga civilização no local, ele contrata um grupo de outros cientistas, liderado por David Reed (Richard Carlson) e sua namorada, Kay Lawrence (Julie Adams). Depois de um bom tempo à procura de algo empolgante, eles estão prestes a desistir da empreitada quando finalmente descobrem um ser meio humano/meio réptil que vive debaixo d'água e que começa a fazer vítimas entre os membros do grupo. Estranhamente, porém, ele evita atacar Kay, por quem parece nutrir sentimentos humanos.


Mesmo que o visual da criatura seja muitas vezes um tanto tosco, “O Monstro da Lagoa Negra” se destaca principalmente pela excelência de suas tomadas subaquáticas, cortesia do diretor de fotografia William E. Snyder, que antecipa em duas décadas o famoso “ponto de vista do monstro” tornado célebre por Steven Spielberg em “Tubarão” (75). Ambicioso em seu desejo de conquistar o público através dos efeitos em 3D, o cineasta Jack Arnold sabia ter em mãos a possibilidade de uma rentável série, a ponto de deixar em aberto o destino do temível protagonista para prováveis continuações – que obviamente chegaram às telas poucos anos mais tarde. Localizando sua trama em um Amazonas verossímil, com placas sinalizadoras escritas em português e nativos com nomes críveis como Tomás e Luís – coisas que cineastas modernos simplesmente ignoraram, como mostram filmes como “Anaconda”, rodado no Brasil em 1996 – o diretor muitas vezes escorrega em sequências dignas de Ed Wood, mas seu respeito com a história e os personagens acaba por ser maior que os “defeitos especiais”.

A criatura – que ficou a cargo de Milicent Patrick, embora o responsável pelo departamento de maquiagem da Universal da época, Bud Westmore, tenha levado o crédito – é, perceptivelmente, pouco requintada. Sempre que o monstro surge em cena e parte para o ataque (fatalmente vitimando os pobres coadjuvantes que estão em cena apenas para morrer) é difícil segurar o riso, especialmente em vista os progressos dos efeitos visuais conquistados pelo cinema durante as cinco décadas que separam sua estreia dos dias de hoje. Mas “O Monstro da Lagoa Negra” tem, a seu favor, uma inocência encantadora e a entrega absoluta de seu elenco, que compra sem reservas uma premissa um tanto absurda mas que pode divertir a todos que procuram entretenimento despretensioso. Para quem tem preconceito, uma dica: um dos fãs de “O Monstro da Lagoa Negra”, e que o assistia todos os anos no dia de seu aniversário era o respeitado, sério e aparentemente melancólico Ingmar Bergman. Quem diria que o homem por trás de petardos emocionais como “Persona” e “Morangos silvestres” também tinha seu lado trash?

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