sábado, 17 de setembro de 2016

O VINGADOR INVISÍVEL

O VINGADOR INVISÍVEL (And then there were none, 1945, Rene Clair Productions, 97min) Direção: Rene Clair. Roteiro: Dudley Nichols, romance de Agatha Christie. Fotografia: Lucien N. Andriot. Montagem: Harvey Manger. Música: M. Castelnuovo-Tedesco. Figurino: René Hubert. Direção de arte/cenários: Ernst Fegte/Edward Boyle. Produção: Rene Clair. Elenco: Barry Fitzgerald, Walter Huston, Louis Hayward, Roland Young, June Duprez, Judith Anderson, Mischa Auer, C. Aubrey Smith, Richard Haydn, Queenie Leonard. Estreia: 31/10/45


Publicado como romance em 1939 e lançado como peça de teatro em 1944 – com o título modificado para “Os dez indiozinhos” – o instigante “O caso dos dez negrinhos” adquiriu, com o tempo, a aura de uma das mais surpreendentes e brilhantes tramas policiais de todos os tempos. Escrita pela inglesa Agatha Christie, merecidamente conhecida como A Rainha do Crime, a história de um justiceiro misterioso que se propõe a executar um grupo de pessoas culpadas de outros assassinatos recebeu inúmeras versões para a TV e o cinema, mas nunca atingiu a todas as suas possibilidades dramáticas. Quem mais perto chegou de ser bem-sucedido na missão foi o francês René Clair, já trabalhando em Hollywood. Com “O vingador invisível”, ele foi o mais fiel possível ao enredo proposto pela escritora, pecado apenas por alterar sensivelmente seu desfecho – erro no qual todos os remakes incorreram – e apostar em um senso de humor que, se combina com a nacionalidade da autora, acaba por suavizar desnecessariamente o suspense.

Assim como a peça e o livro – cujo título foi alterado para “E não sobrou nenhum” para evitar as acusações de racismo feitas à época – a história de "O vingador invisível" começa com a chegada de oito pessoas, desconhecidas entre si, à uma ilha, respondendo ao chamado de um misterioso Mr. Owen, que, logo todos irão descobrir, não é conhecido de nenhum deles. A essa primeira surpresa logo sucedem-se outras, principalmente quando, na hora do jantar, todos os convidados (e o casal de empregados contratados especificamente para a ocasião) são acusados, através de uma gravação, de terem cometidos assassinatos e saído impunes de tais atos. Chocados e surpreendidos, eles demoram a perceber outro objetivo radical de seu anfitrião: somente depois da morte de dois dos presentes – em circunstâncias que refletem uma cantiga infantil conhecida de todos – é que surge a realidade: eles estão presos na ilha e irão morrer assassinados pela misteriosa pessoa que os convidou – e que provavelmente é um deles.


Um dos maiores pecados do roteiro de Dudley Nichols é diluir a tensão psicológica do texto original e esvaziar boa parte do drama dos personagens – que no filme servem, de certa forma, a ser apenas potenciais vítimas de um dos primeiros psicopatas da história da literatura policial a ser tratado com inteligência. É assim que quase nenhum dos personagens criados por Agatha Christie consegue envolver o público a ponto de causar empatia. Até mesmo o romance surgido entre a jovem secretária Vera Claythorne (June Duprez) e Philip Lombard (Louis Hayward) não convence, enquanto a tentativa de fazer humor com algumas sequências de pastelão envolvendo o empregado Thomas Rogers (Richard Haydn) e o Príncipe Nikita Starloff (Mishca Auer) surgem como desvios de foco desnecessários e bobos. A opção de René Clair em evitar o sangue também enfraquece o resultado – nenhum corpo é mostrado explicitamente, e o que poderia ser um diferencial interessante e elegante em relação aos baldes de sangue despejados pelo cinema atual, acaba por ser anticlimático.

E por falar em anticlímax, é imprescindível dizer que o desfecho da trama também não faz jus à obra original. Por mais que seja o mais próximo que o cinema já chegou do livro, o final criado pelo cineasta decepciona o leitor apaixonado e tira de quem nunca teve contato com o romance o impacto de um desenlace dos mais corajosos da literatura policial. Ainda que um livro e um filme tenham necessariamente linguagens diferentes – e o encerramento do livro certamente é um desafio a qualquer roteirista – nada justifica a falta de força dos momentos finais do filme. Até mesmo um dos grandes trunfos de suspense da história (a destruição dos bonecos em forma de índios que enfeitam a sala de jantar e que acontece a cada morte) é tratado banalmente por Clair, um cineasta cujo currículo inclui obras festejadas, como “A nós, a liberdade” – que inspirou Chaplin a criar seu “Tempos modernos” - mas que, apesar do sucesso de crítica, não conseguiu ter a mesma desenvoltura em sua tentativa de adaptar Agatha Christie. Ainda assim, é bom que se diga, “O vingador invisível” é a melhor das adaptações do romance e da peça – que ainda espera um filme à altura de sua genialidade.

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