terça-feira, 29 de novembro de 2016

JURASSIC WORLD: O MUNDO DOS DINOSSAUROS

JURASSIC WORLD: O MUNDO DOS DINOSSAUROS (Jurassic World, 2015, Universal Pictures/Amblin Entertainment/Legendary Pictures, 124min) Direção: Colin Trevorrow. Roteiro: Rick Jaffa, Amanda Silver, Colin Trevorrow, Derek Connolly, estória de Rick Jaffa, Amanda Silver, personagens criados por Michael Crichton. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Kevin Stitt. Música: Michael Giacchino. Figurino: April Ferry, Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Ed Verreaux/Ronald R. Reiss. Produção executiva: Steven Spielberg, Thomas Tull. Produção: Patrick Crowley, Frank Marshall. Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Irrfan Khan, Vincent D'Onofrio, Ty Simpkins, Omar Sy, BD Wong, Judy Greer, Nick Robinson, Jake Johnson. Estreia: 2/5/15 (Paris)

Em 1993, o que parecia uma aposta arriscada - lançar um filme de verão sem grandes astros no elenco e calcado basicamente em efeitos visuais e na garantia de qualidade com que o nome de Steven Spielberg acenava - transformou-se rapidamente em um dos maiores sucessos da história do cinema, batendo até mesmo o idolatrado "E.T, o extra-terrestre" (82) na bilheteria. O impressionante êxito, os três Oscar - efeitos visuais, som, efeitos sonoros - e o burburinho em torno de "Jurassic Park: parque dos dinossauros" não deixava dúvidas de que uma sequência viria em seguida. Em 1997, ela veio - com o título "Jurassic Park: O Mundo Perdido" - e voltou a fazer estardalhaço nos cofres da Universal Pictures, ainda que praticamente repetisse a trama do primeiro capítulo. Foi somente em 2001 que a série começou a dar sinais de cansaço: com Joe Johnston na direção, "Jurassic Park III" foi o episódio com menor renda (e ainda assim chegou perto de 200 milhões de arrecadação só nos EUA) e não entusiasmou ninguém, apesar de marcar o retorno de um dos atores do original, Sam Neil. Quatorze anos se passaram até que Spielberg, já com dois Oscar de melhor diretor na prateleira, voltasse a demonstrar interesse nos bichanos: acreditando que já estava na hora de apresentá-los a uma nova geração, assumiu a cadeira de produtor executivo de "Jurassic World: O mundo dos dinossauros", entregou a direção nas mãos do praticamente desconhecido Colin Trevorrow - do praticamente ignorado "Sem segurança nenhuma" (2012) - e correu para contar os dividendos. Não deu outra: logo em seu lançamento, o filme tornou-se a maior bilheteria no fim-de-semana da estreia de toda a história do cinema, com uma arrecadação de 208,8 milhões de dólares contra um custo estimado de 150 milhões. Como ficou bastante claro, o público ainda se mantém fascinado pelo universo criado pelo escritor Michael Crichton.

Um pirralho de treze anos de idade na ocasião da estreia do primeiro filme - a que assistiu na primeira sessão do primeiro dia - o ator Chris Pratt acabou com o principal papel masculino dessa nova incursão às aventuras jurássicas. Seu personagem, Owen Grady, é um jovem veterano do Exército contratado pelos novos donos do Jurassic World - que ao contrário do parque original abrange também shows aquáticos de dinossauros marinhos ao lado de outras atrações inéditas, criadas geneticamente pelo cientista Henry Wu (BD Wong) - para treinar velociraptors e mantê-los sob controle. O talento de Grady é percebido pelo ambicioso Vic Hoskins (Vincent D'Onofrio), que vê a possibilidade de utilizar os animais como armas militares. Enquanto isso, o parque temático, supervisionado pelas empresas do milionário Simon Masrani (Irrfan Khan) se prepara para revelar ao público sua nova atração, o temível Indominus Rex, cuja mistura genética é mantida em segredo de estado, e a gerente do local, a dedicada Claire Dearing (Bryce Dallas Howard), recebe a visita de seus dois sobrinhos - que estão passando por uma severa crise doméstica. Como não poderia deixar de ser, o imprevisível Indominus acaba fugindo de sua cerca de segurança máxima, obrigando Grady e Claire (que já tiveram um relacionamento problemático) a se unirem para salvar as crianças e impedir uma nova tragédia de grandes proporções.


Praticamente uma reedição do primeiro filme - com crianças em perigo, dinossauros assustadores e fora de controle atacando sem dó nem piedade e efeitos especiais de primeira categoria - "Jurassic world" acrescenta algumas poucas novidades à receita. A primeira é o tom de tensão sexual entre Grady e Claire, valorizando a juventude e a química entre Chris Pratt e Bryce Dallas Howard. A segunda é a violência bem mais radical em relação ao original: dessa vez o diretor não hesita em mostrar sangue e tornar os ataques bem mais realistas, ao contrário do tom quase censura livre da produção de 1993. Talvez ciente de que a molecada de hoje em dia está mais do que acostumada à exposição a vísceras e mutilações - em filmes, games e quadrinhos - Colin Trevorrow usa e abusa de sequências bem pouco prováveis de resistir aos cortes na versão dirigida por Spielberg (sempre preocupado em realizar obras para toda a família). É óbvio que não há exagero, mas é perceptível que Trevorrow é partidário assumido de mostrar mais do que sugerir, ao contrário do que fez Spielberg na primeira parte da franquia - e isso faz toda a diferença, já que em "Jurassic world" não há nenhuma cena marcante ou exatamente inovadora. Até mesmo o clímax, que reúne os velociraptors, o Tiranossauro Rex e o infame Indominus Rex, chega com certo sabor de dèja-vu, ainda que seja tecnicamente impecável. Mas faz falta a tensão crescente impressa por Spielberg em "Jurassic Park", quando elevou a curiosidade da plateia a níveis insuportáveis com artifícios simples e certeiros, como um copo d'água sentindo a chegada do gigantesco vilão - momento inesquecível da magia do entretenimento puro e simples.

Utilizando-se da música inconfundível de John Williams apenas como apoio - a trilha sonora é assinada por Michael Giacchino - e explorando sem pudor todos os clichês possíveis herdados dos primeiros filmes da série, "Jurassic world" é uma sessão da tarde de extrema competência. Apresenta tudo aquilo que fez a fama de Spielberg como Midas do cinema-pipoca (famílias em crise, redenções finais, senso de humor adequado, sequências de ação alternadas com cenas dramáticas) e as reinventa de maneira respeitosa e um tantinho modernizada. Conquista a plateia adolescente e infantil com os personagens de sua faixa etária - donos de uma das melhores cenas - e chama o público jovem com o carisma de Chris Pratt, um ídolo do cinema de ação que tem mais talento e mais cérebro do que seus colegas de gênero. Não à toa, tem uma continuação engatilhada para estrear em 2018. Alguém duvida que novamente fará o chão tremer?

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