segunda-feira, 14 de novembro de 2016

VICTOR OU VICTORIA

VICTOR OU VICTORIA (Victor Victoria, 1982, MGM, 132min) Direção: Blake Edwards. Roteiro: Blake Edwards, conceito de Hans Hoemburg, roteiro original de Reinhold Schunzel. Fotografia: Dick Bush. Montagem: Ralph E. Winters. Música: Henry Mancini. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Rodger Maus/Harry Cordwell. Produção: Tony Adams, Blake Edwards. Elenco: Julie Andrews, James Garner, Robert Preston, Lesley Ann Warren, Alex Karras, John Rhys-Davies, Graham Stark. Estreia: 16/3/82

7 indicações ao Oscar: Atriz (Julie Andrews), Ator Coadjuvante (Robert Preston), Atriz Coadjuvante (Lesley Ann Warren), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/ Comédia ou Musical (Julie Andrews)

A cerimônia de entrega do Oscar aos melhores de 1982 teve uma particularidade até hoje não igualada pelos conservadores eleitores da Academia de Hollywood: quatro dos intérpretes indicados à estatueta viviam personagens que brincavam com as identidades de gênero. Dustin Hoffman concorreu ao prêmio de melhor ator por "Tootsie"; John Litghow foi lembrado como coadjuvante pelo travesti que criou para "O mundo segundo Garp"; e Julie Andrews e Robert Preston chegaram à reta final por seus desempenhos na comédia musical "Victor ou Victoria", dirigida por Blake Edwards. Ok, nenhum dos quatro saiu vencedor - Hoffman perdeu para Ben Kingsley ("Gandhi"), Adrews para Meryl Streep ("A escolha de Sofia") e tanto Preston quanto Lithgow foram deixados para trás por Louis Gosset Jr. ("A força do destino") - mas não deixa de ser uma coincidência bastante interessante, que demonstra que, de vez em quando, os sérios votantes do Oscar também conseguem perceber a excelência mesmo quando ela vai contra seus princípios.

O fato é que, enquanto "Tootsie" (cujo protagonista se vestia de mulher para conseguir um emprego como atriz) chegou a ser indicado nas categorias principais - filme, direção, ator e roteiro - "Victor ou Victoria" (cuja personagem central também tem uma crise profissional como empurrão para a mentira) não tem medo de ir mais fundo na sexualidade, deixando bem claro, desde suas primeiras cenas, que um dos protagonistas, o falido cantor Toddy Todd (Robert Preston), é um gay assumidíssimo, que vive de fazer shows em boates destinadas à comunidade homossexual e, por falta de opção, é explorado pelo amante mais jovem. Se o roteiro puxa o freio de mão em determinado momento - quando o galã interpretado por James Garner se declara à Julia Andrews DEPOIS que ela confessa ser uma mulher e não um travesti - é porque o cineasta Blake Edwards, cioso dos 20 milhões de dólares gastos na produção do filme, preferiu não correr riscos junto à plateia menos liberada. O resultado foi um sucesso de público e crítica, que aclamou a mistura bem sucedida entre comédia de erros, musical e uma história de amor à moda antiga. Tão antiga que surgiu pela primeira vez na Alemanha, em 1933.

"Viktor und Viktoria", um filme alemão que também foi lançado como "George e Georgette" em uma versão francesa, em 1934, foi a origem de tudo. Em 1935, uma refilmagem americana recebeu o nome de "Mulher antes de tudo" e em 1957 a Alemanha retomou os direitos de fazer um outro remake. Achando que o público ainda não havia descoberto a trama, Blake Edwards - já com um currículo recheado de sucessos, como "Bonequinha de luxo" e "A pantera cor-de-rosa" - resolveu dirigir a sua própria versão da história, ainda nos anos 70. A protagonista seria sua esposa, Julie Andrews - cuja experiência com musicais era notória - e Peter Sellers estaria no elenco como o melhor amigo/empresário da talentosa cantora de sexualidade misteriosa. A morte de Sellers, em 1980, não impediu que a produção continuasse de pé. Robert Preston assumiu seu lugar - com louvor - e "Victor ou Victoria" estreou em 1982 com uma bela trilha sonora de Henry Mancini, uma reconstituição de época brilhante (indicada ao Oscar de direção de arte) e um humor delicioso que, a despeito de seu tema ousado, jamais descamba para a vulgaridade ou excessos de qualquer espécie. Mérito da direção elegante de Edwards e da química perfeita de seu elenco.

Julie Andrews está bela e luminosa como Victoria Grant, uma cantora de grande talento e carisma que, na Paris de 1934, tenta sobreviver com pequenos golpes em restaurantes enquanto luta pelo reconhecimento profissional. É durante um desses cambalachos que ela conhece Toddy (Robert Preston, merecidamente indicado ao Oscar de coadjuvante), que acaba de ser demitido do local onde se apresentava, depois de revidar o pouco caso do rapaz com quem tinha um caso. Depois de uma noite regada a uma longa conversa, Toddy tem uma ideia genial quando vê Victoria com a roupa de seu ex-amante: criar, junto com ela, uma personagem estrangeira que possa conquistar as exigentes plateias francesas. Surge então Victor Grazinski, um conde polonês que, expulso de casa por ser travesti, inicia uma carreira fulgurante nos palcos da cidade-luz. Seu sucesso chama a atenção de King Marchand (James Garner), um americano metido em negócios com a máfia e que não consegue resistir a seus encantos - para desgosto de sua amante perua, Norma (Lesley Ann Warren, também candidata ao Oscar de coadjuvante).

Sustentando sua trama basicamente sobre os equívocos que resultam do mirabolante plano de Tddy e Victoria, o filme de Edwards brinda o espectador com um visual requintadíssimo e um timing cômico admirável. Cortesia de uma deslumbrante Julie Andrews - cuja indicação ao Oscar foi mais que justa - e de um impecável Robert Preston, o humor de "Victor ou Victoria" reside nos enganos, nas sutilezas, nas entrelinhas de um roteiro que respeita estilos de vida alternativos e os trata com carinho, oferecendo à plateia não apenas uma comédia com momentos divertidíssimos mas também um musical de formato clássico, com todo o glamour a que o gênero tem direito. Com figurinos caprichados e um visual belíssimo, o filme encanta os olhos e o cérebro, enquanto faz rir e questionar preconceitos. Não é pouco para um mero filme - que, apesar de se arrastar um bocadinho em sua reta final, ainda consegue cativar seu público sem fazer muito esforço.

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