sábado, 26 de novembro de 2016

O CONVITE

O CONVITE (The invitation, 2015, Gamechanger Films, 100min) Direção: Karyn Susama. Roteiro: Phil Hay, Matt Manfredi. Fotografia: Bobby Shore. Montagem: Plummy Tucker. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Alysia Raycraft. Direção de arte/cenários: Almitra Corey/Ben Plunkett. Produção executiva: Nate Bolotin, Dan Cogan, Wendy Ettinger, Mynette Louie, Tony Mancilla, Julie Parkr Benello, Aubin Paul. Produção: Martha Griffin, Phil Hay, Matt Manfredi, Nick Spicer. Elenco: Logan Marshall-Green, Emayatzy Corinealdi, John Carroll Lynch, Tammy Blanchard, Michiel Huisman, Mike Boyle, Michelle Krusiec, Jordi Vilasuso, Jay Larson, Marieh Delfino, Toby Huss. Estreia: 13/3/15

As cenas iniciais, tensas e com um certo ar de estranhamento, já dá uma pista do que virá: em direção a um jantar na casa de amigos, o casal Will (Logan Marshall-Green) e Kira (Emayatzy Corinealdi) atropela um cervo, e, sem outra opção em vista, o rapaz é obrigado a sacrificar o animal com uma das ferramentas do carro. É esse tom de angústia e tensão que irá se desenvolver e aprofundar por todos os 100 minutos de duração de "O convite", primeiro longa-metragem da nova-iorquina Karyn Susama depois do terror adolescente "Garota infernal" (09). Amadurecida como cineasta e de posse de um material infinitamente mais rico e promissor, ela faz de seu filme um exercício constante de desconforto, enfatizado por uma fotografia opressiva e um elenco que, mesmo sem astros conhecidos, oferece ao espectador um senso de perigo iminente que vai crescendo cada vez mais, até o final aterrador e chocante.

Acostumada a lidar com protagonistas femininas - são dela também "Boa de briga" (2000), com Michelle Rodriguez, e "Aeon Flux" (05), com Charlize Theron - Susama dessa vez centra sua atenção no personagem de Logan Marshall-Green, do elenco de "Prometheus" (12) e idêntico à Tom Hardy em certos momentos. Com uma atuação minimalista e corajosa ao romper com os clichês do gênero, ele empresta a seu Will tintas de tristeza e sofrimento que o afastam do estereótipo de herói inabalável. Contando a história sob seu atormentado ponto de vista, a cineasta o aproxima do espectador sem apelar para artifícios desonestos, utilizando-se apenas de seus conflitos internos para transformá-lo em uma pessoa de carne e osso, falível e propensa a crises de desespero e solidão - mesmo quando rodeado de gente. Will, o protagonista de "O convite", é um personagem de tragédia perdido em meio a uma trama de suspense - uma espécie de Cassandra de calças, incapaz de fazer com que as pessoas enxerguem o óbvio destino reservado a elas.


Will é um homem com um passado traumático. Seu casamento com Eden (Tammy Blanchard) naufragou depois da morte acidental do filho pequeno, um golpe pesado demais para que eles se mantivessem juntos de maneira saudável. Dois anos depois de perder contato com a ex-mulher, ele recebe o convite para juntar-se a ela, a seu novo marido, David (Michiel Huisman), e a um grupo de antigos amigos em um jantar na casa onde viviam anteriormente. Acompanhado da nova companheira, Kira, ele aceita participar da reunião, mas tão logo chega no local passa a sentir uma estranha energia vinda de seus anfitriões. Suas dúvidas em relação às intenções do convite, porém, não são compartilhadas pelos demais convidados, que se sujeitam tranquilamente a todas as brincadeiras e testes propostos para animar a noite. Tranquilos e aparentemente felizes, Eden e David não se cansam de propalar os benefícios de um culto que conheceram durante uma viagem ao México - um simulacro de religião que a ensinou a lidar com a dor da perda e mudou sua vida. Convencido de que o encontro tem muitas ligações com tal culto, Will tenta alertar os amigos, mas ninguém dá ouvidos a seus avisos.... até que ele mesmo passa a duvidar de sua sanidade mental.

Um suspense psicológico que substitui com eficiência a violência gráfica pelo clima claustrofóbico e aflitivo, "O convite" vai construindo sua tensão gradualmente, mergulhando o público em um caldeirão de estranheza que vai ficando mais aguda conforme o tempo passa. De inocentes jogos de salão até revelações melancólicas, a noite alegre vai se tornando um círculo de paranoia crescente, que leva a plateia consigo até explodir em um clímax sangrento que não apenas cumpre o que promete desde seus primeiros minutos, como também critica contundentemente a forma como alguns tipos de religião se aproveitam da dor alheia para promover a violência e o desespero. Desviando com esperteza dos clichês que inundam o gênero, Karyn Susama entrega um filme de horror que prescinde de assassinos mascarados para promover o medo e a agonia. Com os dois pés bem fincados na realidade, ela conquista a audiência e levanta questionamentos relevantes em dias de obscurantismo religioso. De quantos filmes de terror pode-se dizer a mesma coisa?

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