domingo, 13 de novembro de 2016

SONHOS ERÓTICOS DE UMA NOITE DE VERÃO

SONHOS ERÓTICOS DE UMA NOITE DE VERÃO (A midsummer night's sex comedy, 1982, Orion Pictures, 88min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Santo Loquasto. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Carol Joffe. Produção executiva: Charles H. Joffe. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, José Ferrer, Julie Hagerty, Tony Roberts, Mary Steenburgen. Estreia: 16/7/82

Em 1982, o prestígio de Woody Allen, conquistado pelos Oscar de filme, roteiro e direção por "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77) já não era mais o mesmo, principalmente entre crítica e público, que não aderiram com o mesmo entusiasmo a seus filmes seguintes. O denso "Interiores" (78), o poético mas pouco compreendido à época "Manhattan" (79) e o onírico e surreal "Memórias" (80) haviam afastado a plateia das salas de cinema, e o cineasta nova-iorquino parecia ter perdido o caminho para reconquistá-la. Antes que "Zelig" (83) - o falso documentário sobre um homem com a capacidade de transmutar-se em qualquer coisa que estivesse perto de si - recuperasse parte de seu sucesso, porém, Allen teve de enfrentar outro revés artístico: a comédia "Sonhos eróticos de uma noite de verão", que não apenas passou praticamente em branco pelas telas como amargou uma pouco agradável indicação ao Framboesa de Ouro de Pior Atriz para Mia Farrow - então em sua primeira colaboração com o diretor, com quem viveria até 1992 e faria ao todo 13 filmes.

Farrow, aliás, não era a primeira escolha para o papel que lhe coube, e só entrou no projeto porque a atriz inicialmente escalada, Diane Keaton, foi obrigada a abdicar do papel quando as filmagens foram adiantadas. Na verdade, "Zelig" - este sim com Farrow no papel principal feminino - deveria chegar às telas antes, conforme o combinado com a Orion Pictures, estúdio responsável pela produção. Uma série de problemas técnicos, porém, adiaram o lançamento por um ano, o que fez com que Allen, devendo um filme para estrear ainda em 1982, resolvesse criar um novo roteiro, despretensioso e leve, para ser filmado simultaneamente e lançado antes. Surgia, então, "Sonhos eróticos de uma noite de verão", com o título original inspirado em Shakespeare e o roteiro calcado em outra referência do cineasta, "Sorrisos de uma noite de amor" (55), de Ingmar Bergman. Com um elenco enxuto para dar conta de apenas oito personagens, o filme foi rodado no interior de Nova York e, com a fotografia sempre iluminada de Gordon Willis e as belas paisagens a serviço da trama, é uma lufada de ar fresco em uma filmografia que estava em um período de severa transição entre o humor popular e a busca pelo respeito artístico.

A trama, simples e repleta de um humor inteligente e sem as elocubrações intelectuais costumeiras na filmografia de Allen gira em torno de três casais e sua constante busca pela realização amorosa e sexual no início do século XX. O cenário é uma bucólica casa no interior, onde mora o inventor Andrew (Woody Allen) e sua esposa, Adrian (Mary Steenburgen), que passam por uma crise de vácuo sexual em seu relacionamento. É durante esse doloroso processo que eles resolvem receber a visita do respeitado professor Leopold (Jose Ferrer), que está a dias de casar-se com a jovem Ariel (Mia Farrow), filha de uma família de políticos e que teve, no passado, uma história mal resolvida com Andrew. Não bastasse esse reencontro inesperado, Ariel também chama a atenção de Maxwell (Tony Roberts), um médico mulherengo, amigo de Andrew, que chega à propriedade na companhia de sua nova conquista, Dulcy (Julie Hagerty). A ciranda de romance entre esses seis personagens é que move a trama, com elementos que remetem ao dramaturgo Anton Tchekov e um clima pastoril radicalmente oposto às características urbanas do diretor.

Mesmo fazendo parte do grupo de filmes menos louvados e conhecidos de Woody Allen, "Sonhos eróticos de uma noite de verão" apresenta alguns momentos de pura poesia visual e diálogos saborosos de que apenas o cineasta é capaz. As discussões entre os personagens a respeito de amor e sexo ficam no meio-termo entre a profundidade de suas obras mais densas e o deboche de suas comédias puras, valorizadas pelo elenco à vontade diante de um dos textos mais acessíveis de Allen - e isso inclui a própria Mia Farrow, cuja indicação ao Framboesa soa um tanto injusta. Mesmo que seja um pouco difícil de engolir o fato de sua personagem despertar tantas paixões, ela sai-se bastante bem em sua primeira incursão no grupo de colaboradores habituais do cineasta, como o ator Tony Roberts, que trabalhou com ele sete vezes em sua carreira e parece não ter a menor dificuldade em encarnar os personagens criados pelo amigo. É ele o maior destaque do elenco, fazendo uma dupla e tanto com Allen, em especial quando ambos se dedicam a disputar o amor de Ariel - uma situação que ameaça terminar em tragédia mas, graças ao bom humor do roteiro, leva a um desfecho inesperado e poético. Um filme que merece ser redescoberto.

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