domingo, 5 de julho de 2015

A GAROTA IDEAL

A GAROTA IDEAL (Lars and the real girl, 2007, MGM Pictures/Sidney Kimmel Entertainment, 106min) Direção: Craig Gillespie. Roteiro: Nancy Oliver. Fotografia: Adam Kimmel. Montagem: Tatiana S. Riegel. Música: David Torn. Figurino: Kriston Leigh Mann. Direção de arte/cenários: Arv Grewal/Steve Shewchuck. Produção executiva: Peter Berg, Whitney Brown, William Hornberg, Bruce Toll. Produção: Sarah Aubrey, John Cameron, Sidney Kimmel. Elenco: Ryan Gosling, Emily Mortimer, Paul Schneider, Patricia Clarkson, Kelli Garner, Nancy Beatty. Estreia: 16/9/07 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Bianca é linda, sexy e tímida. Adorável, leal e cativante. Meio brasileira e meio dinamarquesa, é órfã e conquista a todos com sua simpatia e caráter. Bianca é a mulher que todo homem pediu a Deus. Exceto seu namorado, Lars, que a pediu por outros meios: sim, Bianca é perfeita, mas não é humana. É uma boneca feita de silicone e encomendada através da Internet, o que não a impediu de deixar seu novo namorado absoluta e totalmente apaixonado - a ponto de levá-la para morar na casa de seu irmão e sua cunhada para não despertar o falatório da pequena cidade onde mora. Tímido, desajeitado e quase antissocial - a ponto de não conseguir tocar em outras pessoas sem sentir-se queimado fisicamente - Lars encontra em Bianca a companhia perfeita. E parece ser o único a perceber que a mulher de sua vida não se encaixa nos padrões normais da sociedade - fato que, afinal, acaba se tornando parte da rotina do local, quando os moradores, que viram o rapaz crescer e tem por ele um amor incondicional, entram no jogo para não magoá-lo e passam a tratar Bianca como parte integrante da comunidade.

Esse é o ponto de partida - fascinante, um tanto quanto bizarro, mas muito criativo - de "A garota ideal", comédia dramática do estreante Craig Gillespie e que concorreu merecidamente ao Oscar 2008 de melhor roteiro original. Ao sobrepor a uma trama quase inacreditável um senso notável de realismo e contar com uma atuação irrepreensível de Ryan Gosling no papel do introvertido Lars Lindstrom, Gillespie constroi um filme de delicadeza ímpar, que seduz a plateia graças à empatia dos personagens e à maneira com que a trama se desenvolve - sem sobressaltos, com a placidez típica das cidades pequenas e com um equilíbrio perfeito entre humor e emoção, que evita tanto a gargalhada histérica quanto as lágrimas fáceis. Pode não ser um filme para todo mundo - é preciso uma certa "suspensão de realidade" para embarcar sem reservas na história - mas é, sem sombra de dúvida, uma pérola a ser resgatada dentre as dezenas de comédias dramáticas insossas que Hollywood despeja frente aos espectadores a cada temporada.


A grande ideia de "A garota ideal" nem é optar por uma boneca de silicone como protagonista feminina de uma história de amor - e não sexo puro e simples, ao estilo "American pie", onde ela se encaixaria com mais facilidade: seu maior trunfo é a forma como o roteiro se utiliza dessa premissa inicial para mergulhar fundo na psicologia de Lars, um jovem traumatizado por uma infância solitária e emocionalmente carente que encontra em seu relacionamento com uma mulher idealizada a maneira menos dolorida de lidar com seus fantasmas. Suas conversas com Dagmar (Patricia Clarkson), a médica que ele procura para lidar com a "anemia" de Bianca acabam por fazê-lo encarar suas limitações em relação à família - Gus (Paul Schneider), que sente-se culpado pela condição extrema do irmão, e Karin (Emily Mortimer), a cunhada grávida e esforçada em adequá-lo à uma vida normal - e os colegas de trabalho, entre as quais a igualmente tímida Margo (Kelli Garner), que sente uma indisfarçável atração por ele.

Vindo de uma indicação ao Oscar de melhor ator por "Half Nelson" - inédito nos cinemas brasileiros - e começando a construir uma carreira repleta de personagens fortes e interessantes, Ryan Gosling está excepcional como Lars, em uma interpretação rica em termos físicos e emocionais. Transmitindo sem muito esforço uma vasta gama de sentimentos - de inadequação, de paixão, de medo, de tristeza, de raiva - Gosling mostra porque tornou-se um dos atores jovens mais requisitados de sua geração nos anos seguintes. É principalmente devido à veracidade de seu desempenho que a trama, por mais surreal que pareça, soa natural e verossímil diante dos olhos do espectador, encantado diante de um filme simples e sensível, que aposta no inusitado para atingir o coração do público.A

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