sábado, 11 de julho de 2015

O VISITANTE

O VISITANTE (The visitor, 2007, Groundswell Productions/Next Wednesday Productions, 104min) Direção e roteiro: Tom McCarthy. Fotografia: Oliver Bokelberg. Montagem: Tom McArdle. Música: Jan A.P. Kaczmarek. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: John Paino/Kim L. Chapman. Produção executiva: Omar Amanat, Chris Salvaterra, Jeff Skoll, Ricky Strauss. Produção: Michael London, Mary Jane Skalski, John Woldenberg. Estreia: 07/09/07 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Richard Jenkins)

De vez em quando a Academia de Hollywood faz um favor aos fãs de cinema, ao destacar, em meio a produções milionárias que parecem sufocar toda e qualquer produção menos ambiciosa, filmes que, não fosse seu aval, passariam despercebidos e acabariam melancolicamente relegados a exibições em canais por assinatura ou restritas salas alternativas. Um dos melhores e mais simpáticos filmes a merecer tal distinção foi "O visitante", um encantador drama de personagens que arrebatou a indicação ao Oscar de melhor ator (Richard Jenkins, premiado no Festival de Moscou e pelo National Board of Review por seu desempenho). Tendo estreado no Festival de Toronto de 2007, o filme só chegou comercialmente aos cinemas em maio do ano seguinte, o que lhe empurrou para disputar a estatueta dourada no ano em que os muito mais ambiciosos "O curioso caso de Benjamin Button" e "Quem quer ser um milionário?" eclipsaram todos os demais candidatos - com a possível exceção de "Milk, a voz da igualdade" e "Batman, o cavaleiro das trevas".  Discreto, simples e baseado em emoções sutis, o filme do também ator Tom McCarthy é daqueles feitos para aquecer o coração sem apelar para exageros sentimentais.

Jenkins - um ator sensacional mas eternamente relegado a papéis coadjuvantes - está em seus melhores dias na pele de Walter Vale, um professor universitário aborrecido com a vida solitária e sem emoções que vive desde a morte da esposa. Suas tentativas de aprender piano - instrumento que ela tocava - são infrutíferas e sua carreira chegou a um ponto em que não há mais desafios ou alegrias. Quando ele sai de Connecticut para participar de uma conferência em Nova York, porém, sua vida se transforma radicalmente: em seu apartamento, ele encontra um casal de imigrantes ilegais, o sírio Tarek (Haaz Sleiman) e a senegalesa Zainab (Danai Gurira), que foram enganados na hora de assinar o contrato de locação. Para não deixá-los na rua e à mercê das autoridades, Vale acaba por permitir que eles fiquem com ele em sua casa. Aos poucos eles vão trocando experiências e o sisudo professor volta a sentir-se com um sentido na vida - principalmente quando Tarek é preso injustamente e, ameaçado de deportação, une, sem querer, seu novo amigo e sua mãe, Mouna (Hiam Abbass).



Construindo sua narrativa de forma delicada e suave, McCarthy - cujo filme anterior, "O agente da estação", foi muito elogiado em festivais de cinema internacionais - cativa a plateia aos poucos, desenhando com cuidado a mudança de personalidade de seu protagonista, que se transforma de um homem arredio e tenso em uma pessoa solidária e leve sem aquela pressa comum a produções menos afeitas a sutilezas. O expressivo Jenkins - cujo papel de maior destaque até então havia sido o do patriarca morto da elogiada série "A sete palmos" - empresta a Walter Vale uma elegância fria que, conforme a trama se desenvolve, vai se transmutando em uma generosidade inesperada e fraternal, fortalecida pelo amor à música - é aprendendo a tocar o instrumento que Tarek usa em suas apresentações em bares da cidade que Vale começa sua redenção e seu autodescobrimento, que culminam em uma surpreendente paixão por Mouna, um amor impossível e destinado ao rol das experiências inesquecíveis na vida de ambos.

Com uma interpretação silenciosa e minimalista, Richard Jenkins é o corpo e a alma de "O visitante", mas deve boa parte do sucesso de seu trabalho ao diretor e roteirista Tom McCarthy, que evita o piegas mesmo quando tudo se encaminha para tal. Em alguns momentos o roteiro chega perto do sentimentalismo, mas McCarthy é hábil o suficiente para fugir do banal, preferindo, ao invés disso, dirigir sua atenção para os detalhes de sua história - um par de óculos novo que deixa explícito um inesperado carinho, por exemplo - e para o desenvolvimento de seus personagens. Também é mérito dele a escalação certeira do elenco: além de Jenkins, se destacam também o ótimo Haaz Sleinman e a carismática Hiam Abbass, perfeitamente apropriados aos papéis de pessoas devastadas pelo destino e ainda assim dispostas a lutar pela felicidade. Com eles em cena é fácil compreender os motivos que fazem com que Vale reencontre sua alma - e é difícil não se deixar conquistar pela delicadeza como tudo é narrado. "O visitante" é um filme mágico e arrebatador, feito para quem acredita em nobres sentimentos e no poder da amizade e do amor.

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