quinta-feira, 2 de julho de 2015

CONDUTA DE RISCO

CONDUTA DE RISCO (Michael Clayton, 2007, Castle Rock Entertainment, 119min) Direção e roteiro: Tony Gilroy. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: John Gilroy. Música: James Newton Howard. Figurino: Sarah Edwards. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Paul Cheponis, George De Titta Jr., Christine Mayer, Charles M. Potter. Produção executiva: George Clooney, James Holt, Anthony Minghella, Steven Soderbergh. Produção: Jennifer Fox, Kerry Orent, Sydney Pollack, Steven Samuels. Elenco: George Clooney, Tom Wilkinson, Tilda Swinton, Sydney Pollack, Michael O'Keefe, Denis O'Hare. Estreia: 31/8/07 (Festival de Veneza)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Tony Gilroy), Ator (George Clooney), Ator Coadjuvante (Tom Wilkinson), Atriz Coadjuvante (Tilda Swinton), Roteiro Original, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Tilda Swinton) 

A carreira de George Clooney se divide, com extremo sucesso, entre produções puramente comerciais - caso de "Um drink no inferno" e a série de filmes "Onze homens e um segredo" - e filmes de ressonância social e política - como os impactantes "Boa noite, e boa sorte" e "Syriana", que lhe rendeu um Oscar de ator coadjuvante. "Conduta de risco", filme de estreia de Tony Gilroy como cineasta, faz parte da segunda categoria. Roteirista da trilogia Bourne, entre outros filmes de sucesso, Gilroy dá uma guinada de noventa graus na carreira ao privilegiar, ao invés da ação, um filme cerebral, lento e que dialoga muito mais com os sombrios filmes conspiratórios dos anos 70 pós-Watergate do que com os dinossauros anabolizados dos Stallone e Schwarzenegger que povoaram as telas a partir da década de 90. Se tal escolha não chegou a abalar as bilheterias - apesar de respeitáveis 50 milhões arrecadados nos cinemas americanos - ao menos agradou em cheio à crítica e à Academia, que lhe homenageou com 7 indicações importantes ao Oscar, inclusive em três categorias de interpretação (Tilda Swinton, impecável, acabou levando a estatueta) e nas três mais cobiçadas: filme, direção e roteiro.

Quem procurar no filme a ação característica dos filmes mais famosos que levam a assinatura de Gilroy irá decepcionar-se com "Conduta de risco", que tem um ritmo bem mais ameno e contido. Isso não quer dizer, no entanto, que seja menos explosivo - e sim, há uma explosão de carro logo nos primeiros minutos, que deflagra o longo flashback que explica a tensa condição em que se encontra seu protagonista, Michael Clayton (uma interpretação irretocável de Clooney). Empregado de uma firma de advogados - para quem conserta situações extremas que vão do mais banal ao mais complicado - ele está passando por uma crise pessoal de extrema urgência, que o faz dever 75 mil dólares a credores pouco dados a perdões. Pressionado e questionando sua própria ética ao perceber o quão desimportante ele na verdade é sob o ponto de vista de seu chefe, Marty Bach (Sydney Pollack), Clayton também chega a um impasse na carreira quando um dos advogados da firma, o respeitado Arthur Edens (Tom Wilkinson), também seu amigo pessoal, torna-se sua principal incumbência: responsável por um caso que põe uma milionária fábrica de pesticidas contra uma família de fazendeiros, Edens entra em crise psicótica e, disposto a revelar a verdade sobre a empresa nos tribunais, passa de aliado a inimigo. Tentando consertar o estrago, Clayton entra em rota de colisão contra a poderosa empresa - na figura da fria e ambiciosa Karen Crowder (Tila Swinton).


Aqueles que reclamarem que "Conduta de risco" demora a começar e que exige do público uma paciência e uma atenção aos quais ele está desacostumado estão certos. Realmente o roteiro de Gilroy não tem pressa em apresentar seus personagens e estabelecer a real história a ser contada, aproveitando sua primeira parte para definir claramente que, apesar da demarcação entre o bem e o mal, não há maniqueísmo em sua trama. Ok, a redenção do protagonista existe, assim como sua constatação de que há limites éticos até mesmo dentro de um universo onde tentativas de homicídio e chantagens são moeda corrente, mas o roteiro - que perdeu o Oscar para o frescor juvenil de "Juno" - não consegue deixar de soar incomodamente realista, a ponto de nem seu final agridoce aliviar a sensação de desesperança. Os inúmeros diálogos que questionam essa fronteira tênue e abstrata entre o legal e o criminoso, o certo e o errado, o ético e o maldoso representam um dos maiores méritos do filme, que aposta no que é dito - e muitas vezes no que não é dito - como principal elemento narrativo, enfatizado pela fotografia sóbria e pela trilha sonora minimalista de James Newton Howard, que sublinha os silêncios de Michael Clayton e seu desespero interior com delicadeza extrema.

Um filme para adultos cansados de perseguições de carros, seres imaginários e efeitos visuais mirabolantes, "Conduta de risco" é elegante e quase frio, buscando a cumplicidade da plateia através de uma história contada com seriedade e inteligência acima de tudo. Tal opção se reflete na direção de atores - concisa, objetiva, sutil - e em sua decisão acertadíssima de deixar para seu clímax o encontro dos dois titãs do elenco: quando George Clooney e Tilda Swinton finalmente ficam cara a cara, o filme de Tony Gilroy cresce, faz sentido e justifica o sucesso de crítica. Só por esse encontro - que se repetiria de forma mais divertida no subestimado "Queime depois de ler", dos irmãos Coen - "Conduta de risco" já vale uma sessão.

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