quarta-feira, 8 de julho de 2015

SANGUE NEGRO

SANGUE NEGRO (There will be blood, 2007, Paramount Vintage/Miramax, 158min) Direção: Paul Thomas Anderson. Roteiro: Paul Thomas Anderson, romance "Oil", de Sinclair Lewis. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Jim Erickson. Produção executiva: Scott Rudin, Eric Schlosser, David Williams. Produção: Paul Thomas Anderson, Daniel Lupi, JoAnne Sellar. Elenco: Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Ciarán Hinds, Dillon Freasier. Estreia: 27/9/07

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Paul Thomas Anderson), Ator (Daniel Day-Lewis), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Daniel Day-Lewis), Fotografia
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Daniel Day-Lewis) 

Paul Thomas Anderson não é um cineasta dos mais despretensiosos. Desde que seu segundo longa-metragem, "Boogie nights, prazer sem limites", de 1997, chegou às telas - o primeiro, "Jogada de risco", é um cult pouco conhecido pelo grande público - seu estilo sofisticado de contar histórias aparentemente simples tornou-se xodó da crítica e passou a desconcertar a plateia, confundida com tramas tão díspares quanto "Magnólia" e "Embriagado de amor", que tinham em comum, em uma primeira análise, apenas sua localização geográfica (a Califórnia) e o cuidado extremo com a direção de atores - vale lembrar que Tom Cruise concorreu ao Oscar pelo primeiro e até Adam Sandler convenceu como protagonista dramático no segundo. Porém, nem mesmo o mais ardoroso fã de Anderson e seu estilo próprio de cinema poderia imaginar o que ele faria em seu quinto filme: pela primeira vez trabalhando com material alheio (o roteiro é baseado no romance "Oil", de Sinclair Lewis), o cineasta fez de "Sangue negro" um dos filmes fundamentais de sua época, um minucioso trabalho de direção, interpretação e técnica capaz de encantar a qualquer espectador disposto a se deixar levar pela magia da sétima arte em seu conceito mais puro. Amparado por uma devastadora atuação de Daniel Day-Lewis - que levou o segundo e merecido Oscar da carreira por seu desempenho - "Sangue negro" é uma obra-prima que, além de todas as suas qualidades, nada corajosamente contra a corrente do cinema comercial inócuo e derivativo feito em Hollywood.

Sem fazer concessões ao mainstream, Paul Thomas Anderson já começa sua lista de ousadias ao eleger como protagonista de seu filme um personagem frio, ambicioso e totalmente desprovido de qualquer traço que possa despertar a simpatia da audiência: Daniel Plainview é francamente desagradável, um misantropo ganancioso capaz dos atos mais desprezíveis para atingir seu objetivo de acumular mais e mais poços de petróleo nos primeiros anos do século XX. Cego de ambição, ele não hesita nem mesmo em adotar o filho bebê de um funcionário morto em trabalho como forma de comover as famílias de quem pretende adquirir terras e prometer dinheiro para a construção do templo da Igreja da Terceira Revelação, comandada pelo jovem e igualmente ambicioso Eli Sunday (Paul Dano) - que acabará se tornando seu maior rival e a única pessoa com coragem suficiente para desafiá-lo através dos anos, em uma batalha muitas vezes violenta onde eles medirão forças junto à comunidade.


Uma crítica feroz ao capitalismo e à Igreja disfarçada de épico dramático, "Sangue negro" é um triunfo também em termos técnicos. A fotografia oscarizada de Robert Elswit traduz em imagens de impressionante textura todas as nuances da narrativa de Anderson, com tomadas deslumbrantes e secas que refletem o estado de espírito vazio do protagonista e ilustram a aridez da paisagem e de sua personalidade. A edição do parceiro constante de Anderson, Dylan Tichenor, é precisa, fugindo do óbvio e da pressa, ditando um ritmo próprio à história e permitindo à Day-Lewis a possibilidade de um show à parte: construindo um Daniel Plainview repugnante mas ainda assim dono de um magnetismo quase irresistível, o ator preenche a tela com uma das interpretações mais sensacionais que o cinema americano já proporcionou em sua história. Cada olhar, cada entonação vocal, cada gesto e cada silêncio de Day-Lewis são repletos de significados, que engrandecem ainda mais o conjunto formado por Anderson, um diretor incapaz de filmar uma única cena que não seja milimetricamente calculada para atingir o máximo de impacto. Tal cuidado é o responsável por algumas sequências já clássicas, como os embates entre Plainview e seu nêmesis, Eli Sunday: pelo menos em três momentos (quando o jovem pastor se vê literalmente com o rosto esfregado na lama, quando o empresário aceita converter-se como forma de adquirir mais poços de petróleo e seu último encontro em uma quadra de boliche dentro de sua propriedade milionária) o duelo entre o veterano ator e o ótimo Paul Dano (mais conhecido até então como o irmão mais velho em "Pequena Miss Sunshine) são absolutamente impressionantes pela entrega dos atores, pela direção impecável e pela crueza das situações. E de quantos filmes o mesmo pode ser dito?

Ousado desde seus primeiros momentos - a primeira fala surge somente após cinco minutos de silêncio e demora ainda mais para que surja em cena um diálogo inteiro - "Sangue negro" é um filme feito para quem procura cinema de qualidade, corajoso e relevante, capaz de permanecer na memória do espectador muito tempo depois de seu final. Visualmente exuberante, dramaticamente consistente e intenso como poucos filmes realizados para o público adulto e inteligente, é também a prova da maturidade de um cineasta ainda jovem mas já capaz de deixar sua marca dentro de uma indústria frequentemente óbvia e autocondescendente. Bravíssimo!

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