terça-feira, 7 de julho de 2015

SENHORES DO CRIME

SENHORES DO CRIME (Eastern promises, 2007, Focus Features/BBC Films, 100min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Steve Knight. Fotografia: Peter Suschitszky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Judy Farr. Produção executiva: Jeff Abberley, Julia Blackman, Stephen Garrett, David M. Thompson. Produção: Robert Lantos, Paul Webster. Elenco: Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl, Sinéad Cusack, Jerzy Skolimowski. Estreia: 05/9/07 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator

O sucesso de crítica e público de "Marcas da violência" (05) deu novo rumo à carreira do cineasta canadense David Cronenberg, até então acostumado a dividir opiniões com seus trabalhos frequentemente à beira do mau-gosto - vide a podridão explícita de "A mosca" e o surrealismo exarcebado de "Mistérios e paixões". Encontrando no ator Viggo Mortensen um parceiro artístico à altura, ele retornou aos desvãos da alma humana em seu filme seguinte, "Senhores do crime", em que equilibrou seu gosto pela violência com uma narrativa simples e direta, que prescindia de artifícios e metáforas para conquistar a plateia ávida por um bom filme policial. Mesmo recorrendo em alguns momentos a sequências bem mais gráficas do que a média do gênero - com sangue jorrando aos borbotões e um homem tendo o olho perfurado em uma luta - Cronenberg realizou uma obra que foge do convencional graças ao roteiro inteligente, ao elenco em boa forma e à sua direção, firme e inspirada.

Mortensen recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho - a princípio minimalista mas que vai aos poucos acumulando energia para o já antológico clímax em uma sauna, onde luta nu com dois homens que querem matá-lo - como Nikolai, o motorista de uma família de mafiosos russos que vivem em Londres. Com o corpo coberto de tatuagens - sinais que contam sua história de crimes, segundo dizem seus chefes - ele anseia em ser aceito como membro do seleto e violento grupo, liderado pelo aparentemente dócil Seymon (Armin Mueller-Stahl), que tem uma relação conflituosa com o filho único, o desajustado e impulsivo Kirill (Vincent Cassel). Seu mundo encharcado de sangue e vinganças é penetrado repentinamente pela obstetra Anna (Naomi Watts),  que chega até eles em busca de informações a respeito de uma adolescente que morreu em seus braços, durante um parto. Através do diário da jovem - que a médica não consegue traduzir do russo apesar de sua descendência soviética - ela tenta descobrir um meio de entregar seu bebê recém-nascido a algum membro da família, mas nem de longe desconfia que os responsáveis por toda a tragédia estão justamente entre aqueles a quem ela pede socorro.


Pontuando sua trama com um clima de constante ameaça, Cronenberg tem o mérito de depositar nos confiáveis braços de Mortensen um papel-chave, que, para surpresa do público, tem muito mais nuances e desdobramentos do que parecia a princípio. O roteiro de Steve Knight é pródigo em impedir a audiência de adivinhar o que vem pela frente, embaralhando suas cartas sempre que a trama parece caminhar em direção a um clichê. A relação entre Seymon e Kirill, por exemplo, seria um prato cheio para um roteirista preguiçoso, mas Knight faz questão de deixá-la sempre em tensão crescente, como se a qualquer momento tudo entre eles pudesse explodir sem aviso prévio. Logicamente, a escolha de Mueller-Stahl e principalmente Vincent Cassel para os papéis não poderiam ter sido mais corretas - o primeiro com seu ar bonachão de pai de família carinhoso e o segundo com seu eterno tom de desequilíbrio mental. Ao lado de Mortensen, uma presença tranquila e silenciosa, eles formam uma tríade de perigo à espreita que empresta o filme boa parte de seu charme e inteligência.

Forte e violento, "Senhores do crime" transforma até mesmo um momento sublime - o nascimento de um bebê - em uma fonte de vingança e crueldade, uma espiral crescente de tensão e desespero na qual a sofrida Anna (uma mãe frustrada pela morte prematura de um filho) se vê envolvida em um meio masculino que não a vê senão como um pedaço de carne. A virilidade misógina que perpassa o filme - com os homens explorando as prostitutas, violentando adolescentes e tratando suas esposas e mães como apêndices inferiores - tem reflexo nas cenas extremamente agressivas de luta e nos rituais de transição representados pela sessão de tatuagens em Nikolai e nos assassinatos cometidos em nome de uma tradição familiar sanguinária, mas a presença quase serena de Anna ameniza a sensação de desesperança e pesadelo que a fotografia escura e úmida transmite. Essa dicotomia massiva entre bem/mal, luz/escuridão, nascimento/morte é um dos trunfos do filme, que é um dos pontos altos da filmografia de David Cronenberg.
 

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