quinta-feira, 9 de julho de 2015

SWEENEY TODD, O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET

SWEENEY TODD - O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET (Sweeney Todd: the demon barber of Flet Street, 2007, Warner Bros/DreamWorks SKG, 116min) Direção: Tim Burton. Roteiro: John Logan, musical de Hugh Wheeler, adaptação musical de Christopher Bond. Fotografia: Darius Wolszki. Montagem: Chris Lebenzon. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesca LoSchiavo. Produção executiva: Patrick McCormick. Produção: John Logan, Laurie MacDonald, Walter Parkes, Richard D. Zanuck. Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Alan Rickman, Timothy Spall, Sacha Baron Cohen. Estreia: 03/12/07

3 indicações ao Oscar: Ator (Johnny Depp), Figurino, Direção de Arte & Cenários
Vencedor do Oscar de Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Ator Comédia/Musical (Johnny Depp) 

Depois que "Moulin Rouge, o amor em vermelho" recolocou os filmes musicais em alta no mercado hollywoodiano - e "Chicago" abocanhou seis cobiçadas estatuetas da Academia, incluindo melhor filme - o gênero voltou a frequentar as telas de cinema com assiduidade, para alegria dos fãs e desgosto dos detratores. Logicamente, a Broadway tornou-se a fonte mais rica de inspiração para os estúdios, que não viam como uma produção bem-sucedida nos palcos não poderia repetir o êxito nas telas - e nem o fracasso de crítica do pretensamente infalível "O fantasma da ópera" (que Joel Schumacher transformou em uma tortura musical em 2004 a despeito das belas canções de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber) alterou essa percepção. Não foi surpresa de ninguém, no entanto, quando a Warner e a Dream Works se uniram para lançar "Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da Rua Fleet", adaptação da peça de Hugh Wheeler e Stephen Sondheim que desde 1979 levava multidões aos teatros. Cobiçado pelos estúdios desde sua estreia, o musical quase chegou às telas por diversas vezes, e a lista de atores que quase interpretaram o papel-título incluía nomes tão diversos quanto William Hurt, Harrison Ford, Dustin Hoffman, Robert Redford, Warren Beatty, Al Pacino, Jack Nicholson, Robert DeNiro, Steve Martin e até Gene Hackman. Quando finalmente o projeto recebeu o sinal verde do próprio Sondheim, o cineasta Sam Mendes pulou para a cadeira de diretor, com Russell Crowe no papel central. Felizmente, as coisas deram mais uma vez para trás (felizmente não por causa de Mendes, um grande diretor, mas por causa de Crowe, cujos dotes vocais mostrados posteriormente em "Os miseráveis" não deixam dúvidas de que sua escolha teria sido a sentença de morte para o filme).

Sem Mendes e Crowe na liderança da produção, chegou a vez daquele que provavelmente era o nome certo para comandar o barco: Tim Burton, com sua visão criativa e seu reconhecido gosto pelo bizarro e pelo lado sombrio da humanidade, agarrou com unhas e dentes a chance de realizar seu primeiro musical e, com ele, como era esperado, entraram em cena Johnny Depp (parceiro artístico em cinco outros projetos anteriores) e Helena Bonham Carter (sua esposa e, conforme descoberto em meio às filmagens, grávida de seu segundo filho). Mas, comprovando que suas escolhas não tinham nada a ver com nepotismo (mesmo porque o papel de Carter era disputado por gente como Kate Winslet, Nicole Kidman, Annette Bening e Toni Collette), Burton buscou a aprovação de Sondheim em pessoa antes mesmo de rodar a primeira cena. O resultado final chegou ao público no final de 2007 e toda e qualquer dúvida a respeito das opções de Burton dissiparam-se imediatamente. Mesmo que não tenha se tornado um sucesso arrasador de bilheteria, "Sweeney Todd" encantou a crítica e deu a Depp sua terceira indicação ao Oscar de melhor ator em cinco anos - além de ter conquistado o Golden Globe de melhor comédia/musical do ano. E, mesmo aqueles que não tem muito entusiasmo por musicais tem de reconhecer que, a despeito das características inerentes ao gênero, há muito mais a apreciar do que reclamar no filme de Burton.


Aqueles que se chateiam com a cantoria interminável dos filmes musicais - e "Sweeney Todd" é daqueles praticamente todo narrado através de canções - podem deliciar-se com a fotografia irrepreensível de Dariusz Wolski, que capta o tom soturno de uma Londres pouco afável e bastante sufocante (e, por contraste, ilumina com cores brilhantes o período áureo do protagonista e os sonhos dourados de sua parceira de negócios/crimes). Podem ficar encantados com a reconstituição de época impecável de Dante Ferretti e Francesca LoSchiavo - colaboradores frequentes de Scorsese e que ganharam o Oscar por seu trabalho. Podem surpreender-se com o tom de violência explícita das imagens imaginadas pelo cineasta, que fez questão de manter o sangue aos borbotões propostos na história como forma de enfatizar a catarse emocional que cada morte tem para seu personagem-título. E podem, principalmente, reconhecer o excelente trabalho dramático de Johnny Depp e Helena Bonham Carter, provavelmente em algumas de suas melhores interpretações: Depp deixa de lado sua tendência a suavizar o personagem com tiques cômicos e sai-se muito bem cantando, e Carter consegue demonstrar toda a gama de emoções de sua personagem com uma sutileza raras vezes vista em sua carreira. Não bastasse tudo isso, o final trágico e inesperado fecha com inteligência uma trama sangrenta e sufocante que destoa dos normalmente sadios e alegres ambientes do gênero.

Baseado em uma lenda inglesa e na peça teatral de Christopher Bond - de onde saíram os detalhes sobre a origem do personagem - o musical de Wheeler e Sondheim conta a história de Benjamin Barker (Depp), um jovem barbeiro londrino que, por armações do invejoso Juiz Turpin (Alan Rickman), se vê condenado a quinze anos de prisão na Austrália, longe da esposa e da filha recém-nascida. Quando retorna à sua cidade natal, emocionalmente abalado e repleto de ódio, ele descobre que sua amada mulher, depois de ter sido violentada pelo juiz, tomou veneno e teve sua filha arrancada de seu convívio. Com o objetivo de vingar-se de Turpin, Barker assume o nome de Sweeney Todd, torna-se o mais conhecido barbeiro da cidade e, com o conluio de sua senhoria, Sra. Lovett (Bonham Carter), passa a matar seus clientes para transformá-los em matéria-prima para as tortas servidas por ela em seu restaurante. Enquanto isso, sua filha, Johanna (Jayne Weisener) faz de tudo para fugir das garras de seu "tutor", especialmente quando se apaixona pelo jovem marinheiro Anthony (Jamie Campbell Bower).

Visualmente deslumbrante e tratado com a seriedade apropriada, "Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da Rua Fleet" é um musical sério, intenso e realizado com uma perfeição técnica admirável. Pode não agradar a todos por causa do gênero, mas merece ser aplaudido por suas inúmeras qualidades, que o elevam a grande cinema.

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