terça-feira, 21 de outubro de 2014

MORTE SOBRE O NILO

MORTE SOBRE O NILO (Death on the Nile, 1978, EMI Films/Mersham Productions Ltd, 140min) Direção: John Guillermin. Roteiro: Anthony Shaffer, romance de Agatha Christie. Fotografia: Jack Cardiff. Montagem: Malcolm Cooke. Música: Nino Rota. Figurino: Anthony Powell. Direção de arte: Peter Murton. Produção: John Brabourne, Richard Goodwin. Elenco: Peter Ustinov, David Niven, Mia Farrow, Bette Davis, Maggie Smith, Simon MacCorckindale, Lois Chiles, Angela Lansbury, Olivia Hussey, Jane Birkin, Jon Finch, George Kennedy, Jack Warden. Estreia: 29/9/78

Vencedor do Oscar de Figurino

Poucas vezes os fãs da literatura policial de Agatha Christie puderam ver uma adaptação decente de seus romances para a tela de cinema. Aliás, não é preciso utilizar nem mesmo os cinco dedos de uma mão para contar quantos filmes baseados em sua obra valeram a pena. Primeiro, foi em 1956, com a obra-prima "Testemunha da acusação", dirigida por Billy Wilder e estrelada por Charles Laughton e Marlene Dietrich. Depois, em 1974, quando "Assassinato no Orient Express" chegou a dar um Oscar de coadjuvante para Ingrid Bergman. E por fim, em 1978, quando John Guillermin - co-diretor de "Inferno na torre" - assumiu o comando de "Morte sobre o Nilo" que marcou a primeira vez em que o grande ator Peter Ustinov vestiu a pele do detetive belga Hercule Poirot - outras cinco ocasiões vieram, sem o mesmo êxito em termos de crítica e público. Com uma produção bem cuidada, que resultou em um Oscar para o figurino de Anthony Powell, um roteiro bastante fiel à sua origem e um elenco de grandes atores, "Morte sobre o Nilo" é um filme policial à moda antiga que certamente não decepciona os leitores da Rainha do Crime.

Mesmo que Albert Finney tenha recebido calorosos elogios e uma indicação ao Oscar por sua composição como Poirot, Ustinov consegue sair-se ainda melhor na pele do famoso e egocêntrico detetive, equilibrando um senso de humor sutil com a seriedade que o papel pede em seus momentos mais sérios. E seriedade é o que não falta na trama criada por Agatha Christie, que se utiliza de uma paisagem exótica - os pontos turísticos do Egito e uma viagem de barco pelo caudaloso rio Nilo - para criar uma trama que aproveita todos os ingredientes de sua vasta literatura para prender a atenção do público desde suas primeiras cenas até a climática revelação do nome do criminoso, com todos os suspeitos reunidos na mesma sala para ouvir as conclusões do detetive mais famoso do universo do romance policial.


A vítima da vez é a bela, milionária e fria Linnet Ridgeway (Lois Chiles em papel recusado por Cybill Sheperd), recentemente casada com o sedutor Simon Doyle (Simon MacCorkindale, da extinta telessérie "Manimal"), que ela roubou de sua amiga pobre Jacqueline De Bellefort (Mia Farrow). Em plena lua-de-mel e perseguida por sua antiga companheira, ela embarca com o marido em uma viagem pelo Egito e se vê cercada de potenciais inimigos, que incluem uma escritora de livros baratos que foi processada por ela (Angela Lansbury), o advogado que cuida de suas finanças (George Kennedy), uma dama-de-companhia que a acusa de ser filha do homem que roubou o dinheiro de sua família (Maggie Smith), um médico que a culpa por um processo por imperícia (Jack Warden) e até uma ambiciosa e impulsiva ladra de joias (Bette Davis). Junto a outros suspeitos que desejam a morte de Linnet, porém, está no barco o detetive belga Hercule Poirot (Ustinov), que se unirá a um coronel inglês (David Niven) para desvendar o crime - que logo se multiplicará em três conforme a viagem vai prosseguindo.

A maior qualidade de "Morte sobre o Nilo", além de sua trama bem urdida e intrigante, é a elegância com que John Guillermin conduz a história, a despeito da violência inerente à narrativa policial. A impecável reconstituição de época e o elenco à prova de qualquer crítica servem à perfeição para o desfile de tipos excêntricos criados por Agatha Christie e retratados com respeito e seriedade pelo cineasta, que contrabalança todo o sangue da história (mostrado com parcimônia, nas horas exatas) com o senso crítico de humor que caracteriza a obra da escritora inglesa - e para o qual contribui a atuação perspicaz de Peter Ustinov e a classe de sempre de Bette Davis e Maggie Smith, roubando as cenas como patroa e dama-de-companhia. Mesmo que o filme chegue a quase duas horas e meia de duração em nenhum momento o ritmo fica cansativo, mostrando o talento de Guillermin em dosar com inteligência o suspense policial com o estudo irônico de seus personagens. Uma enorme bola dentro quando se fala em adaptações de Christie para o cinema.

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