quarta-feira, 21 de abril de 2010

CONFIDÊNCIAS À MEIA-NOITE


CONFIDÊNCIAS À MEIA-NOITE (Pillow talk, 1959, Universal Pictures, 102min) Direção: Michael Gordon. Roteiro: Stanley Shapiro, Maurice Richlin. Fotografia: Arthur E. Arling. Montagem: Milton Carruth. Música: Frank De Vol. Produção: Ross Hunter, Martin Melcher. Elenco: Rock Hudson, Doris Day, Tony Randall, Thelma Ritter. Estreia: 07/10/59

5 indicações ao Oscar: Atriz (Doris Day), Atriz Coadjuvante (Thelma Ritter), Roteiro Original, Trilha Sonora Comédia/Musical, Direção de Arte em Cores

Vencedor do Oscar de Roteiro Original


Em 1985, pouco antes de sua morte decorrente de complicações relacionadas ao então desconhecido vírus HIV, o ator Rock Hudson foi a público revelar o que não era mais novidade nenhuma nos bastidores de Hollywood: sua homossexualidade. A notícia pegou de surpresa o mundo todo, que não conseguia acreditar que aquele mesmo Rock Hudson másculo, viril, bonito, charmoso e enorme (1,93m) que frequentava os mais lúbricos sonhos femininos, era gay. O choque da revelação apenas atesta sem sombra de dúvidas o talento do ator, que em nenhum momento de sua carreira - repleta de sucessos - deixou de ser, aos olhos do público, o que eles gostariam que ele fosse. Seja em épicos grandiosos, dramas familiares ou comédias românticas, Rock Hudson sempre foi o Rock Hudson construído pelos estúdios e agentes, nunca suscitando, entre sua audiência, a menor suspeita sobre sua conduta por trás das câmeras - nem que para isso fosse preciso casar-se com uma secretária. Uma prova disso é a comédia "Confidências à meia-noite", uma deliciosa sessão da tarde que marcou o início de uma bem-sucedida série de filmes que ele fez com a atriz Doris Day - que seria sua amiga até o fim de seus dias.

"Confidências à meia-noite" fez um grande sucesso de bilheteria e levou o Oscar de roteiro original, o que foi praticamente inacreditável na época, uma vez que os próprios estúdios não apostavam que o gênero pudesse chamar público às salas de exibição, por achar que era um estilo ultrapassado de fazer cinema - e pensar que hoje em dia nomes como Meg Ryan, Sandra Bullock e Jennifer Aniston devam sua fama em grande parte àquela que, louvada nos anos 60, foi execrada décadas depois como "a eterna virgem", tornando-se motivo de chacota universal: Doris Day.

Day já tinha 37 anos à época do lançamento de "Confidências" e em nenhum momento do filme é feita qualquer referência ao estado de seu hímen, de onde depreende-se que a sua fama refere-se muito mais a seus sentimentos nobres de envolver-se apenas com os homens certos do que a uma parte específica de sua anatomia. No filme, escrito por Stanley Shapiro e Maurice Richlin, ela vive Jan Morrow, uma decoradora de interiores solteira - hum, provavelmente daí surgiu o boato sobre sua virgindade!! - que, apesar de ser cortejada incansavelmente por um cliente milionário, Jonathan Forbes (Tony Randall), ainda acredita que somente por amor se deve envolver-se em um relacionamento. Enquanto fica trabalhando e sonhando com um príncipe encantado, ela precisa lidar com Brad Allen (Hudson, no auge de seu charme), um compositor com quem divide a linha telefônica. Para sua ira, Jan é obrigada a ouvir as cantadas que ele passa em um número abundante de mulheres, o que a leva a entrar em uma guerra declarada contra ele. O que ela não imagina é que Allen é o melhor amigo de Forbes e, ao descobrir que ela é a sua ranzinza parceira de telefone, resolve seduzi-la. Para isso, inventa uma personagem, o texano sensível e de bons modos Rex Stetson. Logicamente, Jan cai de amores pelo turista, mas o plano do músico passa a ser ameaçado pelo amor que seu amigo sente por sua decoradora.


Talvez hoje em dia, para um público acostumado com comédias românticas que usam e abusam de corpos seminus e diálogos repletos de palavrões e piadas vulgares, o roteiro de "Confidências à meia-noite" seja de uma ingenuidade quase inacreditável. No entanto, sob a aparente superfície de um passatempo ligeiro e familiar, o texto de Shapiro e Richlin brinca, ainda que de forma velada, com assuntos que, em tese, incorreriam na fúria do Código Hayes. Diluídas em meio a piadas engraçadas mas bastante puras, estão brincadeiras sobre homossexualismo (a cena em que Allen tenta incutir na cabeça de Jan dúvidas sobre a masculinidade de Stetson é particularmente hilária) e sobre o futuro da medicina genética (em curtíssimas mas geniais cenas no consultório de um obstetra). Isso sem falar em alguns diálogos de duplo sentido que fazem rir e não ofendem ninguém - nem o fez em seu lançamento, provavelmente porque nada vindo de Doris Day e Rock Hudson poderia ofender a alguém.

"Confidências à meia-noite" é, repito para não deixar dúvidas, uma delícia de filme. Apesar do visual um tanto datado e da premissa inicial que hoje soa quase inverossímil, é uma comédia romântica que cumpre o que promete, além de registrar de forma indelével a invejável química entre Hudson (com um timing cômico admirável) e Doris Day (que era adorada pelas mulheres principalmente por não representar uma ameaça séria a seus relacionamentos, como era o caso de Marilyn Monroe - que por sua vez, era adorada por outras razões).

Em 2003, o filme "Abaixo o amor", dirigido por Peyton Reed e estrelado por Renee Zelwegger e Ewan McGregor prestou uma sincera e divertida homenagem aos filmes da dupla Hudson/Day, mas foi ignorado nas bilheterias. Merece uma segunda chance!

2 comentários:

Petro disse...

Muito bom, seu blog...e suas idnicações me matam de inveja já que nem tenho tempo para lhes assistir. ABraço

Yara Silva disse...

Os filmes de Doris Day são uma delícia de assistir.Muito engraçados e como vc disse,sem precisar recorrer á piadas vulgares ou corpos seminus.
O Rock Hudson era lindo demais e a Doris...Nossa,adoro essa mulher!
Não posso deixar de dizer que ela é uma cantora maravilhosa,detalhe não pequeno e nunca lembrado.
Obrigada por lembrar dessa dupla querida.