quarta-feira, 28 de abril de 2010

REI DOS REIS


REI DOS REIS (King of kings, 1961, MGM Pictures, 159min) Direção: Nicholas Ray. Roteiro: Philip Yordan. Fotografia: Manuel Berenguer, Milton Krasner, Franz F. Planer. Montagem: Harold F. Kress. Música: Miklos Rozsa. Produção: Samuel Bronston. Elenco: Jeffrey Hunter, Ron Randell, Hurd Hatfield, Frank Thring, Rip Torn, Viveca Lindfords, Siobhan McKenna, Brigid Bazlen, Robert Ryan, Royal Dano. Estreia: 11/10/61

Com a gloriosa exceção do ultra-violento "A paixão de Cristo", lançado por Mel Gibson em 2004, filmes que retratam a passagem de Jesus pela Terra tendem a ser tão sonolentos quanto uma aula mal dada de Religião. Sem muita criatividade, os cineastas que se aventuraram a discorrer sobre o assunto sempre acabaram apelando para roteiros repletos de clichês e que, no fundo, nunca acrescentavam nada à história mais conhecida do mundo. Por essa razão, não deixa de ser louvável a coragem do cineasta Nicholas Ray em realizar, em 1961, o que talvez seja o menos previsível dos filmes sobre o assunto à chegar às telas até que Martin Scorsese abalasse o altar com "A última tentação de Cristo", 27 anos depois. Ao optar por um viés mais político e social do que religioso, o diretor de "Juventude transviada" reiterou sua fama de outsider, mas em compensação, viu seu filme ser praticamente ignorado em todas as cerimônias de premiação da temporada. Somente a sua hoje clássica trilha sonora (composta pelo prestigiado Miklos Rozsa) foi lembrada com uma indicação ao Golden Globe, o que, em comparação com a enxurrada de Oscar do religiosamente correto "Ben-hur" dois anos antes, apenas demonstra o quanto a visão um tanto quanto rebelde do cineasta incomodou a tradicional crítica da época.

A ousadia de Ray começa pelo fato de seu protagonista ser praticamente ignorado durante um bom tempo da primeira parte de projeção. Somente depois de 30 minutos de filme é que Jesus Cristo finalmente aparece de verdade, sendo batizado por João Batista (Robert Ryan) e na figura atraente de Jeffrey Hunter (o nativo que acompanhava John Wayne pelo deserto, em "Rastros de ódio"). Até então, o roteiro de Philip Yordan se concentrava em manobras políticas e em estabelecer - de forma um pouco maçante, diga-se de passagem - o panorama social de seu cenário (Jerusalém, Belém, Nazaré, etc). O surgimento de Jesus em cena é o clímax do que os governantes supunham ser uma rebelião iniciada por João Batista e que tinha em Barrabás (Harry Guardino) outro importante líder. Vincular Barrabás e seus seguidores a Jesus e seus apóstolos é outro golpe de mestre de Ray, que, ao invés de focar-se apenas nos ensinamentos de Cristo (coisa que inúmeros outros filmes fizeram), o coloca no meio do fogo cerrado entre os desmandos de Herodes Antipas e a insatisfação de seu povo. Nem mesmo a traição de Judas Iscariotes (Rip Torn) é vista de maneira convencional através dos olhos do cineasta, o que faz de REI DOS REIS o mais transgressor dos filmes religiosos realizados pela MGM.

Logicamente, a opção de Nicholas Ray pelo ângulo político-social da história de Jesus acarreta problemas outros além do repúdio do público mais conservador. Ao concentrar-se muitas vezes nas manobras estratégicas de Barrabás e seu grupo, o roteiro estende-se desnecessariamente, apresentando longas e um tanto cansativas sequências que de certa forma, desviam a atenção do que realmente importa, ou seja, a história em si, não tanto de Jesus Cristo, mas também das engrenagens que o levaram à crucificação e morte. Aliás, Ray parece tão pouco preocupado com o desfecho de sua história que os momentos que normalmente ocupam a maior parte dos filmes do gênero - a paixão em si, a morte e a ressurreição - são mostrados rapidamente, sem maiores detalhes (ao contrário da obra-prima de Gibson) e de maneira sintomaticamente despida de qualquer violência exagerada, quase asséptica. É tudo tão limpo na versão de Ray que Hunter chegou mesmo a ser depilado para as cenas de crucificação (tudo porque em exibições-teste o público não gostou de ver Jesus Cristo com pelos no peito). A impressão que fica é a de que o cineasta parecia gritar a seu público que não lhe interessava sangue, suor e lágrimas e sim o tortuoso caminho que levou a tudo isso.

Reprisado constantemente em feriados religiosos - em especial a Páscoa - "Rei dos reis" não é exatamente um filme religioso na acepção mais aceita do termo, assim como tampouco é um épico grandioso e inesquecível. É, isso sim, mais um documento da fé que Nicholas Ray tinha em realizar os filmes que queria e do jeito que queria. Pode não ser uma obra-prima, mas tem personalidade.

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