segunda-feira, 19 de abril de 2010

INTRIGA INTERNACIONAL


INTRIGA INTERNACIONAL (North by northwest, 1959, MGM Pictures, 131min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Ernest Lehman. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Bernard Herrmann. Elenco: Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason, Jessie Royce Landis, Martin Landau. Estreia: 17/7/59

3 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Montagem, Direção de Arte (Cores)

Depois de ter filmado boa parte de "Intriga internacional", seu ator principal, Cary Grant chegou até o diretor do filme, Alfred Hitchcock e disse o seguinte: "Acho esse roteiro pavoroso, pois já filmamos a primeira terça parte do filme, acontecem coisas de todo tipo, e não entendo de jeito nenhum do que se trata." A indignação de Grant não era gratuita, como pode comprovar qualquer incauto espectador deste, que é o 49º longa do cineasta inglês. Ao dirigir esta intrincada trama de espionagem - roteirizada por Ernest Lehman - Hitch criou talvez o mais claro exemplo de um "mcguffin", que ele tanto citava em suas entrevistas. "McGuffin", segundo o mestre do suspense, é um elemento da trama que a empurra pra frente, mesmo que no final das contas seja apenas um detalhe ou uma desculpa para o desenvolvimento da história. Entendido? Pois vejamos.

Do nada, o publicitário Robert Tornhill (Cary Grant) passa a ser perseguido por um gupo misterioso de homens que aparentemente o quer morto. O grupo, liderado pelo frio Vandamm (James Mason), não hesita em tentar assassiná-lo das mais variadas maneiras e utiliza-se de todos os artifícios possíveis para eliminá-lo. Quando descobre que está sendo confundido com um tal de George Kaplan, Tornhill resolve localizá-lo para esclarecer a confusão. O que ele não sabe é que Kaplan não existe: é um agente inventado por um grupo americano de contra-espionagem - que obviamente não tem a menor disposição de revelar sua armação. Contando com a ajuda da bela Eve Kendall (Eva Marie Saint), ele tenta provar sua identidade e sua inocência no assassinato de que passa a ser acusado.

Realmente a trama de "Intriga internacional" é das mais complicadas - e talvez até mesmo simplesmente a mais frágil - da carreira de Hitchcock, mas também não dá pra negar que o motivo sobre a perseguição de Vandamm e seus homens ao falso Kaplan é o que menos importa no resultado final. Do alto de sua experiência e talento, Hitch proporciona a seu público um filme repleto de sequências de ação de tirar o fôlego, intercaladas com cenas com diálogos espertos e românticos/sensuais entre Grant e Eva Marie Saint (que ficou com o papel que foi oferecido a Cyd Charisse e Sophia Loren). A cena de amor entre os dois no dormitório de Eve no trem onde eles se conhecem é provavelmente uma das mais sexies da carreira do cineasta, notoriamente avesso a manifestações tão claras a respeito de sexualidade e a química entre os dois atores é uma das razões pelas quais o filme funciona tão bem no quesito romântico. Mas Grant quase recusou o papel.


Aos 55 anos de idade, Grant se achava velho demais para viver o irrequieto protagonista de "Intriga internacional", mas acabou sendo convencido por Hitchcock, principalmente porque James Stewart, que estava interessadíssimo no papel teve que sair do projeto para filmar "Anatomia de um crime", de Otto Preminger. Na verdade, Hitchcock postergou o início das filmagens até que Stewart estivesse já comprometido com o filme de Preminger e não pudesse liderar o elenco de "Intriga". O motivo? O diretor considerava que o fracasso comercial de seu filme anterior, "Um corpo que cai" se devia muito à idade avançada do ator. Incoerentemente, ele chamou Grant - um ano mais VELHO que Stewart - para o papel. Vai entender o gorducho!!!

O fato é que Cary Grant domina o filme, com uma atuação exata e discreta, mas sempre eficiente. Com seu charme e elegâncias inatas, ele equilibra atordoamento, angústia, paixão e até mesmo um bem-vindo senso de humor que provavelmente não soaria tão natural em James Stewart. Além do mais, Grant tem um carisma que de imediato o conecta à plateia, a quem não resta nada além do que ficar de olhos vidrados assistindo às espetaculares - e antológicas - cenas de ação do filme. Sucessos de bilheteria como a trilogia Bourne, por exemplo, devem - e muito - a sequências como a perseguição de um avião à personagem de Grant em um descampado e à cena final no Monte Rushmore, dois perfeitos exemplos do talento incansável de seu diretor.

"Intriga internacional" não é meu Hitchcock preferido - não fica nem entre os cinco mais - mas é inegavelmente um dos mais eficientes thrillers de espionagem de todos os tempos.

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