quinta-feira, 18 de junho de 2015

BORAT: O SEGUNDO MELHOR REPÓRTER DO GLORIOSO PAÍS CAZAQUISTÃO VIAJA À AMÉRICA

BORAT - O SEGUNDO MELHOR REPÓRTER DO GLORIOSO PAÍS CAZAQUISTÃO VIAJA À AMÉRICA (Borat: Cultural learnings of America for make benefit glorious nation of Kazakhstan, 2006, Four By Two/Everyman Pictures/Dune Entertainment, 84min) Direção: Larry Charles. Roteiro: Sacha Baron Cohen, Anthony Hines, Peter Baynham, Dan Mazer, estória de Sacha Baron Cohen, Peter Baynham, Anthony Hines, Todd Phillips, personagem criado por Sacha Baron Cohen. Fotografia: Luke Geissbuhler, Anthony Hardwick. Montagem: Craig Albert, Peter Teschner, James Thomas. Música: Erran Baron Cohen. Figurino: Jason Alper. Produção executiva: Monica Levinson, Dan Mazer. Produção: Sacha Baron Cohen, Jay Roach. Elenco: Sacha Baron Cohen, Pamela Anderson, Ken Davitian. Estreia: 04/8/06

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

Dentre os indicados ao Oscar 2007 - cerimônia que finalmente premiou Martin Scorsese com seu "Os infiltrados" - nenhuma surpresa foi maior do que a inclusão da comédia "Borat: o segundo melhor repórter do glorioso país Cazaquistão viaja à América", escrita, dirigida e produzida por Sacha Baron Cohen, famoso comediante americano, criador de tipos como o rapper Ali G e pouco chegado a sutilezas com seu humor iconoclasta, debochado e muitas vezes a um passo do grosseiro e do vulgar. Justamente essa sua falta de papas na língua, que o faz ser tão popular junto a uma parcela do público ianque - e que também arregimentou fãs em outros países - é que causa o estranhamento em relação à sua indicação à estatueta de melhor roteiro adaptado, junto a títulos bem mais "palatáveis" ao gosto médio dos votantes, como "Notas sobre um escândalo", "Pecados íntimos" e o vencedor da categoria, "Os infiltrados": poucas vezes (se é que existe alguma outra ocasião) a Academia, tão rígida e aparentemente tão desprovida de senso de humor abraçou um filme que tão corajosamente bate de frente com o que se convencionou chamar de bom-gosto. De estrutura frágil mas eficiente, o enxuto filme de Baron Cohen expõe sem pena nem dó todo o ridículo provincianismo do povo médio americano - com todos os seus preconceitos, ódios e idiossincrasias - sem levar-se a sério em momento algum. Não é de admirar que tenha levado tantos processos judiciais - o que é de admirar é que, levando-se em conta o quanto os americanos se levam a sério, nenhum deles tenha ido adiante.

Baron Cohen desaparece sob a pele de Borat Sagdiyev, popular repórter de uma rede de televisão do Cazaquistão que recebe a incumbência de visitar os EUA a fim de estudar seus hábitos culturais e registrá-los em um documentário. Acompanhado de seu produtor, o mau-humorado Azamat (Ken Davitian), ele embarca rumo à Nova York disposto a aprender o máximo possível a respeito daquele que considera o maior país do mundo. Enquanto choca os anfitriões com seu comportamento no mínimo excêntrico - que se choca violentamente com toda e qualquer regra de bom senso e educação do mundo civilizado - o jornalista (que vive em um vilarejo paupérrimo onde não existe o conceito de politicamente correto) vai arrancando de seus entrevistados declarações polêmicas a respeito de estrangeiros, homossexuais, judeus e todos os assuntos que percebe serem minimamente delicados. Seus planos, porém, mudam de direção quando, ao assistir um episódio de "Baywatch" na televisão, ele se apaixona pela atriz Pamela Anderson e decide ir atrás dela e convencê-la a ser sua esposa.


Criado para um programa de televisão, o grotesco Borat serve como uma espécie de lente da verdade que reflete toda a podridão que os americanos tentam desesperadamente esconder para debaixo do tapete. Diante das câmeras do diretor Larry Charles, pessoas aparentemente respeitáveis desfilam sua ignorância e indiferença em relação a minorias e temas controversos: é o caso do vendedor de automóveis que não demonstra a menor hesitação quando fala na velocidade necessária para matar atropelados os ciganos que porventura possam aparecer no caminho ou do animador de rodeios que afirma, orgulhosamente, que é favorável à prisão e morte de gays. Ao mesmo tempo, o próprio ator não poupa sua imagem, ridicularizando a si mesmo com declarações machistas e antissemitas com o objetivo de constranger seus entrevistados - consegue sem muito esforço, e o resultado, independente do quanto se aprecia o humor frequentemente grotesco do filme, é inegavelmente engraçadíssimo. Arrancando risadas do mal-estar e do desconforto alheio com sua obra, Baron Cohen redefine o conceito de humor, pro bem ou pro mal. Mas não deixa de ser muito irônico que um filme que critique tanto e tão abertamente o american way of life tenha entrado no Oscar como convidado de honra.

Desde suas primeiras cenas, em que o protagonista apresenta seu vilarejo, seus amigos e sua família ao espectador, "Borat" convida o público a adentrar em um universo sem limites para o humor - paradoxalmente grosseiro em sequências como a infame briga entre o repórter e seu obeso produtor (ambos nus) e sofisticado em suas ironias e tiradas a respeito das diferenças culturais e sociais entre os EUA e o Cazaquistão (retratado no filme de forma exagerada e flagrantemente distante de sua realidade, o que causou infindáveis polêmicas). Não é todo mundo que vai se identificar com o deboche explícito do filme, mas aqueles que se deixarem conquistar terão uma hora e meia de risadas garantidas.

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