quinta-feira, 4 de junho de 2015

O TERMINAL

O TERMINAL (The terminal, 2004, DreamWorks SKG/Amblin Entertainment, 128min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Sacha Gervasi, Jeff Nathanson, estória de Sacha Gervasi, Andrew Niccol. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Alex McDowell/Anne Kuljian. Produção executiva: Jason Hoffs, Andrew Niccol, Patricia Witcher. Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Steven Spielberg. Elenco: Tom Hanks, Catherine Zeta-Jones, Stanley Tucci, Chi McBride, Diego Luna, Zoe Saldana. Estreia: 09/6/94

Um dos mais bem sucedidos cineastas da história, Steven Spielberg pode se gabar de ter em seu currículo êxitos impressionantes de bilheteria, como "Tubarão", "Caçadores da Arca Perdida", "ET, o extraterrestre" e "Jurassic Park, parque dos dinossauros" - entre tantos outros - e filmes generosamente premiados e louvados como "A lista de Schindler" e "O resgate do soldado Ryan", mas nem essa admirável lista de sucessos o impede de, vez ou outra, tropeçar em suas boas intenções e experimentar o amargo sabor da frustração. Foi o que aconteceu com "O terminal", simpática comédia dramática estrelada de 2004 que, apesar de não ter sido um desastre comercial do porte de outros malogros do diretor, como o subestimado "Além da eternidade", ficou muito aquém do que se poderia esperar de um novo encontro entre o cineasta e Tom Hanks, um dos mais populares astros de sua geração - e com quem já havia trabalhado em "Ryan" e "Prenda-me se for capaz". Com uma bilheteria doméstica de menos de 80 milhões de dólares (contra um orçamento de cerca de 60 milhões), o filme também encontrou uma recepção apenas morna da crítica e acabou sendo relegado a segundo plano na carreira do diretor. Uma injustiça, uma vez que é agradável o suficiente para manter a atenção do público do início ao fim e apresenta mais uma inspirada atuação de Hanks, voltando a fazer humor - mas dessa vez de forma bem mais sutil do que no início de sua vitoriosa trajetória.

Ligeiramente inspirado na história real de um iraniano que em 1988 teve seu visto de entrada na Inglaterra negado por ter tido seu passaporte e certificado de refugiado roubados e que acabou por morar no aeroporto Charles De Gaulle - na França - enquanto sua saúde mental se deteriorava, o roteiro de "O terminal" prefere deixar de lado as consequências trágicas da trama para manter sua narrativa no terreno mais leve da comédia de situações. Essa opção, acertada, permite a Spielberg exercitar um lado pouco conhecido de sua filmografia, normalmente marcada por blockbusters milionários ou pesados dramas de guerra. Seguindo o ritmo de "Prenda-me se for capaz", seu filme anterior, o cineasta imprime um registro ameno à história de Viktor Navorski (Hanks), um cidadão de um fictício país do leste europeu chamado Krakozhia que chega aos EUA justamente quando seu país sofre um golpe de estado e fica à mercê das decisões políticas da ONU para poder ou voltar para casa ou entrar como turista em Nova York. Prejudicado pelas ambições do chefe de segurança da alfândega do aeroporto, Frank Dixon (Stanley Tucci), Navorski acaba por se conformar com seu destino e faz de uma ala em reformas do JFK seu novo lar.


Enquanto seu personagem em "Náufrago" era obrigado a conviver com um novo modo de vida desprovido de quaisquer luxos e confortos de uma sociedade civilizada quando se via sozinho em uma ilha deserta, em "O terminal" o Viktor Navorski de Tom Hanks também precisa se acostumar com uma nova situação de vida: empreiteiro em seu país de origem, ele não vê outra alternativa em seu novo cotidiano a não ser buscar comida através de moedas coletadas em máquinas de devolução de carrinhos de carga, dorme em bancos de espera e aprende inglês comparando as traduções dos guias de viagem que carrega em sua bagagem. Tal condição se transforma, porém, quando ele supera a barreira do idioma e inicia uma série de relações interpessoais dentro do aeroporto que transformam seu dia-a-dia: assim, ele ajuda o jovem latino Enrique Cruz (Diego Luna) a conquistar a bela Dolores Torres (Zoe Saldana) - que trabalha no setor de imigração - faz amizade com o paranoico faxineiro Gupta Rajan (Kumar Pallana) e até se apaixona pela bela comissária de bordo Amelia Warren (Catherine Zeta-Jones). Tais encontros acabam por mudar seu destino.

Apesar da química entre Hanks e Zeta-Jones não ser das mais convincentes - um problema que dificilmente pode ser creditado à dupla de atores, sempre eficientes - e parecer um tanto arrastado em seus quinze minutos finais, quando Navorski finalmente parte em busca de cumprir sua missão nos EUA, "O terminal" não deixa de ser um filme extremamente simpático e delicado, capaz de agradar a todos os tipos de público. Não deixa de ser um paradoxo, portanto, que justamente quando tenta cativar todas as camadas da plateia, o cineasta mais popular de sua geração falhe na missão. É inexplicável, no entanto, a quase indiferença com que o filme foi tratado por crítica e público. Talvez por ser uma obra de Spielberg - alguém acostumado a elevar o nível do cinema comercial americano - a plateia esperasse mais uma obra-prima, ou no mínimo, algo que ficasse marcado na memória como a maioria de seus filmes. Não foi a intenção do cineasta, como se percebe pela despretensão - e jamais desleixo - da produção, que, caprichando na direção de arte ao reconstruir o aeroporto JFK, trata tudo com sutileza e um bom-humor muito adequado. É uma sessão da tarde reforçada, com a assinatura de um grande diretor em um momento de pouca ambição. Vale a pena fazer justiça e reconsiderar tanto desinteresse pelo divertido resultado final.

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