domingo, 28 de junho de 2015

PARANOIA

PARANOIA (Disturbia, 2007, DreamWorks SKG, 105min) Direção: D.J. Caruso. Roteiro: Christopher Landon, Carl Ellsworth, estória de Christopher Landon. Fotografia: Rogier Stoffers. Montagem: Jim Page. Música: Geoff Zanelli. Figurino: Marie-Sylvie Deveau. Direção de arte/cenários: Tom Southwell/Maria Nay. Produção executiva: Tom Pollock, Ivan Reitman. Produção: Jackie Marcus, Joe Medjuck, E. Benneth Walsh. Elenco: Shia LaBeouf, David Morse, Carrie-Anne Moss, Sarah Roemer, Aaron Yoo, Viola Davis. Estreia: 04/4/07

Uma versão adolescente e moderna de "Janela indiscreta" poderia parecer desnecessária para uns, mercenária para outros e até blasfêmia para os mais exaltados. No entanto, é praticamente isso que "Paranoia", dirigido pelo mesmo D.J. Caruso de "Roubando vidas", é. O mais surpreendente de tudo, porém, não é o fato de uma versão puramente comercial de um clássico do suspense ter sido um sucesso de bilheteria (mais de 80 milhões de dólares arrecadados no mercado doméstico) nem de ter o dedo milionário de Steven Spielberg na produção (através de seu estúdio DreamWorks): o mais admirável é que o filme de Caruso funciona muito bem. Desde a escolha do elenco - o jovem Shia LaBeouf ainda não havia estrelado o blockbuster "Transformers", mas já demonstrava fôlego para segurar produções mais ambiciosas - até a direção dotada de ritmo e tensão, tudo se encaixa à perfeição para criar um entretenimento despretensioso, capaz de agradar até ao mais ferrenho defensor do "purismo cinematográfico".

Levando-se em conta que até mesmo a justiça americana considerou inválida a ação perpetrada pelos detentores dos direitos autorais do conto de Cornell Woolrich que deu origem ao filme de Hitchcock - por perceber no roteiro de "Paranoia" diferenças em número suficiente para dar-lhe uma identidade original - os tais puristas deveriam relaxar e aproveitar 105 minutos de diversão descompromissada e tecnicamente bem-cuidada, como tudo que leva a mão de Spielberg - que mais tarde daria a LaBeouf o papel de filho do arqueólogo mais famoso do cinema, em "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal". Inteligente e com altas doses de adrenalina, "Paranoia" é uma sessão da tarde turbinada, que requer apenas uma plateia disposta a embarcar na trama junto com os protagonistas e uma bom combo de pipoca e refrigerante. Não muda a história do cinema, mas é divertido e muito competente.


Antes de tornar-se mais um jovem ator-problema de Hollywood, Shia LaBeouf vive Kale, um adolescente de 17 anos, órfão de pai - morto em um recente acidente de carro - que, depois de agredir um professor, é condenado a três meses de prisão domiciliar. Sem poder recorrer ao velho e bom video-game e à Internet - cortados por sua mãe, Julie (Carrie-Anne Moss, a Trinity da trilogia "Matrix") - resta a ele acompanhar a rotina diária de sua vizinhança através de um binóculo. Tal rotina torna-se extremamente interessante, porém, quando a bela Ashley (Sarah Roemer) muda-se para uma casa próxima e lhe dá, mesmo sem saber, shows diários de banhos de sol e trocas de roupa em seu quarto. Sua paixão pela nova vizinha ele compartilha com seu melhor amigo, Ronnie (Aaron Yoo), mas logo esse sentimento de paz e amor é ameaçado quando evidências passam a apontar que um outro vizinho, o misterioso Turner (David Morse), é o assassino de uma série de mulheres e que fez uma das vítimas em sua casa. O trio passa então, a investigar o caso, mesmo que Kale não possa afastar-se do quintal de sua propriedade.

Contando sua história aos poucos, sem apressar o ritmo e em tensão crescente, D.J. Caruso mantém o interesse da audiência aceso do início ao fim, equilibrando momentos de puro suspense com outros mais leves, onde explora o romance nascente entre Kale e Ashley - o que leva o filme aos domínios da plateia adolescente, público-alvo da produção, afinal de contas - e dá inevitável espaço para o humor, na figura de Ronnie, que, felizmente, não serve apenas para arrancar risos e também põe a mão na massa na hora de provar a culpa do vilão, vivido com gosto por David Morse, um ator que tem o tipo certo para o personagem e tira de letra a missão de bater de frente com um trio de adolescentes bisbilhoteiros que atrapalham sua trajetória criminosa. Sem poupar ninguém, o suspeito - logo tornado culpado - mostra que não é preciso ser um mascarado atrapalhado para dar sustos na plateia jovem (e nem mesmo naquela nem tão jovem assim). Com um vilão apavorante, um protagonista carismático e uma trama razoavelmente consistente, "Paranoia" é um programa dos bons. Basta não esperar uma obra-prima como o filme que lhe inspirou.

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