segunda-feira, 1 de junho de 2015

GALERA DO MAL

GALERA DO MAL (Saved!, 2004, United Artists/Single Cell Pictures, 92min) Direção: Brian Dannelly. Roteiro: Brian Dannelly, Michael Urban. Fotografia: Bobby Bukowski. Montagem: Pamela Martin. Música: Christophe Beck. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Tony Devenyi/Laura Kilam, James Willcock. Produção: Michael Ohoven, Sandy Stern, Michael Stipe, William Vince. Elenco: Jena Malone, Mandy Moore, Patrick Fugit, Mary-Louise Parker, Martin Donova, Eva Amurri, Macaulay Culkin, Heather Matarazzo. Estreia: 21/01/04 (Festival de Sundance)

Em uma época onde o fundamentalismo religioso vem se tornando cada vez mais perigoso, amputando direitos civis com o apoio de muitos setores da sociedade, um filme como "Galera do mal" chega a ser mandatório. Mesmo em tom de comédia adolescente - daquelas bastante sarcásticas e repletas de uma deliciosa acidez que a distingue de produções similares - o filme de Brian Dannelly, que estreou no Festival de Sundance em 2004 e foi eleito o preferido do público no Festival de Nashville, no mesmo ano, faz uma crítica contundente ao fanatismo religioso e à intolerância sexual, usando para isso arquétipos das comédias estudantis que fizeram a glória de John Hughes na década de 80. Tendo o roqueiro Michael Stipe - da banda R.E.M. - como um dos produtores, "Galera do mal" é corajoso, debochado e dotado de um senso iconoclasta que muito faz falta nas anódinas e vazias comédias hollywoodianas que tentam soar modernas e relevantes.

Já começando com ironia - a canção "God only knows", da banda Beach Boys em uma bela versão interpretada pela cantora teen Mandy Moore, que vive a vilã do filme - "Galera do mal" (um título nacional pra variar sem imaginação e genérico) não tem medo em pegar pesado em sua crítica à obstinação religiosa doentia, focando sua trama na batalha radical travada entre dois grupos de adolescentes que frequentam uma escola protestante de uma pequena cidade de Maryland. Às vésperas do início do ano letivo, a ingênua Mary (Jena Malone) recebe a notícia que seu namorado, Dean (Chad Faust), é gay e, acreditando que Deus falou com ela e lhe deu a missão de curá-lo, resolve perder a virgindade com ele. A artimanha não apenas falha (por motivos óbvios) como a põe em uma situação delicada quando o rapaz é enviado para uma clínica de reabilitação cristã: para seu desespero, Mary se descobre grávida. Sentindo-se traída por Deus, ela renega o grupo musical do qual faz parte e que é liderado pela fervorosa Hilary Faye (Mandy Moore saindo-se bem em papel herdado de Anne Hathaway), que toma para si a tarefa de reconquistá-la para sua turma nem que, para isso, tenha que utilizar-se de artimanhas radicais como exorcismo. Não bastasse tais problemas, Mary começa a sentir-se atraída por Patrick (Patrick Fugit), filho do Pastor Skip (Martin Donovan) - que por sua vez está iniciando um relacionamento com sua mãe, Lilian (Mary-Louise Parker).


Utilizando-se de uma narração em off que lembra em diversos momentos o igualmente perverso "O oposto do sexo" - sintomaticamente também estrelado por Martin Donovan, o ator preferido do cineasta independente Hal Hartley - "Galera do mal" deita e rola em seu deboche aos dogmas radicais do cristianismo doentio sem que, para isso, ofenda ou desrespeite qualquer crença, exceto, é claro, quando ela permite tal insubordinação. Hilary Faye e seu séquito de adoradoras fieis e cegas em sua fé imposta por uma série de regras jamais questionadas são o retrato mais que perfeito da atual sociedade centrada em preceitos arcaicos e preconceituosos. Seu contraponto dramático (ou cômico, como é mais apropriado ao gênero) é Cassandra (Eva Amurri, filha da atriz Susan Sarandon), uma judia que desafia as leis da escola e bate de frente com Faye ao contestar seus princípios e se envolver com o irmão da garota, Roland (Macaulay Culkin), paraplégico que não compartilha dos mesmos ideais religiosos da escola. São esses três - Mary, Cassandra e Roland - que irão desafiar Hilary em sua luta por transformar a todos em cegos seguidores de suas convicções.

Mesmo que em sua segunda metade o roteiro caia de ritmo e siga os caminhos mais esperados do gênero, "Galera do mal" está acima da média justamente por fazer rir de temas sérios sem a condescendência normalmente atrelada a eles. Jena Malone é a escolha perfeita para viver a desiludida Mary, com seu olhar perdido e desanimado, enquanto Mandy Moore surpreende com uma atuação inspirada e de exato timing cômico. O humor momentoso e relevante - que faz pensar enquanto faz rir - também é digno de aplausos, a ponto de o roteiro ter se transformado em musical nos palcos nova-iorquinos em 2008, o que apenas reitera sua importância e inteligência. Um filme a ser descoberto!

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