terça-feira, 2 de junho de 2015

ROUBANDO VIDAS

ROUBANDO VIDAS (Taking lives, 2004, Warner Bros./Village Roadshow Pictures, 103min) Direção: D.J. Caruso. Roteiro: Jon Bokenkamp, romance de Michael Pye. Fotografia: Amir Mokri. Montagem: Anne V. Coates. Música: Philip Glass. Figurino: Marie-Sylvie Deveau. Direção de arte/cenários: Tom Southwell/Suzanne Cloutier, Anne Galéa, Amanda Moss Serino. Produção executiva: Bruce Berman, Dana Goldberg, David Heyman. Produção: Mark Canton, Bernie Goldman. Elenco: Angelina Jolie, Ethan Hawke, Kiefer Sutherland, Gena Rowlands, Olivier Martinez, Tchéky Karyo, Jean-Hughes Angladé, Paul Dano. Estreia: 16/3/04

Filmes de suspense, especialmente em Hollywood, seguem sempre a mesma receita: serial killers violentos e criativos, policiais dedicados à carreira que em determinado ponto tomam como algo pessoal a missão de caçá-los e uma ou outra reviravolta final que justifique a classificação de gênero - além de, lógico, escalar um elenco comercialmente atraente e construir uma trama instigante o suficiente para prender a atenção pelas próximas duas horas. Levando em consideração tais regras, "Roubando vidas" é um sucesso em todos os quesitos. No entanto, o filme de D.J. Caruso, que começou a carreira dirigindo episódios de séries de TV, acaba deixando no público, ao seu término, uma sensação de frustração: tudo está no lugar, devidamente encaixado e bem azeitado, mas falta a ele um tempero a mais, que o faça destacar-se de seus congêneres. Apesar do bom elenco e da história interessante, algo o impede de ser um filme inesquecível: um roteiro melhor elaborado.

Mesmo baseado em um romance e tendo a colaboração de três roteiristas no trabalho final de Jon Bokenkamp - inclusive do indicado ao Oscar Nicholas Kazan - "Roubando vidas" carece de uma melhor estrutura, que sirva de base para as pistas falsas lançadas pelo caminho e até mesmo para um desenvolvimento mais satisfatório de seus personagens, que acabam sendo delineados em um nível superficial que enfraquecem o impacto de seu terço final. Ainda assim, mesmo com essa falha que poderia ser um tiro de misericórdia em suas intenções de manter o interesse da plateia, o filme de Caruso é um policial acima da média, graças principalmente ao talento do elenco envolvido e da premissa atraente - e também pelo fato de, ao contrário da grande maioria das produções do gênero, fugir dos cenários tradicionais (Nova York, Chicago, Los Angeles, São Francisco) e transferir sua ação para o Canadá. É lá que acontece a busca incessante da polícia por um assassino em série que vem desfigurando e decepando suas vítimas, sempre homens brancos com tendência a vidas independentes.


Intrigados com tais mortes, a polícia canadense pede ajuda à bela Illeana Scott (Angelina Jolie), especialista do FBI em traçar perfis de criminosos, que chega ao país justamente quando um novo corpo é encontrado e quando uma testemunha ocular do crime se apresenta aos investigadores: o artista plástico James Costa (Ethan Hawke) afirma ter presenciado o ataque à última vítima e faz um desenho do assassino, o que acarreta uma força-tarefa para protegê-lo e caçar o provável criminoso. O problema é que Costa tem um relacionamento misterioso com tal suspeito, Hart (Kiefer Sutherland), o que acaba por desviar o foco da caçada, principalmente quando Illeana começa a sentir-se atraída pelo pintor, para desprezo de um de seus parceiros, o cético Paquette (Olivier Martinez). A trama fica ainda mais empolgante quando entra em cena uma velha senhora (Gena Rowlands), que não tem dúvidas de ter visto seu filho - morto ainda adolescente - bem vivo nas ruas de Quebec. Ela insiste que a polícia tem que prendê-lo, já que ele é extremamente perigoso.

Os motivos que levam o serial killer a fazer suas vítimas é o que há de mais interessante no filme, além da presença sempre luminosa de Angelina Jolie, mesmo quando presa a uma personagem sem maior profundidade dramática. Seu envolvimento romântico com o personagem de Ethan Hawke soa um tanto forçado, mais como um gancho de suspense incluído para agradar à parcela feminina da plateia - apesar da nudez parcial de Jolie satisfazer os marmanjões de plantão - do que como uma necessidade orgânica da trama, mas acaba por ser o menor dos problemas do roteiro. A falta de um foco maior no vilão e em suas vítimas - e até na sempre ótima Gena Rowlands, subaproveitada ao extremo - é o maior pecado do filme, uma trama de suspense que mata seu suspense em escolhas óbvias e em um final exagerado e anti-climático. Nas mãos de David Fincher e com um roteiro menos preguiçoso daria um filmão. Como está é um SuperCine de luxo que vale a pena por Angelina Jolie.

Um comentário:

Leia-me Já! disse...

Eu gosto bastante desse filme, apesar de todos os pontos negativos que você cita na sua resenha. Eu li o livro que também é muito bom, mas que por incrível que pareça quebra aquele velho ditado "o livro é sempre melhor", pois, na minha opinião, o filme conseguiu juntar as pontas soltas do livro.

Resenha do livro em: http://leia-meja.blogspot.com.br/2010/10/roubando-vidas-michael-pye.html