quarta-feira, 10 de junho de 2015

VERDADE NUA

VERDADE NUA (Where the truth lies, 2005, Serendipty Point Films/First Choice Films, 107min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Atom Egoyan, romance de Rupert Holmes. Fotografia: Paul Sarossy. Montagem: Susan Shipton. Música: Mychael Danna. Figurino: Beth Pasternak. Direção de arte/cenários: Philip Barker/Trisha Edwards, Cal Loucks. Produção executiva: Atom Egoyan, Colin Leventhal, Donald A. Starr, Daniel J.B. Taylor. Produção: Robert Lantos. Elenco: Colin Firth, Kevin Bacon, Alison Lohman, David Hayman. Estreia: 13/5/05 (Festival de Cannes)

Quando "Verdade nua" estreou, no Festival de Cannes de 2005, o comentário geral - e que chamava mais a atenção do que o filme em si - era de que a história, baseada em um romance de Rupert Holmes, especulava a respeito da relação entre os atores Jerry Lewis e Dean Martin e dos motivos que levaram ao fim de uma das duplas mais queridas do público americano na década de 50. Realidade ou não, o fato é que tal publicidade deu à obra do canadense Atom Egoyan uma sobrevida entre os cinéfilos que, de outro modo, provavelmente não teria: mesmo com algumas ousadas cenas de sexo (amenizadas em sua versão para o mercado norte-americano) e uma história que mantém um certo suspense até seus minutos finais, fica a sensação, em seu término, de que o desejo de criar polêmica acabou sobrepujando a profundidade que Egoyam havia demonstrado, por exemplo, em seu melhor filme, o genial "O doce amanhã", que lhe indicou aos Oscar de direção e roteiro em 1998. Repleto de reviravoltas - algumas convincentes, outras nem tanto - e com um excesso de narração em off, "Verdade nua" é acima da média, mas jamais chega a ser tão bom quanto poderia.

Sem assumir a inspiração na dupla Lewis/Martin - que romperam a bem-sucedida sociedade artística sem maiores explicações no auge do sucesso, o que deu margem a inúmeras especulações - o filme de Egoyan (assim como o romance de Holmes) tem como protagonistas dois grandes astros da Hollywood dos anos 50, ídolos das telas e dos palcos e admirados incondicionalmente pelo público que então não tinha acesso a todas as sujeiras que os glamourosos tapetes dos hotéis cinco estrelas escondiam: Lanny Morris e Vince Collins tem uma relação profissional acima de qualquer suspeita, ganham milhões e levam uma vida de luxo e conforto, escondendo de seus fãs suas verdadeiras personalidades. Consumidores habituais de drogas e entusiastas de orgias com prostitutas e quem mais se dispuser a elas - além de ter relações estreitas com a Máfia - os dois sofrem um duro golpe na carreira quando, depois de um especial de televisão beneficente, o corpo de uma camareira do hotel onde estão hospedados é encontrado no quarto de Morris. A morte da jovem - chamada Maureen O'Flaherty - é divulgada como tendo sido causada por overdose, e o escândalo acaba por desfazer a dupla.


Quinze anos mais tarde, Collins (Colin Firth antes da consagração por "O discurso do rei"), se vendo em dificuldades financeiras, aceita a proposta de escrever sua biografia. Para isso, a editora manda até ele a jovem Karen O'Connor (Alison Lohman), uma jornalista ambiciosa e determinada que tem seus próprios motivos para aceitar a missão, já que, fascinada pelos atores desde criança, ela pretende descobrir a verdade sobre a morte de Maureen e assim revelar aos leitores (e à mãe da vítima) o que aconteceu entre as quatro paredes do hotel naquela noite de 1957. Seu caminho rumo à solução do caso esbarra, porém, em um acidente do destino: em uma viagem de avião antes de encontrar-se com Collins, ela conhece Morris (Kevin Bacon, extremamente à vontade em um papel difícil e diferente em sua carreira) e acaba se deixando seduzir por ele, mentindo a respeito de sua identidade. Quando é desmascarada, porém, ela se vê diante de uma intriga de proporções maiores do que imaginava e descortina uma série de versões contraditórias sobre os fatos que somente os próprios envolvidos poderão esclarecer.

A narrativa construída em cima de idas e vindas, que poderia ser um dos maiores trunfos de "Verdade nua", acaba por prejudicando seu resultado final. Um tanto confuso em alguns momentos, o roteiro do próprio diretor demora a estabelecer as reais motivações de seus personagens, impedindo a plateia de se deixar envolver desde o início pela trama policial ao estilo Agatha Christie que, no final das contas, acaba sendo mais interessante do que as fofocas de bastidores - apesar dos esforços de Egoyam em extrapolar os limites do cinema comercial convencional, com cenas de sexo relativamente ousadas que incluem orgias, lesbianismo e uso de drogas. Seu pecado maior - enfatizar tais sequências em detrimento da história que pretende contar - acaba sendo ainda mais patente quando, nos minutos finais, a identidade do verdadeiro assassino acaba por ser revelada, em uma cena anti-climática e morna que contrasta com a atmosfera densa que vinha sendo mantida pela direção elegante do cineasta. Ainda assim, a coerência interna da solução do caso é louvável, assim como a atuação de Bacon, que se sobressai à quase apatia de Alisson Lohman e à eterna frieza de Firth.

Quem procura em "Verdade nua" um retrato dos podres de Hollywood não irá se decepcionar. Quem gosta de um filme com uma trama razoavelmente inteligente também. Mas quem espera encontrar um Atom Egoyan de primeira qualidade é melhor rever "O doce amanhã", que é mais consistente e menos ambicioso comercialmente.

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