terça-feira, 30 de junho de 2015

UM CRIME DE MESTRE

UM CRIME DE MESTRE (Fracture, 2007, New Line Cinema/Castle Rock Entertainment, 113min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Daniel Pyne, Glenn Gers, estória de Daniel Pyne. Fotografia: Kramer Morgenthau. Montagem: David Rosenbloom. Música: Jeff Dana, Mychael Danna. Figurino: Elisabetta Beraldo. Direção de arte/cenários: Paul Eads/Nancy Nye. Produção executiva: Toby Emmerich, Liz Glotzer, Hawk Koch. Produção: Charles Weinstock. Elenco: Anthony Hopkins, Ryan Gosling, David Strathairn, Rosamund Pike, Embeth Davidtz, Billy Burke, Fiona Shaw, Bob Gunton, Xander Berkeley, Zoe Kazan. Estreia: 11/4/07

Em seu filme de estreia, o cineasta Gregory Hoblit conquistou o público com uma instigante trama de tribunal que colocava frente a frente um advogado vaidoso e arrogante (Richard Gere) e um jovem sacristão acusado de matar violentamente um arcebispo. O filme era "As duas faces de um crime" e, além de ter dado a primeira chance no cinema a Edward Norton - que a aproveitou como poucos, chegando ao páreo do Oscar de coadjuvante - mostrou em Hoblit um cineasta correto e atencioso com os atores e o texto. Tais características são claras também em "Um crime de mestre", lançado mais de uma década depois e que, assim como em seu primeiro filme, junta em cena um ator veterano e um talento promissor, no caso, Anthony Hopkins - o eterno Hannibal Lecter - e Ryan Gosling, iniciando uma trajetória de bons papéis e filmes menos esquecíveis como "Cálculo mortal". E a menção ao mais famoso canibal do cinema não é casual: mesmo sendo um grande ator, é impossível não perceber em sua atuação como o milionário Ted Crawford traços bem nítidos do papel que lhe deu a estatueta da Academia.

O olhar frio, o calculismo e um certo tom de superioridade ao restante da humanidade são algumas  das similaridades entre Lecter e Crawford, um milionário do ramo da aviação que, ao descobrir o relacionamento extra-conjugal de sua esposa, Jennifer (Embeth Davidtz), planeja sua morte com requintes de artista: ao chegar em casa depois de um encontro com o amante, Jennifer é atingida com um tiro no rosto e é internada em coma. Acuado pela polícia dentro de sua mansão, Crawford confessa o crime e é preso imediatamente. O defensor público escalado para cuidar de seu caso é o ambicioso Willy Beachum (Ryan Gosling), jovem advogado em vias de dar um salto na carreira e tornar-se sócio de uma conceituada firma da qual faz parte a sedutora Nikki Gardner (Rosamund Pike) - com quem ele acaba se envolvendo romanticamente. Acontece que Beachum não está muito interessado no caso por considerá-lo perdido - o suspeito, afinal de contas, fez uma confissão à polícia e foi preso em flagrante. No entanto, uma surpresa na condução das preliminares do julgamento o faz mudar de ideia: defendendo a si mesmo diante do juiz, Crawford põe em dúvida a veracidade de sua confissão ao revelar, durante um depoimento, que o policial que o prendeu, Robert Nunnaly (Billy Burke), era o amante de sua mulher.


Por vezes o roteiro de "Um crime de mestre" exagera nas tecnicalidades do direito penal americano, mas nada que o público acostumado a uma constante dieta de filmes do gênero não consiga acompanhar sem dificuldade, principalmente porque Hoblit tem pleno domínio do ritmo de seu filme, impedindo qualquer queda no interesse pela trama. É lógico que o duelo de interpretações entre Gosling e Hopkins dá um molho especial à narrativa, fotografada com elegância e sofisticação em ângulos de câmera criativos e que enfatizam o tom de quebra-cabeças da história. E se Hopkins repete à exaustão os tiques que lhe deram fama, o jovem Gosling deita e rola com a oportunidade de contracenar com um dos monstros sagrados do cinema: ficando com o papel para o qual também foi testado Chris Evans - o futuro Capitão América das telas - ele entrega uma atuação visceral que lhe conduziu em seguida ao posto de uma das maiores promessas de Hollywood (não à toa, ele recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho no independente "Half Nelson" às vésperas da estreia de "Um crime de mestre" nos EUA). Suas cenas com Hopkins - tensas e calcadas basicamente no talento dos atores - e com Rosamund Pike - banhadas em uma tensão sexual na dose certa - são, certamente, as melhores do filme.

"Um crime de mestre" não é um filme brilhante, mas tem qualidades o bastante para satisfazer o gosto dos fãs do gênero, com suas viradas, seus diálogos inteligentes e um final que, apesar de não atingir todo o seu potencial, é coerente e verossímil. Além do mais, nada é mais instigante do que testemunhar um duelo de interpretações entre dois ótimos atores de gerações diferentes. Um programa de nível para quem prefere utilizar o cérebro ao invés dos músculos.

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