terça-feira, 28 de outubro de 2014

FRANCES

FRANCES (Frances, 1982, BrooksFilms, 140min) Direção: Graeme Clifford. Roteiro: Eric Bergren, Christopher De Vore, Nicholas Kazan. Fotografia: László Kovács. Música: John Barry. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/George Gaines. Produção: Jonathan Sanger. Elenco: Jessica Lange, Sam Shepard, Kim Stanley, Bart Burns, Jeffrey DeMunn, Lane Smith. Estreia: 03/12/82

2 indicações ao Oscar: Atriz (Jessica Lange), Atriz Coadjuvante (Kim Stanley)

O ano de 1982 foi particularmente satisfatório para Jessica Lange. Poucos anos depois de ter sido ridicularizada por sua estreia como a protagonista feminina de "King Kong", ela mostrou à crítica e aos detratores que, por trás de seu belo rosto e do vulcão de sensualidade que havia demonstrado em "O destino bate à sua porta" (81), havia uma atriz de intenso talento, pronta para surpreender e encantar. Em "Tootsie", de Sydney Pollack, ela deixou perceber seu lado solar, como a atriz de telenovelas que desperta a paixão de um travestido Dustin Hoffman e levou pra casa o Golden Globe e o Oscar de atriz coadjuvante. Mas foi seu desempenho como outra atriz, real e com uma vida repleta de lances dramáticos, que ela derrubou de vez toda e qualquer desconfiança: na pele de Frances Farmer - papel que era cobiçado por Diane Keaton e Goldie Hawn, ambas oscarizadas e já respeitadas - ela injetou em doses exatas emoção, desespero e revolta. E só não ganhou a estatueta na categoria principal porque tinha Meryl Streep e seu "A escolha de Sofia" pelo caminho.

Frances Farmer existiu de verdade e chegou a fazer alguns filmes em Hollywood nos anos 40 - antes que sua personalidade forte, suas simpatias comunistas e seu desinteresse pela fama estéril de um estrela de cinema em detrimento da nobreza do teatro lhe dessem o rótulo de persona non grata na capital das vaidades. Rechaçada em sua cidadezinha do interior aos 16 anos por ter escrito uma dissertação onde negava a existência de Deus, ela logo piorou sua situação indo passar um tempo em Moscou - quando já era uma jovem atriz especializada em teatro russo. Seu retorno triunfal ocorreu justamente quando chegou às telas de cinema, quando passou a ser respeitada e adulada sem por isso sentir-se obrigada a compactuar com ideais que renegavam os seus. Dedicando-se ao teatro, sua verdadeira paixão, ela jamais deixa de manter contato com o jornalista Harry York (Sam Shepard, que se envolveu com Lange durante as filmagens e teve com ela dois filhos), que é quem a ajuda a superar os piores anos de sua vida: abandonada e traída profissionalmente pelo amante dramaturgo, Clifford Oddets (Jeffrey DeMunn), ela volta à Hollywood e, desequilibrada, cai nas mãos de sua mãe, Lilian (Kim Stanley, indicada ao Oscar de coadjuvante), que vê solução apenas internando-a em um hospício.


Mesmo que o roteiro tenha ficcionado algumas passagens da vida de Frances - o personagem de Sam Shepard, por exemplo, nunca existiu, e a lobotomia sofrida pela protagonista jamais aconteceu - o filme de Graeme Clifford (que depois nunca mais acertou em sua carreira cinematográfica) sobrevive principalmente graças ao empenho de Jessica Lange em dar credibilidade e empatia a uma personagem difícil. Convencendo tanto como uma adolescente de 16 anos quanto como uma mulher sofrida e vivida, ela é a luz do filme, transmitindo milhares de emoções com poucas palavras, usando apenas o olhar para levar a audiência junto com ela à espiral de desespero que toma conta de sua vida no terço final da história. Seus duelos com Kim Stanley - que vive Lilian Farmer, sua mãe e algoz - são dignos de nota, dando ao filme um tom de tragédia familiar que deixa seus furiosos ataques à nata de Hollywood leves como um filme de Carlitos. Sua descida ao inferno - em especial uma inspirada sequência onde ela ensaia uma declaração aos juízes diante de uma plateia de internas insandecidas - é tratada com respeito, mesmo quando torna-se o pior dos pesadelos, com lobotomias e estupros no menu.

"Frances" é um filme irregular. Não tem um diretor brilhante que ouse na narrativa e até mesmo suas invenções no roteiro (ainda que o tornem mais chocante) acabam minando sua credibilidade. Mas tem em Jessica Lange um pilar forte o suficiente para torná-lo obrigatório. Não apenas é o retrato cruel de como a sociedade (e a indústria, seja ela qual for) pode exterminar a alma de uma pessoa de espírito livre e inteligente. Também é uma chocante mostra dos horrores do sistema psiquiátrico americano de sua época (anos 40), da maneira cruel como Hollywood se livrava de quem não mais lhe servia e até das sujeiras que escondem nos bastidores do teatro. Para quem gosta do assunto, é um prato e tanto.

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