domingo, 14 de setembro de 2014

A MORTE E A DONZELA

A MORTE E A DONZELA (Death and the maiden, 1994, Fine Line Pictures, 103min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Alfredo Yglesias, Ariel Dorfman, peça teatral homônima de Ariel Dorfman. Fotografia: Tonino Delli Colli. Montagem: Herve de Luze. Música: Wojciech Kilar. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Pierre Guffroy. Produção executiva: Jane Barclay, Sharon Harel. Produção: Josh Kramer, Thom Mount. Elenco: Sigourney Weaver, Ben Kingsley, Stuart Wilson. Estreia: 23/12/94

Em nenhum momento da narrativa de "A morte e a donzela" é citado o nome do país onde acontece a história, mas sendo Ariel Dorfman - autor da peça teatral que lhe deu origem e que co-assina o roteiro - chileno, não é difícil imaginar que a trama de vingança e traumas de violência tecida por ele tem raízes políticas bem profundas na ditadura militar de Augusto Pinochet, que fustigou o país entre 1973 e 1990. Tampouco é difícil entender os motivos que levaram o diretor Roman Polanski a assinar a adaptação da peça de Dorfman, encenada pela primeira vez em 1992 na Broadway, com Glenn Close, Richard Dreyfuss e Gene Hackman: assim como alguns de seus trabalhos mais famosos, como "O bebê de Rosemary" e "Repulsa ao sexo", "A morte e a donzela" utiliza-se do fato de se passar quase totalmente em um único cenário para transmitir a sensação sufocante de claustrofobia física e psicológica. Contando com uma atuação potente de Sigourney Weaver no papel principal, o cineasta polonês constrói uma obra minimalista, calcada em emoções sufocadas e feridas não-cicatrizadas que é absolutamente coerente com sua filmografia.

Quem está acostumado a ver Weaver como a destemida Tenente Ripley da cinessérie "Alien" - que ainda era uma trilogia na ocasião do lançamento do filme de Polanski - provavelmente irá estranhar sua Paulina Escobar, uma ativista política traumatizada pela truculência da ditadura de seu país e que ainda não conseguiu superar a violência a que foi submetida quando estava presa. Frágil e em constante estado de tensão, ela mora em uma casa afastada da cidade, ao lado do marido, Gerardo (Stuart Wilson), um advogado dedicado à causa dos direitos humanos que está em vias de alcançar um avançado posto no governo. O passado que Paulina quer deixar para trás, porém, invade sua vida novamente durante uma noite de tempestade, quando seu marido traz pra casa um vizinho, Dr. Roberto Miranda (Ben Kingsley), cujo carro quebrou no caminho para a propriedade. Para Gerardo, o médico é apenas um vizinho, mas Paulina o reconhece, através da voz, como o homem que a torturou e violentou durante seu período na prisão (quando era mantida vendada). Disposta a arrancar dele a confissão por tal crime, Paulina o faz de refém e, ao som de "A morte e a donzela", de Schubert - trilha sonora de suas torturas - parte para a agressão física e verbal, pouco ligando para os protestos do marido, que, para sua surpresa, assume a defesa do possível torturador.


Assim como fez posteriormente em seus filmes "O deus da carnificina" e "A pele de Vênus", Roman Polanski não se intimida com a origem teatral de seu roteiro, concentrando-se totalmente nas emoções de seus personagens e atores. Em vez de tentar agilizar a trama com artifícios que certamente esvaziariam o tom dramático da trama, Polanski foca sua câmera nos olhos ora assustados ora raivosos de Sigourney Weaver, na tensão crescente de sua relação com aquele que ela considera seu maior inimigo e nas diversas nuances de seu relacionamento com o marido, que transita nervosamente entre o dever de manter-se neutro como manda a lei e a lealdade com a mulher que ama. Os inúmeros conflitos armados por Ariel Dorfman encontram eco em uma edição segura, que jamais derrapa para o melodrama e nas atuações fortes mas discretas do elenco. Apesar das raízes teatrais, nenhum dos três atores cai na armadilha do overacting, oferecendo performances sempre no tom exato - mérito da direção segura e sem floreios, que não faz concessões nem mesmo em seu final, ambíguo na medida certa.

Quando passou nos cinemas, na metade da década de 90, "A morte e a donzela" foi praticamente ignorado. Injustiça com o trabalho primoroso de Sigourney Weaver - mais uma vez provando que é uma grande atriz escondida atrás de uma personagem de ação marcante - e com uma das direções mais inspiradas de Roman Polanski, que menos de uma década depois ganharia o Oscar por seu mergulho no passado em "O pianista". É um filme que merece ser descoberto, principalmente por tocar em assuntos delicados sem utilizar-se de qualquer tipo de panfletarismo.

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