terça-feira, 30 de setembro de 2014

MEU PASSADO ME CONDENA

MEU PASSADO ME CONDENA (Victim, 1961, Allied Film Makers, 100min) Direção: Basil Dearden. Roteiro: Janet Green, John McCormick. Fotografia: Otto Heller. Montagem: John D. Guthridge. Música: Philip Green. Direção de arte: Alex Vetchinsky. Produção: Michael Relph. Elenco: Dick Bogarde, Sylvia Sims, Dennis Price, Anthony Nicholls, Peter Copley, Peter McEnery, John Barrie, John Cairney. Estreia: 08/61

O início é aflitivo. Um jovem rapaz inglês escapa desesperadamente da polícia e procura vários amigos na busca de ajuda para uma fuga iminente, sem, no entanto, conseguir com nenhum deles o necessário para uma viagem que lhe parece imprescindível. Demora um pouco até que o público finalmente consiga entender o que está se passando diante de seus olhos: Jack Barrett (Peter McEnery) é um homossexual que roubou uma considerável quantia da empresa onde trabalha para pagar uma chantagem. Explica-se: no início da década de 60, homossexualidade ainda era um crime passível de prisão, na Inglaterra - com o mesmo peso criminal de assalto à mão armada, por exemplo. Quando Barrett se suicida na cadeia, os policias descobrem sua ligação com Melvin Farr (Dick Bogarde), um exemplar advogado de 40 anos, casado e em ascensão na carreira, almejando inclusive uma vaga na Câmara dos Lordes. Torturado pela culpa de não ter atendido as ligações de Barrett antes de sua trágica morte, Farr - que teve um envolvimento emocional com o rapaz e cuja foto era o material da chantagem - resolve descobrir, por conta própria e com a ajuda de um dos amigos do rapaz morto, a identidade do chantagista.

Em ritmo de suspense hitchcockiano - o que inclui até mesmo o cuidado com detalhes irônicos, como uma reprodução do Davi de Michelângelo na parede de um dos chantagistas - o cineasta Basil Dearden causou polêmica com seu "Meu passado me condena", lançado em uma época em que o tema ainda era considerado um grande tabu, especialmente na Inglaterra, onde se passa a história. O roteiro inteligente mescla a trama policial da busca pelo chantagista - um criminoso que se aproveitava do fato de homossexualidade ser igualmente um crime, ironicamente menos aceito pelo status quo - com insights brilhantes sobre a sociedade de então (e assustadoramente distante apenas 50 anos de hoje). Desfilam pela tela um festival de preconceitos - velados ou não - que desenha de forma indelével uma parcela da sociedade muito mais doente do que os considerados assim. Surge o barman que trata os gays de forma amigável apenas por motivos comerciais mas que não hesita em fazer piadas pelas costas. Aparece o investigador de polícia que não vê mal nenhum em "ser puritano" - até ouvir de seu superior que houve um tempo em que isso também era contra a lei. E há o cunhado amigável que vira as costas assim que descobre a verdade sobre o marido da irmã - além da esposa de um dos amigos de Barrett, que o manda "ficar junto com os seus".


O desfile de preconceitos de "Meu passado me condena" - felizmente expostos sob uma lupa com objetivos claros de mostrá-los como a verdadeira anomalia de uma sociedade - apenas sublinha uma trama forte e contundente o bastante para que pudesse tranquilamente manter-se de pé sem eles. Dearden usa as convenções do thriller para contar uma história sobre discriminação, mas nunca deixa que lhe falte ingredientes para manter a audiência interessada em seu desfecho. O roteiro espalha pistas pelo caminho, apresenta suspeitos, surpreende o espectador constantemente com novas revelações - aquele homem aparentemente tão certinho no final de contas também é um alvo das chantagens - e, mais interessante de tudo, não tem vergonha de apostar na força do amor verdadeiro através da esposa de Farr, Laura, interpretada com convição e emoção por Sylvia Syms nas cenas mais comoventes do filme.

Se tem o mérito de ser o primeiro filme inglês a falar abertamente sobre homossexualidade e a chaga do preconceito, "Meu passado me condena" tem também a seu favor o carinho com que trata seus personagens. Todas as vítimas do chantagista, por exemplo, são vistos com ternura, com verdadeira compaixão e não como aleijões dignos de pena (o que poderia acontecer em mãos menos seguras). É particularmente emocionante ver como homens dignos, trabalhadores e honestos - alguns até mesmo de idade avançada - podiam ter suas vidas destruídas simplesmente por "amar errado". E a dignidade transmitida pelo filme deve muito à presença de Dick Bogarde, que ficou com um papel que foi cogitado até para James Mason, e entrega uma atuação visceral em sua discrição: são os olhos que falam por Melvin Farr, e neles se percebe claramente um turbilhão de dor, dúvidas e medo.

Em um período negro repleto de fundamentalistas cristãos que pregam o ódio, o preconceito, a discriminação e a violência contra os homossexuais, "Meu passado me condena" é obrigatório. Nunca um filme da década de 60 pareceu tão atual.

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