terça-feira, 16 de setembro de 2014

O AUTO DA COMPADECIDA

O AUTO DA COMPADECIDA (O auto da Compadecida, 2000, Globo Filmes/Lereby Productions, 104min) Direção: Guel Arraes. Roteiro: Guel Arraes, Adriana Falcão, João Falcão, peça teatral de Ariano Suassuna. Fotografia: Félix Monti. Montagem: Ubiraci Motta, Paulo Henrique Farias. Música: Sá Grama. Figurino: Cao Albuquerque. Direção de arte: Lia Renha. Produção executiva: Eduardo Figueira. Produção: Guel Arraes. Elenco: Matheus Nachtergaele, Selton Mello, Fernanda Montenegro, Virginia Cavendish, Luís Mello, Paulo Goulart, Lima Duarte, Rogério Cardoso, Marco Nanini, Denise Fraga, Diogo Vilela, Bruno Garcia, Enrique Diaz, Maurício Gonçalves. Estreia: 10/9/00

Ousadia e criatividade foram os dois adjetivos mais comumente ligados à figura do diretor Guel Arraes quando ele começou a mostrar sua personalidade artística na TV Globo, assinando desde telenovelas - como a primeira versão de "Guerra dos sexos", ao lado de Jorge Fernando - até séries que brincavam com a linguagem televisiva e tinham a cara de seu tempo - exemplo da saudosa "Armação ilimitada". Tão logo seu nome tornou-se uma marca reconhecida pelo público que buscava qualidade mesmo na limitada seara da TV aberta (notadamente menos afeita a experimentações estilísticas), era questão de tempo até que o cinema o chamasse com seu canto de sereia. A estreia na tela grande, então, aconteceu com um pé em cada barco: produzido pela Globo Filmes - que depois o exibiria expandido em forma de minissérie - o primeiro filme de Arraes, "O auto da Compadecida" tinha um brilhante elenco de nomes conhecidos pelo grande público, um aparato técnico caprichado e a certeza de sucesso em um meio ou outro. A boa notícia? Ao contrário de muitos outros nomes que saíram da televisão pro cinema, Guel mostrou-se plenamente ciente das diferenças entre as duas linguagens e apresentou à audiência um filme de primeiro nível, capaz de orgulhar e deixar qualquer detrator do cinema nacional sorrindo de orelha a orelha.

Sem abrir mão de suas marcas registradas - sua linguagem televisiva já utilizava frequentemente elementos cinematográficos, como deixa claro a série "A comédia da vida privada" - Guel Arraes não fugiu de mostrar o Brasil em seu filme de estreia. Utilizando-se do texto sensacional de Ariano Suassuna para seu "Auto da Compadecida" (montado pela primeira vez em 1956 e já filmado em 1969 com Regina Duarte no papel de Nossa Senhora), o diretor mesclou a trama que unia dois companheiros do Nordeste brasileiro e suas desventuras para sobreviver ainda que às custas de mentiras e golpes com situações de outras obras de Suassuna - o que seria pretexto para encontrar papel para sua mulher, a atriz Virginia Cavendish, porém, acabou mostrando-se providencial para dar um tom romântico inexistente no texto original. Com um ritmo impecável, recheado de boas ideias visuais e piadas no tom exato entre ingenuidade e malícia, o roteiro - coescrito pelo cineasta e pelo casal Adriana e João Falcão - é um achado, coerente de tal maneira a funcionar quando se assiste tanto à versão em formato de minissérie quanto em seus 104 minutos que chegaram aos cinemas - e, para surpresa de muitos, levaram multidões às salas de cinema.


Os protagonistas de "O auto da Compadecida" são João Grilo e Chicó (em atuações inesquecíveis de Matheus Nachtergaele e Selton Mello), dois pobres coitados que tentam ganhar a vida no sertão nordestino. Sobrevivendo de golpe em golpe, os dois se utilizam da enorme criatividade de João Grilo e da covardia de Chicó para armar situações absurdas, como o funeral de um cachorro - que envolve até mesmo o ganancioso clero da região. Entre as tentativas de Chicó de conquistar o amor da doce Rosinha (Virginia Cavendish) e a cilada em que ambos se metem quando se envolvem com o perigoso cangaceiro Severino de Aracaju (Marco Nanini), eles acabam sendo assassinados. No purgatório, são julgados por todos os seus golpes - assim como várias pessoas que cruzaram seu caminho - e, entre Jesus Cristo (Maurício Gonçalves) e o Diabo (Luís Mello), recorrem à bondade de Nossa Senhora (Fernanda Montenegro) para merecerem uma chance de redenção.

Equilibrando-se entre o humor matreiro de Suassuna - autor que retratou com poesia e malandragem sua região em sua obra - e um carinho visível por seus personagens, Guel Arraes constroi uma primeira obra cinematográfica impecável. O roteiro é primoroso, a direção é certeira e o elenco dispensa comentários. Fernanda Montenegro enaltece a tela sempre que aparece, com sua presença forte e carismática. Diogo Vilela e Denise Fraga ameaçam roubar o filme a cada momento. Marco Nanini é, sem dúvida, um dos grandes atores brasileiros e cria um Severino de Aracaju esplêndido - assim como Enrique Diaz faz com seu capanga de confiança. Mas, mesmo com um elenco de apoio nunca aquém do genial, "O auto da Compadecida" jamais teria a mesma força e o mesmo resultado sem Matheus Nachtergaele e Selton Mello: com uma química fantástica e atuações irretocáveis, eles fazem do filme uma produção memorável, engraçado e comovente na medida certa.

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