sábado, 27 de setembro de 2014

AS DIABÓLICAS

AS DIABÓLICAS (Les Diabolique, 1955, Filmsonor/Vera Films, 114min) Direção: Henri-Georges Clouzot. Roteiro: Henri-Georges Clouzot, Jérôme Géronimi, colaboração de René Masson, Frédéric Grendel, romance "Celle qui n'etait plus", de Pierre Boileau e Thomas Narcejac. Fotografia: Armand Thirard. Montagem: Madeleine Gug. Música: Georges Van Parys. Figurino: Carven. Direção de arte: León Barsacq. Produção: Henri-Georges Clouzot. Elenco: Simone Signoret, Vera Clouzot, Paul Meurisse, Charles Vanel, Jean Brochard. Estreia: 29/01/55

Quando "Diabolique" foi lançado, em 1996, muitos frequentadores eventuais de cinema ficaram chocados com a violência das críticas em relação ao filme, estrelado por uma Sharon Stone em curva ascendente e a estrela francesa Isabelle Adjani. O que esses espectadores talvez não soubessem é que todas as críticas, por mais agressivas que fossem, eram procedentes. Perto do filme que lhe deu origem, dirigido quatro décadas antes pelo Hitchcock francês, Henri-Georges Clouzot, o remake assinado por Jeremiah Chechik (que depois disso nunca mais dirigiu nada digno de nota no cinema, a não ser que se conte o equívoco chamado "Os vingadores", com Ralph Fiennes e Uma Thurman pagando mico) é apenas um risível pastiche de suspense que dilui as brilhantes sequências do original sem o mesmo cuidado e elaboração que ele apresentava - a um público que ainda não estava anestesiado com a dieta de violência gratuita e reviravoltas desnecessárias que tomou conta do gênero a partir dos anos 70. A obra original, "As diabólicas", sucesso internacional em 1955, tornou-se referência obrigatória, desde então, a todos os filmes de suspense que se prezavam, a ponto de ter cenas inteiras "homenageadas" por diversos cineastas de gerações posteriores.

Baseado em um romance da dupla de escritores Pierre Boileau e Thomas Narcejac que também era cobiçado por Alfred Hitchcock em pessoa, "As diabólicas" tem como protagonistas duas mulheres que, a princípio, deveriam se odiar, mas que preferem juntar forças para eliminar o homem que as maltrata. Christina Delassalle (Vera Clouzot, esposa do diretor e brasileira de nascimento) é a esposa sofrida e desprezada de Michel (Paul Meurisse), o diretor de uma decadente escola para meninos, e Nicole Horner (Simone Signoret, uma das grandes atrizes francesas de sua época) é a professora do local que é também amante do brutal e arrogante diretor (que, a despeito da escola ser de sua mulher, não hesita em humilhá-la diante do corpo docente). Cansadas de tantos abusos, as duas bolam um plano infalível para livrarem-se dele sem despertar suspeitas, o que inclui uma viagem a uma cidade do interior, remédios para dormir e a asquerosa piscina suja e pantanosa da escola. Quando tudo parece estar correndo bem, no entanto, as coisas começam a fugir do controle e surge a dúvida: será que elas realmente conseguirão enganar a polícia, os colegas e os alunos - em especial um deles, que insiste em ver um fantasma nos corredores do local?


O clima de suspense constante de "As diabólicas" é um de seus maiores trunfos: cuidando de cada detalhe, Clouzot constrói uma atmosfera opressiva e tensa, na qual tudo pode vir a acontecer. Sem apelar para sustos fáceis ou seguir caminhos previsíveis - lembrando que em 1955 o gênero ainda estava engatinhando - o roteiro não se apressa em contar sua história, estabelecendo com o ritmo certo todos os elementos que serão importantes para seu desfecho. Além disso, o cineasta arranca de seus atores interpretações antológicas. Paul Meurisse cria um Michel Delassalle absolutamente desprezível, incapaz de um gesto sequer de carinho e que parece buscar, em suas atitudes, um final violento e - por que não? - justo. Vera Clouzot constrói uma Christina angustiada, indecisa e quase covarde, que acaba percebendo na hora certa que seu destino depende unicamente de si mesma. E Simone Signoret quase rouba a cena com sua Nicole Horner, uma professora decidida, amarga e quase cínica, responsável por engendrar a trama que levará a todos a um pesadelo particular.

Repleto de sequências certeiras e de enquadramentos que favorecem o tom sombrio e sufocante da história, Henri-Georges Clouzot também não se furta a surpreender a audiência com uma reviravolta final que deixou todo mundo boquiaberto na ocasião do lançamento - a ponto de, no final da projeção, haver um pedido encarecido da produção para que o final da trama não fosse revelado, coisa que também Hitchcock fez com seu "Psicose", cinco anos depois. Aliás, por falar em Hitchcock: sabendo que o mestre inglês do suspense lamentou ter perdido os direitos do livro que deu origem a "As diabólicas", seus autores escreveram outra história especialmente para ele, que a transformou em uma obra-prima chamada "Um corpo que cai". Sorte de Hitch, que realizou um de seus melhores filmes, de Clouzot, que escreveu seu nome na história do cinema de suspense francês, e do público, que pode se deliciar com duas tramas inventivas, surpreendentes e inesquecíveis. Assista e veja por que o filme com Sharon Stone foi tão massacrado!

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