domingo, 23 de novembro de 2014

A SÉTIMA PROFECIA

A SÉTIMA PROFECIA (The seventh sign, 1988, TriStarPictures, 97min) Direção: Carl Schulz. Roteiro: Clifford Green, Ellen Green. Fotografia: Juan Ruiz Anchía. Montagem: Caroline Biggerstaff. Música: Jack Nitzsche. Figurino: Durinda Wood. Direção de arte/cenários: Stephen Marsh/Crickett Rowland. Produção executiva: Paul R. Gurian. Produção: Robert W. Cort, Ted Field. Elenco: Demi Moore, Michael Bihen, Jurgen Prochnow, Peter Friedmn, Manny Jacobs. Estreia: 01/4/88

O vasto público fã de filmes de terror sabe que um bom exemplar do gênero dispensa assassinos mascarados ou violência a granel quando a trama tem uma base forte o bastante para sustentar duas horas de tensão e suspense. É por isso que filmes como "O bebê de Rosemary" (68), "O exorcista" (73) e "A profecia" (76), por exemplo, se mantém até hoje como ícones de um cinema em que o medo surge mais do imaginado e do plausível - ao menos em termos religiosos, para quem acredita na Bíblia - do que do excesso de sangue. Em 1988, já imaginando a correria que seria quando o final do milênio se aproximasse ainda mais e os estúdios entrassem em desespero atrás de uma audiência disposta a ouvir mais uma história sobre o Apocalipse, os anjos divinos e as tentativas de algum herói schwarzzenegeriano de salvar a humanidade, a TriStar lançou "A sétima profecia", um bem-intencionado drama de suspense que misturava os tais sinais de Deus enviados à Terra como forma de anunciação da hecatombe com uma alegoria mal disfarçada sobre a salvação dos inocentes. Dirigido pelo pouco experiente Carl Schultz - húngaro cujo currículo inclui várias passagens por séries de TV - e estrelado pela ainda iniciante Demi Moore, o filme conquista pelo clima imposto desde as primeiras cenas, mas tropeça em sua irregularidade.

Moore - belíssima, mas ainda longe de ser a estrela que se tornaria dois anos depois, com sua presença no lacrimoso "Ghost, do outro lado da vida" (90) - interpreta Abby Quinn, uma restauradora de obras de arte que está nos últimos meses de uma gravidez complicada e que mantém ainda na memória a traumática perda de uma gestação anterior. Casada com o advogado Russell (Michael Biehn), que está atolado de trabalho tentando salvar da pena de morte um jovem excepcional que matou os pais - segundo ele mesmo, por ordens de Deus - Abby se dedica a decorar o quarto de seu bebê e esperar ansiosamente pelo parto, apesar dos temores de um novo aborto. Sua rotina é alterada com a chegada de David Bannon (Jurgen Prochnow), o misterioso locatário de um quarto nos fundos de sua casa, cujos estudos a respeito da Bíblia e alguns escritos em uma língua desconhecida incutem nela uma apreensão inexplicável. Contando com a ajuda do jovem Avi (Manny Jacobs) - que conhece o idioma graças a aulas com um judeu ortodoxo que mora em frente à sua casa - Abby descobre que os sinais previstos no Apocalipse e que apontam para o fim do mundo - tais como desastres tidos como naturais - estão acontecendo de forma sistemática e que seu filho ainda não-nascido tem um papel crucial na história. Cabe a ela, então, encontrar uma maneira de impedir tal desastre.


A maior qualidade de "A sétima profecia" é o fato de basear seu roteiro no mais controverso livro da Bíblia, o Apocalipse, sem tornar-se um enfadonho exercício de discussão teológica. Até mesmo quando as cartas são finalmente postas à mesa - e a relação de vidas passadas entre Abby, Bannon e o enigmático emissário do Vaticano, o Padre Lucci (Peter Friedman), é finalmente revelada, assim como suas missões na Terra - o roteiro consegue desviar-se da previsibilidade, mantendo o interesse da plateia viva a despeito da burocracia excessiva da direção de Schulz e da apática atuação de Demi Moore. Para isso muito contribui a interpretação do enigmático Jurgen Prochnow e a trilha sonora discreta mas eficiente de Jack Nietzsche, que dá o tom exato a cada cena mesmo quando a direção não consegue deixar de escorregar para os clichês mais batidos do gênero. O final - com a revelação de que o sacrifício de um mártir pode impedir o encerramento do ciclo de profecias - até tenta dar um novo gás à trama, mas é quase tarde demais.

Mesmo sem maiores novidades e assumindo quase um tom de filme televisivo, "A sétima profecia" funciona junto a seu público-alvo por jamais se deixar ceder à tentação de fazer graça de si mesmo. É um filme sério, tratado como tal e disposto a ir até o final em suas intenções, mesmo que isso represente escapar do onipresente final feliz (ou pior ainda, de um final que aponte para uma continuação). Sua seriedade é um de seus pontos altos, contrariando uma regra que viria em seguida dentro do gênero, que misturava tramas de horror com momentos de humor. Carl Schultz pode não ser criativo ou ousado - muito pelo contrário - mas consegue manter o tom pessimista de seu trabalho até seus momentos finais. Já é uma grande coisa!

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