quinta-feira, 6 de novembro de 2014

DEPOIS DE HORAS

DEPOIS DE HORAS (After hours, 1985, Geffen Company, 97min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Joseph Minion. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Howard Shore. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Jeffrey Townsend/Leslie Pope. Produção: Robert F. Colesberry, Griffin Dunne, Amy Robinson. Elenco: Griffin Dunne, Rosanna Arquette, Linda Fiorentino, John Heard, Catherine O'Hara, Teri Garr, Verna Bloom, Bronson Pichot, Will Patton. Elenco: 13/8/85

É quase impensável que um filme como "Depois de horas", uma das comédias de humor negro mais geniais da história do cinema americano da década de 80 - e quiçá de muito tempo antes e depois - seja considerado um "Scorsese menor". Inspirado nos filmes de Hitchcock e levado em tom de paródia, o filme produzido e estrelado pelo ator Griffin Dunne (que depois sentaria na cadeira de diretor em algumas ocasiões) é, nas palavras de seu cineasta, uma descida ao inferno. Mas tal descida é realizada com tal senso de humor bizarro e surrealismo que é difícil não embarcar na jornada de seu protagonista, arrastado sem maiores avisos para uma terra hostil e onde tudo pode acontecer - o SoHo nova-iorquino da época dos yuppies e artistas modernos. É lá que, em uma noite das mais longas já retratadas pelo cinema, o pacato Paul Hackett, em busca de momentos de amor (ou sexo ou qualquer coisa que o valha), encontra um país não das maravilhas, mas do sadomasoquismo, da solidão e de mal-entendidos que podem significar a morte e a violência.

Primeiro roteiro de Joseph Minion - que o escreveu como tese final de seu curso na Faculdade de Columbia - "Depois de horas" chegou às mãos de Scorsese depois que suas tentativas de realizar "A última tentação de Cristo" chegaram a um impasse e o liberaram para dirigir um projeto menor. Substituindo Tim Burton - o diretor escolhido como a segunda opção - o cineasta, que vinha de filmes considerados mais densos, como "Taxi driver" (76) e "Touro indomável" (80) e enfrentava o fracasso de seu mais recente trabalho, a incompreendida comédia dramática "O rei da comédia" (83), viu a oportunidade como a chance de ilustrar a sua ideia de que somos todos peões com cujas vidas os deuses - se eles existem - pouco se importam. Surgia, assim, uma das comédias mais assustadoramente angustiantes de sua carreira - e mais um de seus filmes injustamente relegados a segundo plano em uma brilhante carreira.


Griffin Dunne - visto anteriormente em "Um lobisomem americano em Londres" (81), de Joe Landis - está especialmente perfeito como o certinho e previsível Paul Hackett, o revisor de uma editora que leva uma entediante vida profissional e pessoal que vê seu mundo virar do avesso depois de um inocente flerte com a simpática Marcy (Patricia Arquette) em uma lanchonete. Lendo "Trópico de Câncer", de Henry Miller, ele inicia com ela uma conversa que acaba em uma troca de números de telefone e com sua decisão de visitá-la na casa de uma amiga que mora no SoHo, a artista plástica Kiki Bridges (Linda Fiorentino), que trabalha com papel-marchê e tem amigos no submundo sadomasoquista do bairro. Depois de saber um pouco mais a respeito da atribulada vida de Marcy, Paul - que perdeu sua única nota de vinte dólares no caminho para o encontro - acaba impedido de voltar pra casa e conhece uma galeria inusitada de personagens que, cada um à sua maneira particular e bizarra, fazem parte do mesmo círculo sinistro de relações. A noite - interminável, chuvosa e feérica - não demora a se transformar em um pesadelo kafkiano quando ele passa a ser perseguido, confundido com um ladrão que vem atacando a vizinhança.

Comédia que dispensa gargalhadas, "Depois de horas" mostra um senso de humor negro com que a obra de Scorsese até então havia apenas flertado discretamente. A câmera frequentemente nervosa do diretor - com a ajuda de seus habituais colaboradores Michael Ballhaus na fotografia e Thelma Schoonmaker na edição - acompanha os angustiados passos de seu protagonista como uma testemunha imparcial, brilhando apenas em pequenos detalhes, como o suspense que cria em situações corriqueiras, como o mero acender de uma lâmpada e as tentativas desesperadas de convencer o bilheteiro do metrô a deixar-lhe embarcar de volta para o aconchego de seu apartamento yuppie. Scorsese deita e rola com todas os entraves no caminho de Paul Hackett, envolvendo o espectador em um labirinto aparentemente sem saída que culmina com um desfecho absurdamente coerente com seu desenvolvimento atípico. É um filme irônico, repleto de sacadas inteligentes, que mistura Hitchcock, Henry Miller, Kafka e o submundo da arte moderna oitentista sem soar arrogante ou condescendente. É uma pequena obra-prima, e como tal deveria ser reconhecida, mesmo que tardiamente.

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