domingo, 30 de novembro de 2014

UM TOQUE DE INFIDELIDADE

UM TOQUE DE INFIDELIDADE (Cousins, 1989, Paramount Pictures, 109min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Stephen Metcalfe, roteiro original do filme "Cousin, cousine", de Jean-Charles Tacchella. Fotografia: Ralf Bode. Montagem: Robert Brown. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Mark S. Freeborn/Linda Vipond. Produção executiva: George Goodman. Produção: William Allyn. Elenco: Ted Danson, Isabella Rossellini, Sean Young, William Petersen, Norma Aleandro, Lloyd Bridges, Keith Coogan. Estreia: 10/02/89

Em 1975, uma comédia francesa sobre adultério e romance entre dois primos circunstanciais rompeu a tradicional barreira do idioma e, sucesso de bilheteria nos EUA, chegou a concorrer a três estatuetas do Oscar: filme estrangeiro, atriz e roteiro original. Mesmo tendo perdido em todas as categorias que disputava, "Primo, prima", dirigido por Jean-Charles Tacchella acabou agradando em cheio aos estúdios americanos, sempre ávidos por histórias que podem ser recontadas ao estilo hollywoodiano - leia-se de forma mais comercial e superficial. Sendo assim, até que demorou que sua refilmagem chegasse aos cinemas, rebatizada no Brasil como "Um toque de infidelidade" - o título original era mais próximo do original francês, mas até que dessa vez os distribuidores nacionais não erraram tão feio assim. Dirigida por Joel Schumacher - um cineasta por vezes competente, por vezes desastroso e muito de vez em quando quase brilhante - a comédia romântica estrelada pela bela Isabella Rossellini e pelo feioso Ted Danson (em alta pelo sucesso de "Três solteirões e um bebê" (87), também oriunda de um filme francês) é simpática e leve, mas incorre no erro mais previsível de todos: não acrescenta nada ao gênero e não fica registrada na mente do espectador.

Não deixa de ser irônico que Rossellini - ela mesma fruto de um dos mais escandalosos casos de adultérios de Hollywood, entre a atriz Ingrid Bergman e o diretor Roberto Rossellini - seja a estrela de "Um toque de infidelidade", apesar de sua escolha ser um dos acertos da produção. Bela e etérea, Rossellini desfila sua classe e elegância naturais pela tela mesmo quando sua personagem, a dedicada e paciente Maria, prescinde dessas qualidades: trabalhando em um escritório de advocacia, ela é casada com o galinha Tom (William Petersen, que anos depois seria o protagonista da telessérie "CSI") e faz vista grossa às inúmeras puladas de cerca do marido, principalmente para manter a harmonia do lar e a segurança da filha pequena. Essa harmonia começa a mostrar sinais de rachadura, porém, depois da festa de casamento de Edie (Norma Aleandro), sua mãe, com Phil (George Coe), tio do charmoso professor de dança de salão Larry (Ted Danson): durante a comemoração, Tom inicia um romance pouco discreto com Tish (Sean Young), a segunda mulher peruíssima de Larry. Sem vocação para barracos, Larry e Maria iniciam uma amizade calcada na compreensão mútua, mas, como não poderia deixar de acontecer, se apaixonam um pelo outro.


"Um toque de infidelidade" trai sua origem francesa no formato episódico com que narra sua estória, situando boa parte de sua trama em cerimônias de casamento e até mesmo em um enterro, em uma estrutura que anos depois faria a glória do bem-sucedido "Quatro casamentos e um funeral" (94). A história do amor enrustido entre Larry e Maria - singelo e verdadeiro - em contraponto à relação explosiva e fugaz de Tom e Tish é oferecido ao público em cenas rápidas e leves, que tira proveito das embaraçosas anedotas familiares e sociais que sempre ocorrem em reuniões entre pais, filhos e afins. Para isso, aproveita-se da ótima química entre Lloyd Bridges e o adolescente Keith Coogan como um avô apaixonado e seu neto com tendências socialistas - que chega ao extremo de editar um vídeo de casamento com imagens da fome no continente africano apenas para chocar os parentes. São coadjuvantes como eles - e uma tia idosa e preconceituosa - que dão o tempero cômico à história que, não fosse por isso, choveria no molhado e morreria na praia das boas intenções.

Porém, mesmo estando longe de ser um filme marcante, "Um toque de infidelidade" se beneficia da simpatia de seu elenco, do ritmo agradável imposto pelo roteiro e pela beleza luminosa de Isabella Rossellini, que deixa um pouco para trás a torturada personagem de "Veludo azul" (86) para entregar uma Maria estonteante em sua simplicidade e radiante em sua felicidade de sentir-se amada e respeitada pela primeira vez. Principalmente em comparação com a performance propositalmente over de Sean Young, a filha de Ingrid Bergman brilha com sua delicadeza e se torna a principal razão de ser do filme de Schumacher, uma descompromissada sessão para os fãs do gênero.

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