sábado, 29 de novembro de 2014

MEU PÉ ESQUERDO

MEU PÉ ESQUERDO (My left foot, 1989, Ferndale Films, 103min) Direção: Jim Sheridan. Roteiro: Jim Sheridan, Shanne Connaughton, livro de Christy Brown. Fotografia: Jack Conroy. Montagem: J. Patrick Duffner. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Joan Bergin. Direção de arte/cenários: Austen Spriggs/Shirley Lynch. Produção executiva: Paul Heller, Steve Morrison. Produção: Noel Pearson. Elenco: Daniel Day Lewis, Brenda Fricker, Fiona Shaw, Ray McAnally. Estreia: 24/02/89

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jim Sheridan), Ator (Daniel Day Lewis), Atriz Coadjuvante (Brenda Fricker), Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Daniel Day Lewis), Atriz Coadjuvante (Brenda Fricker)

Os fã-clubes de Tom Cruise estavam em polvorosa na noite de 26 de março de 1990: finalmente seu ídolo estava em vias de pôr as mãos no Oscar de melhor ator, por seu corajoso e elogiado desempenho como um jovem veterano da Guerra do Vietnã que se torna ativista contra o conflito em "Nascido em 4 de julho", dirigido por Oliver Stone. O que eles não ousavam supor nem mesmo em seus piores pesadelos, porém, acabou acontecendo, e tudo devido a um ator irlandês pouco conhecido no circuito dos filmes comerciais hollywoodianos: a estatueta foi parar no colo de Daniel Day Lewis, que, mesmo premiado pelas associações de críticos de Nova York e Los Angeles - além de sua Associação Nacional - ainda não era considerado uma ameaça séria por aqueles que tinham Cruise como ídolo. Premiado por seu irrepreensível trabalho em "Meu pé esquerdo", do também irlandês Jim Sheridan, Day Lewis imediatamente tornou-se um dos atores mais respeitados de sua geração, embarcando em uma sucessão de filmes importantes e extraordinários, como "Em nome do pai" (93), novamente com Sheridan, "A época da inocência" (93), de Martin Scorsese e a adaptação para as telas da peça teatral de Arthur Miller "As bruxas de Salem" (96), dirigida por Nicholas Hytner - isso apenas nos anos 90.

Contado em flashback a partir do livro escrito pelo protagonista, Christy Brown (interpretado na infância e adolescência pelo também ótimo Hugh O'Conor), o filme de Sheridan narra sua trajetória desde o nascimento no seio de uma numerosa e pobre família irlandesa dos anos 40 até a publicação de seu livro de memórias, em que conta de que forma conseguiu superar uma paralisia cerebral congênita que lhe permitia mexer apenas seu pé esquerdo. Controlando apenas esse único membro, Brown tornou-se artista plástico e superou todas as dificuldades impostas por sua situação e pela pobreza extrema de sua família - que, mesmo diante de sua doença nunca o tratou ou deixou que o tratassem como deficiente. É esse berço familiar, liderado pela forte e terna Mrs. Brown (Brenda Fricker em atuação também oscarizada) que surge como a luz de sua difícil caminhada, permeada também por desilusões amorosas devastadoras (na adolescência e na vida adulta, quando se apaixona pela médica vivida por Fiona Shaw). Day Lewis se entrega de corpo e alma à sua interpretação, de forma a ofuscar tudo à sua volta, mas mesmo assim deixa espaço para que a direção de Sheridan ilustre com perfeição o estilo de vida irlandês da época em que o filme se passa - sem, contudo, pesar a mão no sentimentalismo e no piegas.


E, se existe alguma diferença no modo com que "Meu pé esquerdo" se destaca das dezenas de produções que também tratam de histórias de superação - além da performance magnífica de Daniel Day Lewis - é a direção madura de Jim Sheridan. Mesmo tendo em mãos uma armadilha gigantesca, o cineasta consegue se desvencilhar dela com maestria, imprimindo até mesmo um inesperado senso de humor ao roteiro, que, mesmo assim, não abre mão de emocionar a plateia com momentos de pura delicadeza e sensibilidade, como a primeira vez em que Christy consegue se comunicar com a família, escrevendo a giz no chão da casa, para espanto de todos, ou quando tenta o suicídio depois de ser rejeitado pela mulher que ama. São cenas fortes, mas dirigidas com discrição, sem o apelo sensacionalista que um diretor mais propenso aos exageros de Hollywood fatalmente levaria consigo. Não foi à toa que Sheridan também conseguiu seu lugar entre os indicados ao Oscar, perdendo o prêmio para Oliver Stone, uma escolha bem mais de acordo com o histórico da Academia - ainda que não tenha sido exatamente uma injustiça, uma vez que "Nascido em 4 de julho" também é um filme de inúmeros méritos.

"Meu pé esquerdo", que concorreu ao Oscar de melhor filme do ano - e, assim como "Nascido em 4 de julho" e "Sociedade dos poetas mortos" perdeu para o inferior "Conduzindo Miss Daisy" - era, de certa forma, um estranho no ninho dentre os candidatos. Produzido fora dos auspícios hollywoodianos, sem um astro milionário em seu elenco e fugindo com categoria das desgastadas fórmulas dos dramalhões lacrimosos, é uma obra que conquista por sua simplicidade e pela verdade que transmite em cada centímetro de celulóide. Talvez tenha sido justamente essa despretensão à emoção fácil que tenha encantado os acadêmicos, tão acostumados a uma dieta pasteurizada de filmes parecidos entre si. O fato é que, se não fosse tão bom, ainda assim teria servido para apresentar devidamente Day Lewis ao grande público - depois de trabalhos bons mas pouco vistos, como "Minha adorável lavanderia" e "A insustentável leveza do ser". Em alguns anos, ele ainda seria oscarizado mais duas vezes, por trabalhos impressionantes em "Sangue negro" (07) e "Lincoln" (12). Quanto a seu rival na noite de ... de março, Tom Cruise? Entrou em um circuito de escolhas equivocadas e, de maior astro dos anos 90, transformou-se em piada e hoje tenta reconquistar seu público com policiais meia-boca e ficções científicas sem graça. O tempo mostrou que talento ainda é a melhor arma.

Um comentário:

Alan Raspante disse...

E eu ainda não vi.
E preciso muito!