quarta-feira, 26 de novembro de 2014

NAS MONTANHAS DOS GORILAS

NAS MONTANHAS DOS GORILAS (Gorillas in the mist, 1988, Universal Pictures/Warner Bros., 129min) Direção: Michael Apted. Roteiro: Anna Hamilton Phelan, estória de Anna Hamilton Phelan, Tab Murphy, artigo de Harold T.P. Hayes, história real de Dian Fossey. Fotografia: John Seale. Montagem: Stuart Baird. Música: Maurice Jarre. Figurino: Catherine Laterrier. Direção de arte/cenários: John Graysmark/Simon Wakefield. Produção executiva: Peter Guber, Jon Peters. Produção: Terence Clegg, Arnold Glimcher. Elenco: Sigourney Weaver, Bryan Brown, Julie Harris, John Omirah Miluwi, Iain Cuthbertson, Constantin Alexandrov. Estreia: 07/10/88

5 indicações ao Oscar: Atriz (Sigourney Weaver), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Montagem, Som
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Sigourney Weaver) 

A zoóloga Dian Fossey é conhecida pelos defensores dos direitos dos animais por ter sido a mais corajosa, dedicada e competente estudiosa dos gorilas das montanhas da África, onde travou contato próximo com os animais a ponto de dar-lhes nomes e conhecê-los profundamente. Também marcou seu nome como a maior defensora de tais animais, lutando indiscriminadamente contra sua extinção predatória e por seu final trágico e ainda envolto em mistério. E finalmente, é conhecida por ter dado a Sigourney Weaver um dos melhores papéis de sua carreira e que levou-a à corrida do Oscar de melhor atriz em 1989 - mesmo ano em que também foi indicada como coadjuvante por "Uma secretária de futuro". Dirigido por Michael Apted, "Nas montanhas dos gorilas" é um retrato elogioso e respeitoso tanto de Fossey quanto de seu louvável trabalho - além de ser um belíssimo filme, capaz de emocionar e chocar os espectadores, em especial aqueles que amam os animais.

A indicação de Weaver ao Oscar não foi acidental. Basta pôr os olhos em suas primeiras cenas junto aos gorilas (um trabalho espetacular de animação mecatrônica de Rick Baker misturado a alguns animais verdadeiros) para que se acredite piamente em seu amor por eles, em seu carinho infinito por uma raça tão perigosamente à beira da extinção. A atriz que ficou mundialmente conhecida como a corajosa Tenente Ripley da cinessérie "Aliens" exibe em seu trabalho um extenso leque de nuances, quase todas expressas unicamente em seu rosto - durante as pouco mais de duas horas de projeção, Fossey (na pele de Sigourney) passa pelo fascínio, pela raiva, pelo amor romântico, pelo desespero, pelo carinho e pela felicidade, levando consigo todo o espectador que, emocionado, se deixar levar em sua odisseia contra a violência e o predatorismo.


Fascinada pelos estudos feitos até então sobre os primatas africanos ameaçados de extinção e acreditando-se capaz de enriquecer o material a respeito e quem sabe até estabelecer algum tipo de contato com eles devido à sua experiência como fisioterapeuta, Fossey começa o filme chegando ao continente africano e tentando adaptar-se à nova casa. Não demora muito, porém, para que, com a ajuda do guia Sembagare (John Omirah Miluwi), ela chegue ao encontro de seu maior objetivo, um grupo de gorilas com uma dinâmica social particular e com formas de comunicação que, aos poucos, ela começa a desvendar. Dedicada e quase obsessiva, ela passa a ser bem-recebida na comunidade de tais animais, que a tratam com respeito e quase gentileza. Dando a eles nomes e percebendo suas características especiais, Fossey vai se tornando mais e mais chegada a seu trabalho, o que atrapalha inclusive o nascente e avassalador romance com o fotógrafo Bob Campbell (Bryan Brown), da National Geographic. No entanto, o que era apenas motivo de orgulho acaba se tornando uma guerra pessoal quando a antropóloga entra em conflito direto com caçadores e mercadores de animais, que matam os gorilas apenas para fazer cinzeiro de suas mãos ou bobagens afins. Disposta a fazer o que for preciso para enfrentá-los de igual para igual, ela acaba por colocar a própria vida em risco diante dos interesses financeiros e governamentais.

Inspirador como poucos filmes a respeito de animais - talvez por evitar sempre que possível o sentimentalismo barato e privilegiar a força quase imorredoura de sua protagonista - "Nas montanhas dos gorilas" é um libelo contra a violência à natureza sem o ranço panfletário que normalmente acompanha as produções do gênero. A fotografia de John Seale explora com competência a beleza da vastidão africana em contraponto à feiúra das convulsões sociais que agitavam o continente distante das montanhas, e a trilha sonora do veterano Maurice Jarre - também indicada a uma estatueta da Academia - pontua com discrição a história, ilustrando a trajetória de Fossey com a mesma delicadeza com que ela tratava os gorilas (seus filhos de coração, como fica evidente na sensacional e devastadora cena em que ela vê os corpos sem cabeças de vários deles, vítimas de caçadores). Mas, mesmo com todas as suas qualidades, é a interpretação sobre-humana de Sigourney Weaver que fica na mente do espectador quando os letreiros finais sobem na tela. Mesmo com candidatas fortíssimas ao Oscar de 1989 - Glenn Close em "Ligações perigosas", Meryl Streep em "Um grito no escuro" e a vencedora Jodie Foster em "Acusados" - a estatueta deveria ter ido parar na estante de Weaver, que comprova, de uma vez por todas, que é uma atriz capaz de muito mais do que simplesmente caçar alienígenas.

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