sexta-feira, 14 de novembro de 2014

ALGUÉM MUITO ESPECIAL

ALGUÉM MUITO ESPECIAL (Some kind of wonderful, 1987, Hughes Entertainment/Paramount Pictures, 95min) Direção: Howard Deutch. Roteiro: John Hughes. Fotografia: Jan Kiesser. Montagem: Bud Smith, Scott Smith. Música: John Musser. Figurino: Marilyn Vance-Straker. Direção de arte/cenários: Josan Russo/Linda Spheeris. Produção executiva: Michael Chinich, Ronald Colby. Produção: John Hughes. Elenco: Eric Stoltz, Mary Stuart Masterson, Lea Thompson, Craig Sheffer, John Ashton, Elias Koteas. Estreia: 27/02/87

Em 1986, o diretor-símbolo dos filmes adolescentes da década, John Hughes, lançou o badalado "A garota de rosa-shocking", onde voltava a oferecer a seu público-alvo o coquetel de dúvidas existenciais, triângulo amoroso e trilha sonora descolada que marcou sua carreira. Apesar do sucesso do filme, porém, Hughes não gostou do resultado final: ele preferia o desfecho original, diferente da versão que chegou às salas de cinema e que havia sido imposto pelo estúdio depois de exibições-teste. Frustrado com a situação, ele fez o que pessoas criativas fariam - remodelou um pouco sua história, disfarçou um pouco as situações, maquiou os personagens e praticamente refez o mesmo filme, modificando o sexo do protagonista... e logicamente terminando a trama a seu bel prazer, mesmo com a direção entregue a Howard Deutch (que já havia visitado o universo do roteirista em "Gatinhas e gatões"). Foi assim que surgiu "Alguém muito especial", mais um exemplar da longa série de filmes juvenis que fizeram a alegria da garotada romântica dos anos 80. O que é mais irônico na história, porém, é que, apesar de em tese ser uma espécie de revisita à "A garota de rosa-shocking", "Alguém muito especial" é superior a ele.

Para quem já assistiu a algum filme de John Hughes, a história não é nenhuma novidade, muito pelo contrário: Keith Nelson (Eric Stoltz) é um esforçado estudante secundarista que trabalha como mecânico em um posto de gasolina e vive pressionado pelo pai para escolher uma carreira e deixar de lado sua vida um tanto sacrificada. Keith sonha em se tornar artista plástico - o que não agrada muito sua família - e é apaixonado por Amanda Jones (Lea Thompson), que, apesar de morar nas redondezas, é uma das garotas mais populares da escola - além de namorar o cobiçado Hardy Jenns (Craig Sheffer). Sua paixão por Amanda o faz ignorar os sentimentos de sua melhor amiga, Watts (Mary Stuart Masterson), uma garota com jeito de rapaz, baterista e pouco afeita às frescuras que atribui ao sexo feminino. Quando Amanda, depois de uma briga com Hardy aceita um encontro com Keith, as coisas começam a mudar de lugar: o rapaz passa a ser visto com outros olhos pela casta social da escola - o que pode lhe afastar definitivamente de Watts.


O diferencial entre "Alguém muito especial" e todos os outros filmes com os quais divide o DNA está no elenco. Eric Stoltz é um bom ator (apesar de ter sido demitido de "De volta para o futuro" depois de algumas semanas de filmagens por não parecer adolescente) e Mary Stuart Masterson brilha na pele de Watts, uma personagem que guarda semelhanças cruciais com outra popular criação sua, a protagonista de "Tomates verdes fritos" (91). Se Lea Thompson não convence como a garota mais popular e disputada da escola por ser comum demais, ao menos não decepciona como atriz, oferecendo nuances variadas à uma personagem que poderia facilmente manter-se na caricatura rasa e unidimensional (nessa época ela já era conhecida como a mãe de Marty McFly no mesmo "De volta para o futuro" do qual Stoltz foi ejetado). E no elenco coadjuvante se destaca o ótimo Elias Koteas, que surge em cena como Duncan, um aluno-problema que acaba se tornando um dos melhores amigos de Keith - e que surpreende o público com uma inesperada dose de sensibilidade ao final da história.

Conhecido também como o filme que marcou o fim da relação profissional entre John Hughes e Molly Ringwald - que recusou o papel de Amanda e desagradou o cineasta com a decisão - "Alguém muito especial" conquista pela simplicidade do roteiro, pelo carisma dos atores e pela maneira precisa com que lida com as mesmas questões dos trabalhos anteriores do diretor sem ranços paternalistas. O maior mérito dos filmes de Hughes - e que fica bastante claro aqui - é tratar os adolescentes como eles realmente são, não julgando ou aprovando suas atitudes, simplesmente as testemunhando com uma câmera e apresentando sob um viés poético e romântico. Eles - os adolescentes de ontem, hoje e sempre - agradecem emocionados.

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