domingo, 31 de maio de 2015

O LENHADOR

O LENHADOR (The woodsman, 2004, Lee Daniels Productions/Dash Films, 87min) Direção: Nicole Kassel. Roteiro: Nicole Kassel, Steven Fechter, peça teatral de Steven Fechter. Fotografia: Xavier Pérez Grobet. Montagem: Lisa Fruchtman, Brian A. Kates. Música: Nathan Larson. Figurino: Frank Fleming. Direção de arte/cenários: Stephen Beatrice/Christine Wick. Produção executiva: Kevin Bacon, Damon Dash, Brook, Dawn Lenfest. Produção: Lee Daniels. Elenco: Kevin Bacon, Kyra Sedgwick, Benjamin Bratt, Michael Shannon, Mos Def, Eve. Estreia: 19/01/04 (Festival de Sundance)

Primeiro há que se louvar a coragem de um filme de ter como protagonista um pedófilo sem retratá-lo como um vilão desalmado e cruel e sim como uma pessoa dotada de sentimentos ao mesmo tempo em que luta contra sua natureza monstruosa. Depois, deve-se aplaudir a delicadeza que Kevin Bacon, um ator ainda não devidamente valorizado pela indústria hollywoodiana, empresta a esse mesmo protagonista, jamais carregando nas tintas melodramáticas de um personagem cercado de armadilhas e convites ao overacting. Só então pode-se degustar "O lenhador" como o filme que ele realmente é: um drama denso e intrigante que, ao invés de mergulhar o espectador em um espetáculo de violência e tensão, o convida a testemunhar silenciosamente o pesadelo de um homem assombrado por seus fantasmas pessoais enquanto tenta retornar ao convívio da sociedade - e livrá-la de outra ameaça similar a ele.

Baseado em uma peça teatral de Steven Fechter - também um dos autores da adaptação para as telas - "O lenhador" tem entre seus produtores o futuro cineasta Lee Daniels, o que fica claro em sua abordagem seca e direta do tema, sem espaços para pieguice ou lágrimas desnecessárias. Assim como Daniels faria em seu maior sucesso, "Preciosa" (09), a diretora Nicole Kassel prefere uma abordagem menos sensacionalista de sua trama, buscando não a compaixão da plateia, e sim sua percepção em relação à vasta gama de sentimentos e circunstâncias que cercam o protagonista, Walter, que, depois de 12 anos de prisão, tem sua liberdade retomada junto com a carga de ter sido condenado por abuso sexual infantil. Vigiado de perto pelo rígido Sargento Lucas (Mos Def), Walter se vê morando diante de uma escola de ensino fundamental - o que testa diariamente sua decisão em manter-se na linha - e arruma emprego em uma madeireira, onde seu silêncio acaba por despertar a curiosidade dos colegas, em especial da pouco simpática Mary-Kay (Eve), que não demora em descobrir seu segredo e espalhar pelo local. Antes que isso aconteça, no entanto, ele inicia um hesitante romance com uma colega, Vicki (Kyra Sedgwick, esposa de Bacon na vida real) e passa desconfiar das intenções de um misterioso motorista que diariamente estaciona seu carro diante da escola em frente a seu apartamento.


Utilizando-se da história da Chapeuzinho Vermelho como metáfora para uma de suas subtramas - que envolve uma menina com quem Walter inicia uma temerária relação - e empurrando seu roteiro para longe do previsível, o filme de Kassel explora, em pouco menos de uma hora e meia, uma série de questionamentos relevantes e instigantes. Ao inserir Walter - com toda a sua bagagem de culpa - em uma série de ambientes que testam sua força de vontade de ir contra seus instintos mais básicos, a trama analisa o preconceito, o conceito de culpa e crime, questiona as possibilidades de redenção de um homem eternamente marcado por seus delitos e, mais estimulante ainda, o contrapõe a um outro possível criminoso, o que pode torná-lo um heroi, a despeito de seu passado. Sua história de amor com Vicki, também dona de um background depressivo e seus próprios demônios, não é daquelas sentimentais que Hollywood costuma apresentar, o que também é um ponto positivo em sua tentativa de fugir de qualquer tipo de excessos dramáticos, e até mesmo sua relação lacônica com o policial que o vigia apresenta matizes inteligentes e verossímeis. Não bastasse, a cena em que Walter consegue com que sua nova amiguinha desabafe em relação à sua vida familiar é de partir o coração - sem que, para isso, seja necessário mais do que um bom texto, bons atores e uma direção sensível.

Quem procura um filme de suspense que explore com sadismo as entranhas da mente de um pedófilo deve passar ao largo de "O lenhador". Apesar de ter como protagonista um homem condenado por tal crime e nunca deixar que o público se esqueça disso, o filme de Nicole Kassel vai muito mais além do simplismo de seu tema central, alcançando notas superiores e oferecendo bem mais do que a ilustração de um desvio sexual. É um belo trabalho, delicado e inteligente que se escora na interpretação econômica e sensacional de Kevin Bacon, brilhante em um de seus trabalhos mais corajosos e viscerais.

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