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O ESCAFANDRO E A BORBOLETA

O ESCAFANDRO E A BORBOLETA (Le escaphandre et le papillon, 2007, Pathé Renn Productions, 112min) Direção: Julian Schnabel. Roteiro: Ronald Harwood, livro de Jean-Dominique Bauby. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Juliette Welfling. Música: Paul Cantelon. Figurino: Olivier Bériot. Direção de arte/cenários: Michel Eric, Laurent Ott. Produção executiva: Pierre Grunstein, Jim Lemley. Produção: Kathleen Kennedy, Jon Kilik. Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie Josée Croze, Anne Consigny, Niels Arestrup, Jean-Pierre Cassell, Max Von Sydow. Estreia: 22/5/07 (Festival de Cannes)

4 indicações ao Oscar: Diretor (Julian Schnabel), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem

É de se imaginar a reação do executivo do estúdio (no caso, o Pathé, de Paris) ao ser informado do projeto de "O escafandro e a borboleta": a história de um homem vítima de um derrame que, incapaz de mover um único membro do corpo exceto o olho esquerdo, revê sua vida e seus relacionamentos enquanto escreve suas memórias através de uma técnica nova, desenvolvida por sua fonoaudióloga. O roteiro, baseado no livro autobiográfico do personagem central, previa ainda que os quarenta minutos iniciais do filme fossem totalmente através do seu ponto de vista (ou seja, sem que ele interagisse ativamente com os demais personagens) e o diretor escolhido para o projeto, Julian Schnabel - que havia sido elogiado pela cinebiografia do escritor cubano Reinaldo Arenas, "Antes de anoitecer" - não estava interessado em astros de Hollywood para liderar o elenco, ainda que Johnny Depp e Gary Oldman tivessem sido cogitados para tal. Não é de admirar, portanto que, devido a tais particularidades, a adaptação de Ronald Harwood do livro de Jean-Dominique Bauby corresse o sério risco de manter-se na lista dos "melhores roteiros não filmados" da história. Mas Schnabel pode ser acusado de tudo, menos de desapaixonado: nascido no Brooklyn, aprendeu francês e convenceu o estúdio a mudar o idioma original do script para a língua original do protagonista - que ficou nas mãos do excelente mas pouco "comercial" Mathieu Amalric. Resultado: críticas unanimemente elogiosas e quatro importantes (e merecidíssimas) indicações ao Oscar: diretor, roteiro, fotografia e edição.

Realmente, a experiência de assistir a "O escafandro e a borboleta" não é das mais fáceis, uma vez que a obra de Schnabel foge do habitual festival de clichês que inunda os filmes do gênero e exige do espectador um mergulho sem reservas no universo restrito do protagonista. No entanto, sua inteligência e sensibilidade, somados à criatividade em transformar palavras e sentimentos abstratos em imagens de extrema poesia, fazem com que, ao final da sessão, o público sinta-se banhado de uma beleza de que somente o cinema europeu - livre das amarras financeiras da indústria hollywoodiana - é capaz. Anos-luz distante dos dramalhões sobre doenças e superação, a história de Bauby - editor da revista Elle francesa - é sobretudo coberta de humanidade, ao eleger como protagonista um homem comum, com defeitos reais e qualidades verossímeis, que tem sua existência transformada radicalmente de uma hora para outra e se vê obrigado a encarar pensamentos dos quais fugiu a vida inteira. Com a ajuda da atuação brilhante de Mathieu Amalric - que não precisa nem mesmo falar pela maior parte do filme - essa viagem por sua consciência é pontuada por cenas de uma poesia melancólica e nostálgica, valorizadas pela fotografia do oscarizado Janusz Kaminski ("A lista de Schindler" e "O resgate do soldado Ryan"), que consegue revestir a claustrofobia inerente à situação da trama com um verniz de delicadeza e uma atmosfera de sonho.


Já começando o roteiro com a internação de Bauby - sem deixar tempo para o espectador acostumar-se com a nova situação, assim como ele - "O escafandro e a borboleta" o acompanha pelo calvário de exames, visitas, especulações e procedimentos hospitalares tendo apenas seus pensamentos e memórias como vínculos com seu cotidiano pré-derrame. Sofrendo de uma condição chamada "Síndrome de Encarceramento" - consequência de um AVC que o deixou em coma por várias semanas - Bauby tem plena consciência do que se passa à sua volta, mas é incapaz de mover qualquer parte do corpo, com exceção do olho esquerdo, com o qual consegue enxergar as pessoas que passam a fazer parte de sua rotina, como a fonoaudióloga Henriette (Marie Josée-Croze) - que irá ajudar-lhe em sua comunicação com o mundo e até escrever um livro - e sua ex-mulher, Céline (Emmanuelle Seigner, sra. Roman Polanski), que releva a separação dolorosa para manter-se a seu lado com os três filhos pequenos. Além disso, Bauby repassa em sua mente também a relação carinhosa que mantém com o pai (Max Von Sydow).

Equilibrando com maestria cenas tocantes e diálogos inteligentes com sequências feéricas que exploram o turbilhão sensorial de seu protagonista sem nunca cair no sentimentalismo - com direito até a um inesperado senso de humor em determinados momentos - "O escafandro e a borboleta" é uma soma de qualidades que faz dele um filme imperdível e inesquecível. Além da fotografia inspirada de Kaminski e do roteiro perfeito em sua mistura entre drama, poesia e delicadeza narrativa, a direção de Schnabel (merecidamente indicado ao Oscar por seu trabalho) consegue ultrapassar os limites de um gênero ingrato e elevar seu filme a uma pequena obra-prima.

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