quarta-feira, 14 de outubro de 2015

AMOR

AMOR (Amour, 2012, Les Films du Losange, 127min) Direção e roteiro: Michael Haneke. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Nadine Muse, Monika Willi. Figurino: Catherine Leterrier. Direção de arte/cenários: Jean-Vincent Puzos/Susanne Haneke, Sophie Reynaud. Produção executiva: Produção: Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert. Estreia: 20/5/12 (Festival de Cannes)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro, Diretor (Michael Haneke), Atriz (Emmanuelle Riva), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor da Palma de Ouro de Cannes: Melhor Filme 

“Amor”, como o próprio título revela, é uma história de amor. Mas não espere por um romance açucarado, com belos, jovens e loiros amantes se abraçando diante de paisagens deslumbrantes. Sob a visão do cineasta alemão Michael Haneke, amor é um sentimento cujos conceitos precisam ser debatidos, questionados e redimensionados. Sob sua ótica analítica e aparentemente fria – devidamente premiada com a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – amor é algo que ultrapassa a compreensão corriqueira e banal do dia-a-dia e só encontra uma prova dura o bastante para testá-lo quando a própria vida (sob a forma de uma doença avassaladora) se encarrega disso. O que é o amor? Existe medida para ele? Até onde iria a sua coragem quando se trata de aliviar a dor da pessoa amada? Essas questões, simples mas de difícil resposta, estão no âmago do filme, um petardo emocional valorizado pelas fabulosas interpretações de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva.
Eles vivem o casal de octagenários Anne e George Laurent. Aposentados, vivem confortavelmente em um amplo apartamento em Paris, leem, frequentam concertos e ocasionalmente recebem a visita da filha única, Eva (Isabelle Huppert), que fez carreira na música, influenciada principalmente pela mãe, professora de piano. Sua vida pacata e sem sobressaltos começa a mudar quando Anne precisa ser submetida a uma cirurgia e, após isso, inicia um lento processo degenerativo, que, a partir da paralisação do lado direito de seu corpo, ameaça sua liberdade de movimentos e sua independência física. Aos poucos, a rotina do casal passa a incluir médicos, enfermeiras e remédios. Dependendo do marido até mesmo para as coisas mais elementares, Anne vai definhando dia-a-dia, obrigando George a tirar forças do fundo da alma para mantê-la viva e a seu lado.



É impossível não se deixar envolver pelo drama de Anne e George, por mais que Haneke fuja das armadilhas sentimentalistas que a trama possa oferecer. Seu roteiro, limpo e direto – indicado ao Oscar e derrotado pela sanguinolência irônica de Quentin Tarantino e seu Django – toca direto nos medos e nas angústias mais profundas do ser humano, sem retoques ou exageros, com uma placidez e uma economia admiráveis. A bela fotografia de Darius Khondji explora com requinte e sutileza o cenário do filme – o belo apartamento tornado cada vez mais vazio e desolador – e utiliza a luz natural de algumas sequências como comentário visual da ação, fazendo-a flutuar de acordo com a claustrofobia crescente da doença de Anne. A câmera quase estática de Haneke – também concorrente ao Oscar – faz com que o público compartilhe do desconforto dos personagens, presos a uma situação imutável e desesperadora. E quando obriga o espectador a testemunhar cenas de impacto surpreendente, o cineasta o faz sem chamar a atenção para isso, revestindo os atos com uma normalidade assustadora que os deixa ainda mais tristes. Nada de trilha sonora melosa, nada de choro em excesso: em “Amor” é tudo enxuto, simples, assertivo. E é aí que reside boa parte de seu brilhantismo.

Ao contrário do que fez em seu filme mais famoso, “A fita branca” – um estilizado conto em preto-e-branco sobre um vilarejo alemão prestes a entrar na II Guerra e que também concorreu ao Oscar de filme estrangeiro, na cerimônia de 2010 – Michael Haneke fez de “Amor” um filme despido de quaisquer exageros estilísticos. A importância que dá à sua história e à relação entre seus personagens centrais – vítimas de uma armadilha inexorável causada pela finitude de todos – é muito maior do que a metáforas visuais, ainda que elas existam e funcionem muito bem (o pombo que George liberta e depois aprisiona, por exemplo). Não exatamente um cineasta dotado de otimismo em relação à raça humana – vale lembrar que são dele também o opressivo “Violência gratuita”, que ele refilmou nos EUA e o brutal “A professora de piano” – Haneke, no entanto, dá a seu filme um final relativamente feliz. Feliz? É aí que entra a controvérsia. O desfecho de “Amor” é polêmico justamente porque põe o dedo em uma questão que a maioria das pessoas prefere ignorar: até onde se pode suportar o sofrimento da pessoa amada? Ou, mais cruel pergunta: o quão longe estamos dispostos a chegar em nossa dedicação? Há limites para ela? Quem tem o poder sobre a vida e a morte?


“Amor” oferece ao espectador mais perguntas do que respostas. E só isso já faria dele obrigatório. Mas, além disso, há ainda os desempenhos fascinantes de Jean-Louis Tringtinant (saindo de um autoexílio cinematográfico de anos) e Emmanuelle Riva (a estrela de “Hiroshima, meu amor”, sublime em cada momento). Riva perdeu o Oscar para Jennifer Lawrence no medíocre “O lado bom da vida” – o que apenas comprova o quão bem mais mercadológicas do que artísticas são as decisões da Academia – mas é seu trabalho que ficará para sempre na cabeça de todos os que se propuserem a mergulhar no denso e sufocante universo de Michael Haneke.

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